Autismo e Imaginação

Victor Mendonça e Selma Sueli Silva

Selma: Vocês acham que autista não tem imaginação? Claro que tem! Hoje estou me sentindo a própria Radija Ohana, que chega aqui em casa, maravilhosa, para nos gravar.

Muitos profissionais acreditam que o autista não tem imaginação porque tem dificuldade no simbólico. Mas, profissionais antenados como a Doutora Raquel Del Monde e a Psicóloga Adrianna Reis já observam essa riqueza de imaginação a partir de seu trabalho clínico.

Victor: Na prática clínica.

Selma: É o que tinha faltado, e então, tirando por mim, eu já sei que isso é verdade. Pelo meu filho, muito mais. Não é isso, Victor?

Victor: É isso mesmo. Os autistas acabam muitas vezes preocupando os pais porque vêm com suas histórias cheias de detalhes por menores, aventura, suspense… Que na realidade nunca aconteceram e podem levar a diagnósticos errados.

Selma: Esquizofrenia, por exemplo. Como se estivessem vendo coisas que não existem.

Victor: Muitos autistas, até pela questão sensorial, falam e assimilam essas histórias, sozinhos. São histórias que nunca ocorreram, mas ricas em detalhes. E geralmente, como o autista tem essa dificuldade um pouco na imaginação, são criadas por meio de um recorte do que eles veem na mídia: sejam youtubers famosos, filmes e desenhos. Eu lembro que quando assistia alguns desenhos — por exemplo, “Três espiãs demais” –, me sentia como um espião como elas.

Selma: Viaja junto, né Victor?

Victor: Eu me sentia viajando ao mundo como elas. E criava histórias com base nisso.

Selma: O Victor me convidava, e eu já era adulta, mãe, participava dessas aventuras. Era exatamente isso, a gente viajava nas aventuras das três espiãs demais, como se a gente fosse uma delas ou estivesse lá.

Victor: É isso mesmo. Outra coisa até muito engraçada, porque acabou criando um conflito no meu cérebro autista, foi o seguinte: eu nunca contei isso publicamente, mas eu imaginava que eu era um ator de Hollywood. Eu gostava de imaginar isso, pois gostava muito de atores. Só que, como o autista é muito lógico, eu tinha que criar detalhes, uma filmografia para ele, atuar em um filme, mas, como ator não faz só filme bom, tinha que atuar em filme ruim. Deu muito trabalho e eu desisti.

Selma: Aliás, eu acho que algumas pessoas imaginam o que é o Victor passar horas do dia e da noite, criando esse personagem e toda uma vida para ele.

Victor: Sim, uma vida pessoal e social, inclusive. Ele nos eventos, na religião dele…

Selma: O impacto quando ele fazia um filme ruim.

Victor: Isso tudo.

Selma: E me faz lembrar quando o Victor era criança. Ele era bebê, eu tinha dificuldade e olhava para ele, pensando como vida de bebê era tão sem graça. Olha para você ver, lógico que não é sem graça, fica olhando pra tudo e aprendendo. Mas eu achava que tinha obrigação de interagir com aquele bebê, e eu não sabia como. Então, eu fui me familiarizando com o Victor, conhecendo-o, e quando ele já estava maior, eu achei que ficava mais fácil e equilibrado se ele tivesse um irmãozinho, que eu passei a chamar carinhosamente de “Mojinho”. Você se lembra disso?

Victor: Lembro perfeitamente. E o ponto negativo disso tudo, é o que o autista não tem malícia e conta para as pessoas mesmo, e elas acabam achando, no popular mesmo, que é loucura do autista. Então nós contamos e as pessoas ficam muito sem graça com isso. Porque era muito real para você, não era?

Selma: Eu chegava a enxergar o “Mojinho”, que era o meu filhinho caçula. E um dia, era tão real na minha cabeça, eu já adulta, que eu perguntei pro Victor: “Você viu o Mojinho?” E ele: “Claro”, descrevendo o Mojinho. Eu fiquei com medo de mim e do Victor. A gente criou e viveu essa história durante muito tempo, mas começou a complicar de fato porque era tão real para gente quando contamos aos outros, teve esse impacto…

Victor: Para o meu pai, para minha avó…

Selma: O pessoal falou “Mas que viagem desses dois. O Victor, tudo bem, que era criança. Mas a mãe ir com ele com essa viagem?”. Mal eles sabiam que era a mãe que tinha criado essa viagem.

Victor: É isso mesmo.

Selma: Então, isso é muito sério gente. Se o seu filho cria um mundo paralelo, ele criou esse mundo porque o cérebro é tão hiperexcitado, tem tantas informações, que cria essa riqueza de detalhes e personagens. O efeito colateral disso é que ele também cria o resultado dos impactos negativos, por exemplo: O Victor ficava mal quando o ator atuava no filme ruim, então aquele sentimento era real.

Victor: A gente confunde muito essa realidade com a ficção.

Selma: Nessa hora, a gente tem que saber que isso existe e que essa imaginação é real e que é preciso trazer isso tudo muito claro e conversado entre família e os profissionais da escola e da saúde que atendem nosso filho. Num primeiro momento, a nossa família tem que ser uma rede que se comunica, não é isso?

Victor: Isso mesmo.

Selma: E o máximo que pode acontecer, com essa imaginação também, é seu filho virar um grande escritor. Será que a gente transformou isso tudo de uma forma positiva?

É isso, o hiperfoco em si não é mal. O que vai definir o que o hiperfoco será a forma como você observar o seu filho e colocá-lo para vivenciar, experimentar isso no mundo real para que surta um efeito positivo na vida dele.

Victor: Isso mesmo.