Andrea Werner – Conheça a trajetória de ativismo e luta politizada

Selma Sueli Silva e Andrea Werner

Andrea Werner fala sobre a importância da política para as conquistas dos direitos das pessoas com deficiência. 

Selma Sueli Silva: Andréa Werner: essa mulher me encanta, ao mesmo tempo que me pergunto como ela dá conta de tudo. Afinal, Andrea tem o blog, que é referência na área da inclusão das pessoas com deficiência. Ela já ajudou muita gente com esse trabalho muito bacana que é o Blog Lagarta Vira Pupa, que também é o nome de um de seus livros, que eu tenho autografado e guardo com muito carinho. E, depois disso, ela foi crescendo, crescendo, e achou que estava no momento de retribuir isso tudo, o que ela tinha aprendido nessa maternidade atípica, para a sociedade. Nas últimas eleições, ela disputou uma vaga de deputada federal, pela cidade de São Paulo, e teve 45 mil votos. Ela é também, uma das quatro jornalistas mais influentes no Twitter. Isso é muito bacana, porque o Twitter é o termômetro das coisas que estão  acontecendo no Brasil e no mundo. Andrea, me conta como é que você consegue fazer (e fazer bem), tanta coisa assim?

Andrea Werner: Primeiro, vamos explicar a questão sobre o ranking do twiter, que eles fazem por semana. Eu já saí algumas vezes nesse ranking e, na última vez, foi há algumas semanas, em que eu estava em quarto lugar. Como esse é um lugar de gente muito politizada, inteligente, que debate muito, enfim, tudo estoura no Twitter, então para mim, foi uma super honra.

Selma Sueli Silva: E com um dado de peso. Você é uma jornalista que não está ligada a nenhum veículo convencional, portanto, é um feito muito grande. A gente que é jornalista sabe disso. É fruto de muito trabalho.

Andrea Werner: Sim, de influenciar as pessoas para o bem, pelo menos. A gente sabe que tem muitas pessoas que não fazem este trabalho, mas eu estou tentando fazer. Com relação a candidatura à deputada federal, foi um processo de politização. Eu mudei para o exterior em 2013. Nessa época, eu não era uma pessoa politizada. Eu morei um ano na Inglaterra, e depois eu fui para a Suécia. Foi quando eu lancei o meu livro, Lagarta Vira Pupa. Eu voltei ao Brasil e, resumindo a história: a Suécia é uma nação de bem-estar social. A desigualdade por lá é mínima. Você vai a um restaurante bacana e senta um pedreiro ao seu lado, para comer. Serviços básicos, que aqui no Brasil, são todos mal-pagos taxados, às vezes, de subemprego, lá são muito caros. Os profissionais da área, escolheram essa tarefa, porque eles realmente querem fazer isso, e não porque não tiveram outra opção, já que a educação é gratuita desde cedo, até a universidade.

Depois de morar na Suécia, eu acabei me politizando, entendendo a importância dessa representatividade para transformar impostos em serviços de qualidade à população. Tudo isso, foi bem na época que teve a segunda eleição da Dilma e logo depois o impeachment. Então eu comecei a me politizar. A última pessoa na qual eu tinha votado para presidente foi o Fernando Henrique, na primeira eleição dele. Eu estava em Belo Horizonte. Depois disso, eu me mudei para São Paulo, em 2001, e eu só justificava meu voto e não votava. Logo que eu voltei da Suécia, eu falei para o meu marido: “Eu preciso transferir meu título para São Paulo porque eu preciso votar. Está na hora de parar com essa palhaçada de justificar o meu voto porque a gente fica reclamando, mas a gente bota essas pessoas lá”. Em 2018, eu participei de uma audiência pública no Congresso, um deputado me viu lá, me chamou para conversar e foi um susto. Ele me falou para eu me candidatar e fiquei em choque. Eu, realmente, não tinha pensado nisso em momento algum da minha vida, Mas, conversando com meu marido, ele disse: “Olha Deia, você tem uma base grande de seguidores, você já entendeu que precisa por uma pessoa que nos represente lá, para poder fazer alguma coisa com este foco nos direitos da pessoa com deficiência, na inclusão e direitos humanos. Vai ficar esperando alguém fazer? Acho que vale a pena tentar.”

