A importância dos educadores na neurodiversidade dentro das escolas

Cristiane Duarte, Psicopedagoga

Parceria é algo que se estabelece no dia a dia, a cada novidade, a cada desafio. E assim fui construindo minha parceria com o autista Victor Mendonça –  quando fui supervisora pedagógica dele – e com seus colegas ao longo dos anos. Especificamente, no ano em que aconteceu o ápice do comprometimento social, na 2ª série do Ensino Médio. A abertura que eu tinha com os alunos foi fundamental, primeiro porque muitos já o conheciam e segundo porque o Victor confiava plenamente em mim.

É muito importante salientar que a vivência com o Victor e a Selma (hoje youtubers do “Mundo Asperger”) na escola, ao longo dos anos, fez toda a diferença. Conhecer como era acompanhado, a linha de pensamento dos profissionais que o assistiam e a abertura para o diálogo entre todos foi o plus para todo o passo a passo. Eu sabia como o Victor chegaria na escola, pois o canal aberto, via e-mail, com a mãe dele nos mostrava por onde seguir. Lembro-me de chegarmos, eu e Victor, juntos na escola. Ali escrevíamos o script do dia, da semana, do mês e antecipávamos angústias e possíveis ansiedades.

Conviver com a fobia social do Victor foi um aprendizado único. Uma coisa é dominar a teoria, outra coisa é viver a prática. Viver a Fobia dele foi viver o comportamento e as reações de cada um que o cercavam no dia a dia. Precisei aprender que existe uma linha tênue e invisível que une e separa as pessoas e que cada um age ou reage a cada manifestação. Lembro-me que ele passou a ter aulas comigo. Eu era o canal de ligação. Xerox e fotos dos cadernos, provas realizadas sob a minha presença, definíamos o discurso entre as pessoas. Usamos uma linguagem direta sem rodeios e sempre o perguntava como ele se via naquela posição ou situação. Victor foi o protagonista, pois nos dava todas as pistas para como construirmos a história do minuto seguinte. Observar seus olhos, seu caminhar, sua fala me trazia elementos de como a medicação estava atuando no seu organismo e minha “luzinha interna” e conhecimento diziam: “avance ou recue”.

Para lidar com as dificuldades de comunicação e interpretação do aluno autista, utilizei algumas estratégias:

  • Reunir com o grupo de professores e deixá-los perguntar sobre o assunto. Ouvi-los e encontrar caminhos e possibilidades juntos.
  • Não existe receita pronta. Existe Victor Arthur (que era como o chamávamos à época), então o acompanharemos diariamente e dentro de suas particularidades e individualidades. A cada fato novo, uma estratégia nova.
  • Ninguém deve invadir o espaço do outro, ou seja, o toque, o abraço, o aperto de mão deve ser desejo de ambas as partes, então não o façam a menos que Victor manifeste intimidade para isso.
  • De extrema importância: nunca imponha as coisas, pergunte. As dúvidas nos possibilitam caminhar da forma correta e menos invasivas.
  • O autista no quadro de Fobia Social não é um estranho! É um ser humano com dificuldades e necessidades de cuidados individuais, assim como outro aluno. O importante é manter o olhar e a escuta atentos.

Para conquistar a confiança do aluno e da família, é necessário muito diálogo e transparência, nenhuma omissão; todo e qualquer fato é relevante. A confiança se estabeleceu através dos anos, da abertura ao aprender juntos. Dentro do “vamos que vamos”, não criando expectativas e acreditando que um dia de cada vez nos traria frutos maravilhosos. E, assim, nos fizemos parceiros, família e escola.

Para o trabalho de inclusão, nos reuníamos periodicamente para pensarmos em cada passo a seguir. Tivemos a parceria de profissionais especializados que vieram falar sobre o assunto e muito estudo. Toda bibliografia interessante e prática era repassada aos educadores, para que soubessem sobre o assunto.

A busca do conhecimento deve ser uma constante no meio acadêmico. Lidar com todo e qualquer indivíduo requer dedicação, porque todos, todos nós temos nossas particularidades e, não são síndromes ou outros diagnósticos que ditam como agiremos e sim a individualidade. Sempre recomendei aos meus professores a entrarem em sala como se estivessem entrando para um bloco cirúrgico. “Passem pela a sala de higienização, dispam de toda sujeira e contaminação, só assim entrem na sala. Descontaminem de verdades prontas, receitinhas, olhem, analisem, vivam o processo e construam situações com cada um dos sujeitos que ali estão. Garanto, o sucesso da cirurgia e das relações passam por aí.”