A importância de cumprir a quarentena e como lidar com as crianças autistas e não autistas neste momento

Camila Marques

O período de quarentena é essencial para a queda e possível erradicação do coronavírus. Com as crianças em casa e sem aulas, lidar com informações com equilíbrio é crucial. O Mundo Autista conversou com uma especialista a respeito.

Neste período de quarentena, a nossa mente fica o tempo todo ansiosa diante da imprevisibilidade. Os rumos políticos, econômicos e sociais afetam sim a vida de todos, o que independe de classe social. Naturalmente, isso ocorre de maneiras diferentes, com cada um agindo de uma maneira. Neste momento, é essencial que as pessoas permaneçam em casa, visto que, de acordo com que os órgãos nacionais, internacionais, a classe médica e as próprias estatísticas têm informado, a maneira mais eficiente de combater o Coronavírus é o isolamento.

A incubação e evolução do Convid-19 leva uma semana. Depois disso, o tratamento hospitalar se estende, em média, por 10 dias. Qualquer ação visando frear os efeitos do vírus leva 15 dias para se tornar perceptível depois de adotada.

A cidade de Wuhan, epicentro do Coronavírus, na China, entrou em quarentena oficial em 23 de janeiro. Na Coreia do Sul, os casos de coronavírus começaram a ganhar visibilidade em 20 de fevereiro. Medidas adotadas pelo governo local, como o estabelecimento de 43 postos de coletas de amostra com capacidade de teste para 15 mil pessoas por dia, foram essenciais para a queda dos casos, além do isolamento. Mesmo com os esforços da ciência e do governo, os casos só apresentaram queda em 03 de março. Por sua vez, a Espanha entrou em isolamento no dia 16 de março. Hoje, o país superou a China em casos de óbito por conta da doença. São 4 mil mortes. Somente ontem ocorreram 655 mortes, conforme dados divulgados pela Agence France-Pesse (AFP).

Vírus são seres vivos (apesar de não possuírem células) altamente mutáveis. Para superarmos de forma exata a Covid-19, teríamos que ter uma vacina ou tratamento eficaz, o que ainda não existe. Para alcançar uma regular imunidade coletiva, o estimado teria que estar entre 50% e 70% para proteger a população. Para isso, o vírus teria que disseminar para que parte das pessoas adoecessem e se curassem para que o corpo produzisse anticorpos (não dá para defender essa tese, porque, para que isso ocorresse, inevitavelmente, algumas pessoas morreriam, pois, nem todos resistem a doença). O período de quarentena é necessário até para que o Sistema Público de Saúde, Ciência e Governo ganhem tempo para adotar medidas urgentes para aqueles que, inevitavelmente, irão adoecer. Os dados informados anteriormente foram informados pelo consultor Thomas Pueyo* em sua coluna “O martelo e a Dança”, disponível no Medium. Até o momento, o Brasil registra 57 mortes.

O que fazer com as crianças nesse período?

A quarentena é um período em que parte da população está realizando tarefas de trabalho e estudos em casa. Muitos passam parte do dia na frente de um computador ou atendendo a telefonemas, o que não impede os pais de terem que se dedicar por um tempo a dar atenção aos pequenos, que estão sem aulas e suas babás.

Romper a rotina de brincadeiras, deixar de interagir com pessoas com diferentes e até mesmo sair de casa afeta a rotina das crianças, porque até os cincos anos elas vivenciam constantes descobertas cotidianas. Se tratando da criança autista, essas experiências podem ser intensificadas, considerando que dependem da mente de cada criança, pois o espectro existe e possui intensidade. No entanto, é importante não reforçarmos estigmas e preconceitos.

O MUNDO AUTISTA realizou uma entrevista com a doutora Tatiana Riguetti (via e-mail), psicóloga pós-graduada em Intervenções Precoces no Autismo. Para a psicóloga, é preciso sim informar aos pequenos o momento atual, mas de forma resumida e lúdica, sendo necessário tranquilizá-las, garantindo a saúde mental.

“Crianças tendem a superdimensionar e ter medos mais exagerados que adultos, mas elas precisam compreender o motivo de não poderem mais sair para brincar, convidar um amigo para uma atividade em sua casa ou a ausência da terapia com aquele terapeuta de que tanto gostam. Sem entender esse contexto, isso pode parecer mais um castigo do que uma necessidade”.

Tatiana alerta sobre o atual momento e a sensação que o cenário provoca — o que afeta os adultos, e mais ainda os pequenos. Segundo ela, a rotina não precisa ser exatamente como se a criança estivesse na escola, pois o momento é duro e não requer cognição.

“O que podemos fazer é inserir o cenário do vírus e do confinamento dentro das atividades propostas, garantindo que as peculiaridades de cada criança sejam atendidas. Por exemplo, uma criança com tendências a TOCs de limpeza não pode ser exposta a muita informação sobre lavar as mãos: isso pode gerar um estado de ansiedade irreversível e uma piora do quadro de base dela”.

A profissional ainda indica:

Até para os adultos, o excesso de informação gera angústia. Não vejo como sendo positivo deixá-los expostos aos noticiários o tempo todo. Na hora de nos informar pela TV, é importante manter as crianças ocupadas com atividades de que gostem e que estimulem sua criatividade.“

Durante nossa conversa, ao abordar sobre crianças autistas, de modo mais específico, Tatiana deu a seguinte resposta:

“Toda criança, com atraso no desenvolvimento ou não, necessita de uma rotina; infelizmente, não fazemos ideia do tempo que ainda ficaremos em nossas casas. Por isso, precisamos adaptar uma rotina que leve em conta os dois níveis de aprendizagem, de energia, de curiosidade”.

