Autismo e Animais de Estimação

Victor Mendonça e Selma Sueli Silva

Hoje vamos falar sobre um assunto que a gente adora, e é por gostar tanto que temos dificuldades de ter animaizinhos de estimação — pets. Estamos encantados com vídeos da Internet sobre como o cachorro pode acalmar o autista em crise. Isso é regra? Não. Porque cada um é cada um, cada caso é um caso. Victor sempre quis ter um animalzinho de estimação, queria porque queria um animalzinho de estimação. E já tinha estudado tudo. É shitzu, porque é cachorrinho de apartamento, porque não late, isso, aquilo e aquilo outro… Queria que a mãe comprasse na Internet num domingo à noite. O sentimento do autista é geralmente exacerbado. Victor queria muito o cachorrinho, não conseguia esperar. Então, lá se foi a Selma, que já teve cachorrinho, já teve animal de estimação. O Victor também já teve. Quando moravam em uma casa, tinham o Woofer, que era um pastor alemão maravilhoso. O Woofer era um caso interessante, agressivo com todo mundo, mas protegia a gente, com quem era muito dócil e até manso.

Victor quis porque quis o shitzu e Selma sempre achou, com seu pensamento rígido, que cachorro não combina com apartamento, não merece viver em apartamento, e que apartamento não tem espaço para o cachorro, vai ficar com cheiro de cachorro, enfim… Mas, como Victor a convenceu, ela, por livre e espontânea pressão, lógico, saiu para comprar à moda autista, depois de uma pesquisa que levou a cinco cachorrinhos. Teríamos que escolher um deles. Éramos três pessoas: Selma, Victor e uma amiga. Todos escolheram a mesma cadelinha, cada um com motivo diferente. Selma escolheu a Sophie porque ela parecia tão calminha, não ia dar trabalho. Já Victor a escolheu porque era a mais pequenina, a mais bonitinha. E a amiga escolheu porque bateu a empatia. Então, ficamos com Sophie… Sophie se revelou.

Selma lembra que a amiga falou para Selma ter cuidado, porque logo de cara teria que mostrar quem era “o líder da matilha”. A líder da matilha era Selma, com aquela cara de general para a Sophie. A cadela tem esse nome por causa de Sophie Kinsella, escritora de quem Victor gosta muito, autora de “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”.

Mas Sophie era ardilosa, e muito esperta, ao contrário do que costumam falar sobre os shithzus. Primeiro: Sophie latia sim, bastante, e armava. Na hora que Selma estava saindo para o trabalho, ela, sabedora da mania da dona de manter tudo organizado, caminhava até o jornalzinho na área, fazia cocô e, não satisfeita, comia o cocô. Selma, com aquela sutileza, abria a boca de Sophie, pegava papel higiênico, arrancava o cocô de lá, jogava o cocô fora e escovava os dentes de Sophie. Até que alguém a alertou de que era assim que Sophie estava conseguindo a atenção dela.

Victor acha maravilhoso o quanto eles sentem a energia da casa. Pode ser maravilhoso por um lado, mas, por outro, se a energia não estiver lá essas coisas… E a gente acabou sendo a exceção à regra de que falamos no começo deste texto. Ocorre que, como Victor estava na adolescência, ele começou a ter crises, e Sophie, também adolescente, começou a ficar depressiva com a rotina da casa. Sophie foi criada assim: o espaço dela não era a casa toda, e no tapete nem pensar. Selma só falava: “Sophie, tapete não”. E ela obedecia, mas ficava olhando assim… Umas três vezes, fez xixi no tapete. E tudo para pirraçar, igual criança mesmo, quando tem uma birra.

Sophie começou a ter uma vida muito regrada, com uma “mãe” muito brava, igual era a mãe brava do Victor. E o Victor sofrendo. Um dia a gente percebeu: Sophie não está feliz. Não que ela estivesse infeliz com a gente. Em resumo, em vez de Sophie ajudar a gente, o contrário aconteceu. Graças à boa sorte, encontramos uma mamãe, a Lu e o filho dela, Rodrigo, que estão hoje com Sophie, que é muito feliz. Sophie agora corre para lá e para cá, e quando vê a gente ela reconhece, brinca, e Victor faz carinho na barriguinha dela, o que ela adora.

Mas, como a gente vai saber se o cachorro é bom para o nosso filho, filha ou família? O pediatra de Victor falou: a primeira coisa é que é vida. Vocês não estão levando um brinquedo para dentro de casa. É vida. Selma via Sophie respirando, comendo e percebia que ela dependia deles e tinha que ser muito bem tratada, não podia ir para a casa do outro para sofrer. É preciso pesquisar as características da raça, ver se essas características vão bater com as características da família.

Gato é a mesma coisa. Inclusive, as autistas no feminino são bem chegadas aos gatos e gatas porque eles são carinhosos de uma maneira mais discreta; não são iguais aos cachorros que pulam em cima de você e lambem. Victor achava incrível como Sophie respeitava a mãe dele, a única pessoa que Sophie não lambia, porque Selma não gostava desse contato por causa da textura da língua de Sophie em sua pele. Alguns autistas, principalmente mulheres autistas, gostam de ter gatos, porque o contato é afetuoso, porém mais distante.

Passarinho, peixinho… Tudo é educação, tudo é vida, tudo é relacionamento. Você não está colocando para dentro de casa mais um brinquedo terapêutico para ajudar o seu filho. Você está colocando um ser vivo que vai interagir com seu filho. Você, então, como mãe, como pai, vai ter que intermediar essa relação.

Uma coisa muito linda: os terapeutas também estão aderindo à moda. Aqui, em Belo Horizonte, a gente tem uma TO que faz um excelente trabalho com o cão-terapeuta dela, o Frederico. Abraços para Lane!

Entrou sensibilidade, entrou afeto, entrou amor, nota dez. Não se esqueça: tudo tem que ser intermediado de acordo com cada pessoa. Cada autista é um, a gente não pode forçar o nosso menino ou menina a ter um cachorrinho se eles não gostarem. Pode ser a solução para algum problema, vai ser uma nova vida, uma nova interação, que pode ser muito benéfica sim, mas também pode haver problemas.

A gente morre de saudade de Sophie, que a gente ama, tanto que este texto é dedicado a ela. Beijos para Sophie e Frederico!