Autismo e o Processo de Aprendizagem

Selma Sueli Silva

O ano escolar se inicia e os professores já podem contar com alguns desafios pela frente. A educação inclusiva é um deles. Mas se pensarmos na educação de forma humanista vamos levar em consideração algumas premissas que começam com a frase do educador Paulo Freire: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.”

A educação humanística é centrada no aluno e no uso pleno de seu potencial. É preciso observá-lo e conhecê-lo. A partir das próprias descobertas é que o aluno se liga aos outros e aos grupos. O ser humano é uma totalidade, é independente, diferente, autônomo e, como tal, deve ser aceito e respeitado.  Os sentimentos e experiências de cada um exercem papel importante como fator de crescimento.

Uma das condições necessárias para o desenvolvimento individual é o ambiente. Não é diferente para o autista. A educação contempla o homem como um todo e não só no aspecto escolar.

Depois que conhecemos nosso aluno devemos partir para uma aprendizagem mediada que, acompanhada por uma mediadora, pode mudar hábitos e treinos.

O sistema educacional deve se preocupar com a aprendizagem significativa, isso é que vai mudar a história e trazer significado para o aluno e sua história.

A aprendizagem significativa é a aprendizagem que pensa no outro, se coloca no lugar da criança para estabelecer o método adequado para que ela aprenda e se desenvolva.

A modalidade operacional traz a ideia de que todo mundo aprende da mesma forma. Isso não é verdade. O educador e a escola devem fazer adequações para que todos deem conta de aprender sem nenhuma dificuldade.

A adaptação é para todos para que não haja bagunça em sala ou indiferença. A criança não dá conta de entender que uma outra precisa mais de atenção que ele. Por isso, a educação deve abordar a todos. E não somente quem tem algum tipo de limitação. Assim, toda a sala se mantém no mesmo foco.

Para que tudo isso seja possível, o educador de hoje precisa se preocupar em ter conhecimento construído numa relação interativa, aluno e educador. Descobrir quais são as limitações que ele tem, o que não tem, o que ele deve fazer, como fazer. O educador tem que ter um planejamento. Alguns professores acreditam que vão poder manter o mesmo planejamento por anos. Há algum tempo, os professores chegavam a repetir as mesmas avaliações ano após ano.

A realidade inclusiva de nossa sociedade traz o dever de mudança. E aponta o que é importante saber:

  1. Aluno e conhecimento: o que ele traz a história de vida dele.
  2. Alunos e seus pares, o que está acontecendo, como funciona essa relação.
  3. Aluno e o professor: com esse conhecimento o próprio professor passa a mediar o conhecimento e o aluno.
  4. A percepção do aluno.

O início do ano letivo é o momento exato para o acolhimento das demandas de seu aluno. Somente assim, o educador consegue:

  • A criação de condições que facilitem a aprendizagem do aluno para que ele libere sua capacidade de construção tanto intelectual quanto emocional.
  • Perceber que tudo o que estiver a serviço do crescimento pessoal, interpessoal ou intergrupal é e faz parte da educação.
  • Identificar que os motivos para aprender partem do próprio aluno.
  • Sentir que a aprendizagem implica em mudanças. Portanto, há que se valorizar a busca progressiva da autonomia: dar regras a si mesmo, assumir na sua existência as regras que propõe ao grupo e a si mesmo.

Sabemos que o conhecimento é dividido em duas ações:

Ação de Construção e ação reconstrução.

Ação de construção é adequação. Como ele aprende: método silábico? Fônico?

O professor sugere a melhor forma para cada um de acordo com o conhecimento prévio do jeito de aprender de cada aluno. Existem várias formas de ensinar com o mesmo objetivo que todos aprendam.

Afinal, aprender implica em construir diferentes sentidos, alguns já previstos e outros inéditos. A aprendizagem é essa dinâmica. Quando não há evolução deverá ser feita uma pesquisa sobre o que está acontecendo, por que o aluno xis não aprendeu, ou por que aprendeu…

É a reconstrução do conhecimento que leva à aprendizagem significativa: toda vez que o professor trabalha para o aluno vencer suas dificuldades para adquirir o conhecimento, aí está a aprendizagem significativa. Ela se faz pela emoção. A emoção na aprendizagem dá retorno, torna o caminho cerebral mais estimulante e facilita a consolidação do aprendizado.

Aprendizagem significativa se realiza no conhecimento de si, é nisso que se tem que trabalhar. O aluno ao se conhecer encaixa o que é ensinado em sua vida. O professor, quando conhece esse aluno, entende como dar significado ao que está ensinando.

A ação de aprender é que estabelece essa relação com o conhecimento anterior, com a bagagem de cada um. Quando a criança entra na sala de aula ela tem história. Ela traz sua história que não deve ser ignorada pelo educador.

A escola só lembra do aluno individualizado quando ele apresenta problema, dificuldade. E isso por causa da ineficiência do professor que não percebeu antes essa dificuldade na construção do aprendizado. Se ele percebe somente quando o problema surge, há demonstração de que seu planejamento não atende a todos e só a quem não tem dificuldade.

A ênfase no processo requer consciência do aprendiz. Toda aprendizagem tem que ter entendimento, paixão, o gesticular, o brincar, ter humor, isso tudo facilita para que o aluno aprenda. Quando mais você interage mais há resposta, e isso é fundamental.

Professor deve sempre se perguntar: Será que meu estímulo está alcançando essa criança? O que nos torna seres racionais é a nossa capacidade de administrar conflitos, buscar alternativas, estabelecer um plano B. Até a disciplina da turma também é de motivação e deve ser construída.

Devemos ter em mente: Este conteúdo serve para o aluno? Afinal, o professor sempre estará a uma, duas ou três gerações do aluno.  Portanto, precisam se adaptar, pesquisar, estudar. Atualmente, ficar preso a conceitos morais que não cabem na geração dos alunos, cria uma distância entre professor e aluno. É preciso observar se a fala do professor é adequada àquela geração.

Hoje, há monitorias, salas invertidas que trazem motivação. Vamos sempre ficar atentos a qual o conceito está sendo construído, se está havendo percepção do valor do conhecimento. Toda vez que sugerir um assunto, traga-o à discussão. Aí o aluno é convidado a interagir e interagindo vai se envolver; se envolvendo ele vai investir; investindo ele vai aprender. Mas se o assunto cai de paraquedas, como mais um tópico de uma matéria, aí a relação fica distante. E se o menino for disléxico, tiver outra dificuldade?

O professor faz parte da transformação da educação, ele precisa se posicionar como pesquisador, descobridor de novas teorias do aprendizado. É assim que a educação transforma vidas e forma uma sociedade mais humanizada. E se é humanizada, é inclusiva.