Pais que têm filhos autistas ou não devem colocar ambos em atividades em que estejam em sintonia, fortalecendo a amizade e a socialização entre eles.

“Faça atividades que vão agradar aos dois. Mas no momento em que o nível de desenvolvimento for muito diferente, separe-os. Uma solução pode ser colocar a criança neurotípica em uma atividade que dependa menos de suporte no momento em que você precisa dar o suporte para o autista. Sugiro a elaboração de uma rotina em que a criança participe da elaboração das atividades, sugiro ainda que as atividades planejadas sejam respeitosas com o nível de desenvolvimento da criança e que não tragam, num momento já muito difícil, a sensação de que ‘não sou capaz de fazer isso’. Para o dia a dia, que sempre existam atividades sensoriais e motoras como circuitos e bacias com água colorida ou bolhas de sabão, que agradam tanto a autistas quanto a não autistas. Sempre levando em consideração o nível de desenvolvimento do seu filho autista”.

Mãe de dois filhos, um de seis anos e outro de seis meses, Tatiana acredita que a separação das atividades entre motoras, sensoriais e cognitivas auxilia a não deixar nenhum ponto de desenvolvimento infantil fora da quarentena, além de proporcionar atividades diferentes ao longo do período, tornado o aprendizado dinâmico. Por isso, a importância da terapia e do auxílio profissional, ainda que seja online, mesmo que a distância geográfica também seja um impedimento dependendo do local onde a família reside.

“Existem equipes prontas a oferecer um suporte online com qualidade e eficiência. Muitos pais não acreditam que estas atividades tenham efeitos a distância, mas a nossa experiência de anos trabalhando com coaching de pais de cidades muito afastadas de grandes centros e que sempre tiveram que fazer os programas de desenvolvimento virtual mostra que é possível sim ter ganhos com o atendimento online”.

Por último, deixamos uma lista de brincadeiras que podem ser adotadas no cotidiano; afinal, o momento requer criatividade.

– Circuito motor (com materiais de casa, cadeira, colchão, balde, vassoura…).

– Circuito motor usando fitas adesivas, fitas crepe…

– Cama de Gato (utilizando barbante, elástico, prendendo no pé das cadeiras).

– Pescaria com os pés (coloque água em uma bacia e pesque as bolinhas com os pés).

– Jogo de Vôlei (coloque um lençol amarrado entre cadeiras e com um balão faça uma bela partida).

– Mestre mandou (as crianças amam e você pode aproveitar para trabalhar diversas habilidades como: levantar, arrastar, pular, dançar, imitar um animal…).

– Amarelinha.

– Coelhinho sai da toca.

– Caça ao tesouro.

– Não deixar o balão cair (uma atividade simples que permite muitas possibilidades na interação com a criança).

– Atirar ao Alvo (empilhar copos plásticos, papel higiênico, latas).

– Escola de aviões de papel (com uma cartolina grande ou papel de cenário, construa um alvo para os aviões de papel). Recorte círculos com diferentes tamanhos e dê-lhes uma pontuação. Os espaços maiores têm pontuação mais baixa, os espaços menores têm pontuação mais alta.

Para treinar a força de braços, pode se fazer uma competição de quem atira o avião de papel mais longe, medindo com fita adesiva uma régua no chão para obter o resultado.

– Corrida das Fronhas – criar um circuito no seu corredor ou na sala e fazer uma corrida com fronhas de almofada (ou outros panos que tenha disponíveis). Mas diferente de correr a corrida vai ser de quem desliza melhor… com o “bumbum”. Esse exercício treina os músculos do tronco, das pernas e dos braços. Uma boa forma para gastar energia.

– Saltar almofadas. Utilizando almofadas de diferentes tamanhos, construa um percurso corredor ou sala. O objetivo é saltar de uma almofada para a seguinte. Podem começar com saltos normais. E depois comece a variar: saltos de rã, saltos de canguru, saltos de coelho, só com um pé, saltar com os pés juntos, dentre outros;

– Dia de Masterchef: peça ajuda ao seu filho para a realização de um lanche.

– Pintura com os pés.

– Confecção de tintas diferenciadas (gelatina, frutas, vegetais).

– Exploração no gelo: coloque objetos e congele, peça à criança que use um borrifador de água ou martelinhos de brinquedo para salvar os objetos de dentro do gelo. A atividade trabalha bastante o sensorial.

– Construa um minhocário. Cozinhe macarrão para representar a minhoca, coloque em uma vasilha com pó como sendo a terra. E com o auxílio de uma pinça ou com a própria mão, brinque com a criança de tirar as minhocas.

Thomas Pueyo* é mestre em Engenharia, possui MBA, pela Universidade de Stanford. Ex-consultor. Criador de aplicativos virais com 20 milhões de usuários. Atualmente lidera um negócio de bilhões de dólares no Course Hero.

Tatiana Riguetti é graduada em Psicologia, pós-graduada em Intervenções do Autismo. Possui certificado em Modelo DIR Floortime, cursos de Integração Sensorial, dentre outros cursos. Atualmente, possui o projeto “Quintal em casa”.