E eu fui tentar, sem dinheiro nenhum, sem padrinho político, contando apenas com as seguidoras. Eu falava assim: “Se você quer me ajudar, junta as amigas do seu bairro na sua casa, e eu vou lá, fazer uma roda de conversa”. Eu viajei o estado inteiro. Eu tive voto de Piracicaba, Marília, eu fui para muitas cidades e lugares. Tudo na base das seguidoras que me acolhiam, chamavam as amigas e culminou com esse resultado de quase 45 mil votos. Eu fiquei no lugar de suplente. Uma pessoa próxima a mim fez as contas e vimos que o meu voto para deputada federal foi o voto mais barato para o estado de São Paulo, nessa relação do valor gasto na campanha e número de votos. Algo surreal, o que mostra como a nossa causa é forte e como a gente tem potencial de botar representantes legítimos lá para legislar, fiscalizar e muito mais a nosso favor. E a gente sabe o quanto isso é importante para as pessoas com deficiência. Então, isso me despertou para a política e inclusive, me tirou vários preconceitos que eu tinha. Eu achava que todo político é ladrão, só quer roubar e isso não é verdade. Eu conheci várias pessoas que realmente querem o bem das outras pessoas, que querem o bem para o país. Minha candidatura foi algo bom em vários aspectos. Portanto, eu penso que as pessoas só têm que escolher melhor, só isso.

Selma Sueli Silva: Quando eu estava na rádio, as pessoas perguntavam assim: “Selma, em quem você vai votar?”. O ouvinte tem muito disso. Ele confia nos comunicadores. Mas eu dizia: “Não, não vou falar”. E a pessoa insistia que queria votar em quem eu fosse votar. Eu explicava que não podia fazer isso com ela ou ele, que não era justo, e se eu estivesse errada? Então o ouvinte me perguntava: “Mas como é que você escolhe o seu candidato?” e eu explicava que, como jornalista, eu gosto de cruzar informações: eu não ouço só uma rádio, eu não vejo uma só televisão, eu vejo várias fontes para fazer o cruzamento das informações e sempre  vai existir uma interseção. E nessa interseção, existe uma possibilidade maior de ser onde está a verdade. Então, é assim que eu faço: vou medindo. E dá trabalho, porque tem que conhecer, tem que pesquisar. Dá trabalho porque você tem mesmo que acompanhar os candidatos. Como é que a gente, mortal comum, do lado de cá, vai “separar esse joio do trigo”, Andrea?

Andrea Werner: Olha, pelo Portal da Câmara, você consegue saber tudo dos deputados: desde o quanto ele gasta no gabinete até quais os projetos de lei que ele tem, quantas sessões ele compareceu, quantas sessões ele faltou, tudo mesmo. E isso já nos dá bons indicativos. Uma pessoa que já está lá, que fez projetos de lei que são bacanas, que influenciam na vida da população, nas políticas públicas, que era frequente, enfim, isso tudo faz dessa pessoa um pacote bacana. Então, a gente tem esse papel de fiscalizar, acompanhar. Mas o problema é que a população ainda está muito despolitizada e não entende que não adianta a gente ficar reclamando do político, se a gente botou ele lá. Tem político lá que teve 200 mil votos, foi colocado lá por alguém. Se essas pessoas que colocaram ele lá não cobrarem para que ele faça coisas que sejam benéficas para quem votou nele, não vai adiantar. Esse é o papel de cada um, mas dá trabalho, você checar tudo, a proposta. Teve gente que chegou para mim em 2018, e disse: “Eu queria votar em você, mas eu não sei o que você acha disso e daquilo, mas eu queria saber o que você acha”. Beleza, senta aqui e vamos conversar, vamos falar, e vamos explicar. É isso, tem que procurar saber, tem que entender que proposta que o candidato tem, tem que entender o passado da pessoa. Tem um monte de coisa que podemos fazer para votar melhor mas, de novo, dá trabalho. As pessoas precisam entender que é um trabalho que vale a pena, porque democracia representativa é isso: você está botando aquela pessoa ali para ela te representar. Então, tem que ser feito direito. A gente tem que saber em quem estamos votando.

Selma Sueli Silva:  Eu não vou te perguntar mais nada, porque eu quero guardar mais coisas para o nosso próximo encontro, daqui a 15 dias.  Fique de olho no nosso Blog.

Andrea Werner* também é colunista da revista Crescer e, em 2019, promoveu uma campanha contra o Miracle Mineral Supplement, também conhecido como MMS, no Brasil, chamada #ForaMMS. Ela é autora dos livros” Lagarta Vira Pupa” e “Meu amigo faz iiiii”