A Comunicação Social e o Autismo

Selma Sueli Silva

Muitas pessoas e até profissionais questionam o autista quando ele se comunica bem, quando ele não tem dificuldades no diálogo, e aí já questiona e rotula: “Todo o autista tem que estar ligado à dificuldade na comunicação”. Quando eu prestei vestibular, ainda sem saber do meu autismo, eu escolhi o curso de comunicação social justamente porque eu não sabia entender as regras da sociedade. Eu ficava muito frustrada porque parecia que eu falava grego, que ninguém me entendia. E olha que eu era muito falante, falava até de uma maneira acelerada, muito rápido.

Eu me lembro de muitas vezes ter sido interompida: “Calma Selma! Vamos com calma! Fala mais devagar!” E eu me frustrava, percebia que as pessoas não me acompanhavam. Às vezes, eu queria externar uma opinião, fazer uma pergunta e, mais uma vez, frustração. Tinha a impressão que não conseguia falar de uma maneira que as pessoas me entendessem, embora eu tivesse a consciência e acreditava nisso, de que eu estava falando tudo certinho. Essa dificuldade me acompanhou na minha adolescência. Tive muitos problemas com meus namorados e com as amizades que tentava fazer. Eu cursei o ensino médio no CEFET. Fiz Edificações. mas quando eu fui optar pelo curso no vestibular, desisti da engenharia e quis ser comunicadora. E esse mundo da comunicação mexeu comigo. É um mundo imenso, vasto, cheio de ferramentas, cheio de possibilidades.

Antes de optar pelo curso de Comunicação Social, eu imaginei que a comunicação era linguagem: falava legal, ok! Ouvia legal, melhor ainda. Uma pessoa falando, outra ouvindo, estava tudo certo. Dentro da comunicação social, eu fiz primeiro relações públicas; depois, fiz jornalismo. Um mundo imenso se abriu para mim. Entendi que comunicação ia muito além da linguagem. Descobri a semiótica, que é a linguagem subliminar. Parecia um paradoxo: uma autista, que tem fragilidade na comunicação, descobre a semiótica e mais: passa a amar a semiótica, essa linguagem subliminar: a interpretação dos quadros de Van Gogh. “Por que ele usava amarelo, porque as cores dos quadros dele pareciam pular em cima da gente…”. Depois, os filmes: o porquê do vermelho em determinadas tomadas, o porquê de uma determinada cena mais iluminada, outra não. A sonoplastia, o silêncio – quanta coisa pode dizer o silêncio. Tudo isso é comunicação. Tudo isso nos aproxima ou nos afasta das pessoas, nos aproxima ou nos afasta de quem a gente quer bem.

A partir daí, comecei a estudar essas ferramentas. Descobri que perdi algumas coisas. Nunca havia feito fonoaudiologia para falar mais devagar, por exemplo. Já fiz fono, certa vez, por causa de   pólipos nas pregas vocais,  mas nunca fiz em função do autismo.

Na comunicação, eu aprendi a falar e a respirar de uma maneira correta. Aprendi que, no coloquial, você fala algo e vai diminuindo o som, na medida em que fala. Quando você está numa interação ou no rádio ou na televisão, você precisa falar no mesmo tom do início ao final da frase, senão as pessoas perdem aquele finalzinho. Bingo! Eu comecei a usar isso no meu dia a dia, aprendi a olhar no rosto das pessoas para passar confiança. Apesar de ser complicado pois eu não conseguia elaborar e processar as minhas ideias olhando nos olhos da pessoa, porque era muita informação. Quase nunca eu entendia a expressão da pessoa e isso me deixava aflita. Mas eu aprendi técnicas para olhar nos olhos, técnicas para saber o que eu faria com as mãos, como ficaria em pé sem me sentir desajeitada. E é sobre isso que a gente vai falar em um próximo texto.

A Comunicação Social e o Autismo