Autismo e Empatia

Selma Sueli Silva

Desde cedo, ao perceber minha inadequação com o mundo e as pessoas que me cercavam, resolvi estudar gente. Descobrir por que elas podiam ser tão boas e tão más ao mesmo tempo. Logo percebi que as palavras eram muito importantes quando se tratava da relação das pessoas. Resolvi ampliar meu objeto de estudo: gente e palavras.

Foi assim que, quando me disseram que era preciso ter empatia com o outro fui buscar alguns conceitos. Já estava na adolescência e descobri:

A palavra simpatia tem origem no grego (sym = união + pathos = emoção, sentimento) assim a palavra simpatia significa sentir com. Sou simpático quando a dor do próximo me incomoda e sou capaz de sentir com ele.

A palavra empatia (in = para dentro + pathos = sentimento) tem o sentido de sentir-me no lugar de, sendo, portanto, mais forte do que a palavra simpatia, pois, ante a dor do outro, eu me sinto no lugar daquele que sofre. A empatia nos torna sensíveis às dores do outro.

A palavra antipatia possui a seguinte formação: anti = contrário, oposto + pathos = sentimento. Logo, o antipático é aquele que se coloca em oposição ao sentimento alheio. As frases mais comuns do antipático em relação ao sofrimento alheio são: bem feito, que se dane, ainda poderia ter sido pior.

A palavra apatia é também grega e é formada pelo alfa privativo A + pathos. Assim, esta palavra significa: ausência de sentimentos, insensibilidade. O apático não dá importância ao sofrimento alheio que, para ele, praticamente, não existe. As suas frases mais comuns são: E eu com isso? Já tenho problemas demais; não é problema meu; cada um deve se virar como puder; foi buscar sarna para se coçar… Não sou irmã Paula; tenho mais é que cuidar de minha vida; não tenho nada com isso; quem pariu Mateus que o embale e outras frases semelhantes. O apático, em verdade, é uma pessoa egoísta que só pensa em si mesmo e, por isso, não consegue ver a dor do outro e muito menos senti-la.

Esse estudo me foi muito útil e me ajudou a dividir as pessoas em grupos.

  1. Grupo dos simpáticos: eram pessoas solidárias com as quais se podia desabafar.
  2. Grupo dos antipáticos: era melhor se relacionar com esse grupo em último caso, somente quando você estivesse bem, imune a fatores externos.
  3. Apáticos: era preciso fugir desse tipo de gente que só se preocupa consigo mesmo, são egoístas. “Os outros são os outros e só.”
  4. Empáticos: Esses sim, entendiam as dificuldades do outro e ainda tentavam arranjar soluções para ela.

Esse estudo me fez pensar que tipo de pessoa eu era. Percebi que estava mais para empática, pois o sofrimento do outro me fazia sofrer: se alguém adoecesse e me contasse, eu passava a sentir os sintomas; desmaiava se me contassem coisas como acidentes e tragédias, também desmaiava lendo a parte policial dos jornais; sofria a injustiça qualquer que fosse ela. Essas últimas características em particular, me levaram a ouvir de um médico: “calma! Você está entrando numa concorrência já perdida. Você quer ter a justiça divina, perfeita. Impossível.” Fiquei brava. Como impossível se era o que eu sentia? Grande ajuda. Então era isso e só. E ele continuou: “Você é compassiva. Isso aumenta seu sofrimento que você somatiza em doença.” E completou: ”Vou te passar um floral”.

Minha cabeça deu um nó.

  1. Desde quando floral era remédio? Remédio eram vendidos em farmácia, em caixinhas muito parecidas umas com as outras. Havia um padrão. Resolvi estudar sobre o assunto e entrei no mundo dos Florais de Bach.
  2. Compassiva… compassiva… que diabos era isso? Será que tinha a ver com passividade? Meu sangue ferveu. Como uma pessoa como eu que vivia pensando em soluções poderia ser passiva. Tratei de me acalmar. Quem sabe eu ouvi errado e a palavra era complacente? Não, isso tinha a ver com hímen. Lembrei que minhas colegas falavam sobre isso. Que queriam ter hímen complacente. Até que fazia sentido. Quem sabe eu era elástica, sofria mas voltava ao normal. Será? Lembrei do porquê de ele me dizer isso. Eu havia contado que andava muito esquisita. Sentia muito os problemas dos outros e sofria até quando via um cachorro de rua. Isso! Compassiva era a palavra. Corri ao dicionário.

Compassiva: Que possui ou demonstra compaixão; que compartilha dos sofrimentos alheios. Então era isso. Desejei que o floral desse certo. Eu sofria muito.

Contudo, essa característica só foi acentuando e eu sofria até com as desventuras do protagonista de um filme ou novela. Para amenizar o aperto constante no coração, conversava comigo mesmo e levantava todas as possibilidades de solução para essas situações.

Com o tempo, percebi que essa característica me trazia outras consequências: nunca brigava pelo melhor pedaço, abria mão de algo para não fazer o outro sofrer e sentia muita culpa se me considerasse responsável pelo sofrimento de alguém.

No entanto, a morte como causa natural de uma existência não me fazia sofrer, pensar que quem eu amava (ou mesmo eu) poderia se dar mal por uma escolha infeliz e para a qual tinha sido alertada, também não.

Anos mais tarde, com a descoberta de que Victor era autista, eu estranhava alguns comportamentos que parecia que ele não se dava conta. Assim, depois do diagnóstico, me explicaram que autista não tinha empatia. Será? Eu podia estar muito triste e se não explicasse isso ao Victor ele não percebia. Se alguém morria era algo natural para ele e só ficava triste quando entendia as consequências daquela morte na vida de muita gente.

Isso não era empatia? Claro que era. Mesmo com algumas pessoas dizendo que eu era hiperempática e o Victor não possuía empatia, não acreditei. Veja esse desejo dele registrado antes do diagnóstico?

Hoje, tudo isso faz sentido para mim. A forma de se comunicar, de perceber o mundo, de demonstrar sentimentos que, por vezes, são tão difíceis de serem explicados, é diferente para o autista. Descobri com isso que a gente não tem nem mais nem menos isso ou aquilo. A gente só tem diferente. E se o autista faz um esforço danado para ser empático e compreender a pessoa típica, que tal essa pessoa ser mais empática e tentar fazer o mesmo pelo autista? Bem vindo ao mundo da neurodiversidade!