Autismo e Depressão

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Victor Mendonça e Selma Sueli Silva

Hoje vamos falar sobre um tema que é muito recorrente, infelizmente, e que precisa ser muito discutido: a depressão no espectro do autismo.

Autistas são pessoas. Em primeiro lugar, a gente tem que entender isso. E pessoas que estão sujeitas a ter essa desordem química. Ainda mais quando consideramos que elas funcionam de maneira diferente, que não é compreendida pela sociedade, e essa incompreensão leva a efeitos colaterais, como ansiedade e depressão. Essas duas características, por sinal, andam juntas. Isso acontece muito também quando a gente tenta mascarar a nossa condição de autista: os nossos gestos, os sestros de autista, que quando a gente tenta mascarar acaba desenvolvendo condições coexistentes, e a depressão é uma delas.

Há algum tempo, pensávamos que só um adulto poderia ter depressão. Contudo, hoje temos que ficar de olho nas nossas crianças, porque há alguns anos, elas tinham medo de bicho papão, de homem do saco… Agora, as crianças têm medo de tiro, de assalto, de perder a mãe, de perder o pai. Então, é recorrente a depressão também para as crianças e adolescentes.

O adolescente, até dá para entender melhor, porque, inclusive, a área de psicologia já tem um estudo sobre isso, que é quando você está subindo a serra e não sabe o que você vai encontrar lá em cima. O momento da adolescência é muito complicado. Você não sabe direito como vai ser a vida de adulto. Outra fase é quando você está descendo a serra, porque o final, o fim de tudo, é a morte, e a gente não sabe também o que vem depois da morte. Então, é importante observar também nossos idosos. Inclusive, autistas idosos. Porque autistas sempre existiram. E existem, mesmo que sem diagnóstico, os autistas idosos.

Uma vez, Selma estava muito adoentada, não sentindo ânimo para as coisas, e indicaram a ela uma médica super Dez. A médica falou com ela que ela estava depressiva, ao que Selma respondeu: “Não, não estou depressiva. Eu não estou dando conta de fazer as coisas. Porque eu quero fazer, eu quero trabalhar, eu sonho, eu tenho metas… Eu gosto de acordar. Só não estou dando conta”. Era uma anemia muito profunda. Então, nem tudo é depressão, que é como se a vida perdesse todo o sentido, todo o colorido. Significa que a pressão para esse ser humano chegou a um ponto tal que já estão faltando substâncias químicas em seu cérebro e que se ela não fizer um tratamento psiquiátrico, acompanhado de outro psicológico, ela não dá conta.

Muitas mulheres não diagnosticadas vão ao médico que afirma que elas não têm nada além da depressão. E aí já rotulam a pessoa pela depressão. Isso acontece com homens também, mas é mais comum em mulheres. O autismo vai caminhar junto da depressão, ou seja, o autista tem maior probabilidade de desenvolver a depressão porque ele não entende o código do mundo, ele não entende o código de relacionamento humano, ele está aprendendo isso tudo e ele não está se colocando, está se sentindo inadequado no mundo. É preciso ficar muito atento, mas é um autista com depressão, não uma pessoa com depressão e que não é autista.

É importante sempre a gente lembrar que a depressão não é sinal de fraqueza, seja espiritual, seja pessoal, seja em qualquer sentido. Depressão é sinônimo de luta, ainda mais no espectro autista, de uma pessoa que vem enfrentando uma série de fatores num mundo que não é fácil para essa pessoa, e nessa luta ela acaba se desgastando muito, e desenvolvendo essas condições coexistentes.

Tem aquela pessoa que luta, luta, luta, decepção, decepção, decepção… É diferente daquela pessoa que lamenta, lamenta, lamenta. Ela gosta dessa condição, ela vai ficar lamentando porque ela crê que pela lamentação ela tem a atenção dos outros. Isso não tem nada a ver com depressão.

E uma coisa que queríamos deixar muito claro é que muita gente pensa que o autista leve tem uma vivência em sociedade mais leve do que o autista severo. Por favor, gente, não caiam nessa. Segundo estudos já comprovaram, o autista leve tem nove vezes mais chance de cometer suicídio que as pessoas típicas e seis vezes mais chances que os autistas não oralizados.

Então, vocês imaginem um autista leve que a sociedade olha para ele, sabe, com aquela frase, “nem parece autista?” Aquele cara ou aquela mulher saiu, está tentando conviver com os barulhos, os cheiros e tentando manter aquela aparência de “normalidade”. Isso todos os dias. O autista leve se esforça para essa convivência social, duas vezes mais que uma pessoa típica. Isso significa que quando você está numa festa e vai tirar foto do seu filho e fala assim: “Custa dar um sorriso?”. Custa! Para muitos de nós, custa. “Custa olhar para a máquina?”. Para muitos de nós, custa. “Custa ficar de pé, aqui, fazendo pose?”. Custa. Eu não tenho noção, eu não tenho autopercepção dos meus braços, da minha mão, eu vou chegar aqui para fazer uma pose, e como é que eu fico? Como é que eu não fico? Isso tudo é treinado. Isso tudo para o autista leve é treino, é aprendizado. Não é “robotizar”, porque isso também não dá certo, é você aprender que existe uma forma de conviver e de se comunicar com o outro, e que se você colocar nessa forma de convivência que o braço deve estar assim ou assado, fica melhor, você vai aprendendo (o que a gente gosta de falar) a regra do jogo, aí fica mais fácil de falar.

É bom lembrar para os pais, familiares e até profissionais da área de saúde, que em casos em que o autista enfrentou períodos depressivos e às vezes teve uma tentativa de suicídio, não é legar falar coisas do tipo “vamos ser mais rigorosos com ele, vamos ensinar para ele como é que é.” Não é bem assim. A gente tem que ter, sim, certo controle da pessoa, uma rigidez sim, mas com afeto, com benevolência. Porque senão a pessoa vai se sentir menos acolhida, menos entendida, e isso é muito comum no autista. É comum ele se sentir como uma parte fora do mundo, e se ele não se sentir acolhido, vai sofrer cada vez mais e alimentar um ciclo vicioso. O segredinho é fácil, fácil: a gente nunca perder o cuidado com o outro.