As tecnologias avançaram, mas o quanto nós avançamos?

Victor Mendonça

Em meio a debates sobre capitalismo, inteligência artificial e desarmamento, questiona-se: até que ponto evoluímos enquanto seres humanos?

No dia 14 de junho de 2019, participei de reunião comemorativa ao aniversário de fundação da Divisão Masculina de Jovens (DMJ) da Soka Gakkai Internacional, ONG à qual sou filiado e que milita pela Paz, Cultura e Educação. Esse encontro com outros rapazes ocorreu para pensarmos em soluções efetivas para os conflitos sociais enfrentados na atualidade, por meio de nossa postura como jovens em meio à sociedade. Tal diálogo me proporcionou uma série de reflexões.

Somos parte de uma geração que tem acompanhado um avanço crescente nas áreas tecnológica, do desenvolvimento quântico e da inteligência artificial, dentre outros setores. Existem até mesmo robôs capazes de compor músicas e, em um futuro não muito distante, teremos carros que funcionem sem motoristas, nos quais a pessoa poderá ir ao seu destino sem se preocupar em dirigir. Isto exige gasto para construir robôs capazes de tomar decisões rápidas, como, em caso de acidente, salvar um idoso ou uma criança. Essa inteligência artificial deverá ter acesso ao histórico de vida das pessoas para perceber a relação custo e benefício e decidir, em segundos, qual vida salvar. É uma capacidade de processamento e armazenamento de informações muito superior do que se reuníssemos milhares – ou até milhões – de seres humanos.

Esse desenvolvimento está nas mãos de quem possui os elevados recursos financeiros necessários para bancá-los, e podem ser usados tanto para fins que nos tragam maior praticidade e conforto quanto para a Guerra. E, analisando por esse viés, que chance o Brasil teria em uma disputa contra, por exemplo, a China ou os Estados Unidos?

Em maio de 2018, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lançou a Agenda para o Desarmamento — um detalhado relatório sobre essa questão. O documento afirma que os gastos militares globais superaram 1,7 trilhão de dólares, o nível mais alto desde a queda do Muro de Berlim. Assim, o total de gastos militares foi em torno de oitenta vezes o número para suprir as necessidades de assistência humanitária em todo o mundo. Ele alerta que “enquanto cada país buscar sua própria segurança sem se preocupar com a dos demais, cria-se uma insegurança global que ameaça a todos nós”.

A fala de Guterres vai ao encontro do que foi escrito pelo buda japonês Nichiren Daishonin no Tratado Estabelecer o Ensinamento Correto para a Pacificação da Terra, que ele entregou às autoridades nipônicas do século XIII. Ele ponderou: “Se o senhor se importa realmente com a segurança pessoal, deve primeiro orar pela paz e segurança nos quatro quadrantes da Terra, não é verdade?” (CEND, v. I, p. 24).

Embora a evolução do que é externo ao ser humano e criado por ele seja gritante nos últimos séculos, podendo beneficiar ou maleficiar milhões de pessoas, é questionável o quanto o próprio ser humano, internamente, evoluiu neste período todo. Mesmo pessoas que fizeram a diferença na sociedade, como Einstein e Alan Turing, sofriam de dificuldades sociais e eram muitas vezes vítimas da depressão.

O filósofo Arthur Schopenhauer, que viveu entre 1788 e 1860, jantava, em geral, no Englischer Hof. No início de cada refeição, colocava uma moeda de ouro sobre a mesa, à sua frente; e ao final tornava a colocar a moeda no bolso. Foi, sem dúvida, um garçom intrigado com esse gesto que lhe perguntou o significado daquela invariável cerimônia. Schopenhauer respondeu que era sua aposta silenciosa, com a promessa de depositar a moeda na caixa de coleta de esmolas no primeiro dia em que os oficiais ingleses que jantavam lá falassem sobre outra coisa qualquer que não fosse cavalos, mulheres ou dinheiro.

A fala de Schopenhauer se mantém atual, trocando apenas o tema das futilidades. As pessoas permanecem se mostrando superficiais e mesmo alienadas. É importante sim ter sucesso em questões materiais em nossa sociedade, mas para isso não podemos nos esquecer de ligá-los a um objetivo maior. É necessária uma transformação interna para que as pessoas que detêm os recursos que fazem a máquina do desenvolvimento capitalista girar se humanizem, e utilizem tais ferramentas para o benefício do povo, o que engloba a eles próprios. O comentarista político norte-americano Brenton Lengel diz que a Revolução, em seu sentido abstrato, é inevitável. Embora a história mostre o contrário, e mesmo não sendo necessariamente um pacifista, ele torce para que esta não seja uma revolução violenta, e sim algo que parta do humanismo de cada pessoa.

Sabemos que o mundo não é uma dualidade entre bem e mal, e sim entre a ignorância e o conhecimento. Precisamos inverter a lógica de nosso pensamento que tende a ir do externo para o interno. Para finalizar este texto, cito o filósofo Daisaku Ikeda:

As pessoas não existem em função da religião. É a religião que existe em função das pessoas. Mesmo na política não é o povo que existe em função dos políticos. São os políticos que existem em função do povo. No ensino, os professores existem em função dos alunos. Os médicos existem, acima de tudo, em função dos pacientes. Também a existência dos advogados, cientistas, jornalistas, tudo se resume em função do povo. Entretanto, na maioria das vezes, essa posição está invertida. Utilizam-se do povo para os seus próprios interesses e satisfações. Aqueles que exploram a religião para seus próprios fins egoístas oprimem e desonram as pessoas. Eles tiram impiedosamente vantagens dos outros, apossando-se do que podem e então, cruelmente, deixam as pessoas de lado quando não tem mais nada a oferecer. Da mesma forma, aqueles que exploram o mundo da política para o seu próprio fim compartilham do mesmo desprezo pelas pessoas. Os senhores não devem ser enganados por esse tipo de pessoa. As pessoas não existem para beneficiarem os líderes. O que deve ocorrer é justamente o oposto. Os líderes, inclusive políticos e clérigos existem para beneficiar as pessoas. Os professores por sua vez, existem para o bem dos estudantes. Entretanto, muitos dos que estão em posições de liderança comportam-se arrogantemente, desonram as pessoas”.