A fada que era bruxa

Victor Mendonça

Ilustração: César Froes

Houve uma época – não faz muito tempo – em que vivíamos num reino encantado. O reino era dividido entre fadas e bruxos. As fadas eram dóceis e sabiam conversar candidamente. Os bruxos eram cruéis em suas palavras, mas gostavam de manter a coerência em tudo que diziam. O grande rei bruxo da região havia feito um pacto com as fadas, e ensinaria as bruxas a agirem como fadas, a parecerem fadas. Em troca, cobrava altas taxas de impostos.

Neste reino, vivia Annabeth. Ela era a rainha das fadas, e ensinava as outras fadas a usarem seu poder. Ela havia feito um pacto com o rei dos bruxos, que ensinaria seu filho Cruello a se tornar uma fada. No entanto, Cruello não era uma fada. Era um bruxo. Cruello vivia em profundo sofrimento por não saber se era uma fada ou se era um bruxo. Annabeth guardava para si o mesmo conflito: como a rainha das fadas poderia dar à luz um bruxo? Annabeth foi até o grande rei bruxo perguntar-lhe porque ela se sentia tão diferente, pois havia conversado com outras fadas que lhe disseram que, por mais que ela tenha se constituído como fada, ela lutava contra o que realmente era. Uma bruxa. Cruello, por ter muito orgulho de sua identidade, estava destinado a provar que Annabeth era uma bruxa, e não uma fada.

Annabeth gostava muito do grande rei bruxo e, por vezes, até se identificava com ele. O grande rei bruxo afirmou categoricamente que as bruxas eram diferentes dos bruxos, mas que as outras fadas não entenderiam isso e tentariam jogar Annabeth no limbo. Ele disse que havia uma missão em descrever o que as bruxas viviam, pois as poções mágicas até aqui eram focadas nos bruxos. Ao ouvir o grande rei bruxo, Cruello anunciou a todo o reino a descoberta. O grande rei bruxo não se sentiu à vontade com isso, e chamou os dois para uma conversa. Como assim, ele havia mudado de ideia? Os bruxos não baseavam-se na coerência? Ele amaldiçoou Annabeth e Cruello para que vivessem um inverno eterno.  O frio matava as bruxas. No entanto, Cruello havia aprendido a realizar a magia das fadas com Annabeth. As fadas transformavam veneno em remédio. E logo, o inverno eterno em que eles foram jogados tornou-se primavera, iluminadas por pétalas de mandara. Todos viveram felizes para sempre, sejam bruxas, sejam fadas.