Autismo, Infância, Brincadeiras, Aprendizagem e Inclusão

Victor Mendonça e Selma Sueli Silva

Hoje nós vamos falar sobre o brincar. Na verdade, para brincar, ter a brincadeira não é necessário criar um evento para isso. Às vezes, por exemplo, quando a gente fala do “Autismo na Infância”, que é o tema do programa de hoje, falamos sobre os pais terem momentos com os filhos prazerosos. Falamos do lúdico. O lúdico é muito importante na vida de todas as pessoas, inclusive das autistas. O que é esse lúdico? É uma atividade que você faz por prazer de realizar aquela atividade que no caso da criança autista traz vários ganhos para ela. Por isso, a Sociedade Americana de Pediatria tem orientado para que os médicos receitem o brincar dos pais com os filhos.

Brincar não é tablet. Até os dois anos, a criança não pode brincar com o tablet. Brincar mesmo, aquelas brincadeiras mais antigas, dos pais com os filhos, em vez de só apostar no medicamento. Na realidade, a gente vai perdendo o rumo das coisas e pensa assim: “Agora o mundo é outro, as pessoas ficam adultas mais rapidamente”. Não, as brincadeiras cumprem papéis fundamentais. Por exemplo, como o Victor teve e tem hipotonia, baixo tônus muscular, se ele tivesse arrastado móveis, escalado, subido e descido em árvores, isso tudo o ajudaria nesse tônus muscular. As crianças de hoje estão restritas a um apartamento ou ao play, e isso é muito pouco.

Aquelas brincadeiras criativas que inclusive pegam pelo simbólico das crianças, tudo é muito importante. O Victor sempre adorou o simbólico. E muitas vezes, quando se tem o diagnóstico de autismo, fala-se assim: “Ele é autista e vai ter dificuldade no simbólico”. Mas até por isso, por ele gostar e ao mesmo tempo ter dificuldade, o autista deve ser incentivado nessas brincadeiras. O Victor, por exemplo, é um pouco (e já foi mais) desengonçado e, por isso, foi fazer teatro. O teatro o ajudou em questões como lateralidade, expressão facial etc.

Preocupa o pensamento dos pais não ter dinheiro para isso tudo. Não é preciso dinheiro, só criatividade. Vamos supor uma casa ou apartamento modestos… Que tal pintar a “Amarelinha” no chão? “Mas como? E o barulho?” “O vizinho do andar de baixo não vai gostar”. Mas tem abafadores de som, como o tatame ou feito de materiais alternativos que podem amortecer esse barulho. Brincar de amarelinha é muito importante para a criança.

Brincar de fazer comida. A gente se lembra da Patrícia Piacentini, que trabalha na linha DIR Floortime, falando que, às vezes, a exclusão começa em casa. Isso acabou acontecendo com a Selma, que trabalhava fora e não ia para a cozinha com o Victor. Não devia ser assim, eles perderam o lado lúdico de se fazer um bolo juntos, na idade apropriada. Victor se lembra de quando a prima deles, Radhija, que está por trás das câmeras do Canal, fazia um bolo com ele. E Victor sente falta disso, ele adorava esses pequenos momentos que saíam da rotina, mas eram fundamentais para ele.

Ir ao sacolão pode ser uma boa atividade para pais e filhos. Não para fazer compras enormes. Mas para preparar uma vitamina, por exemplo. Escolher e comprar a fruta e voltar. Num breve momento você já exercita uma série de atenção sensorial.

O lúdico é muito importante para aprendizagem da criança e também para lidar com os desafios que possam surgir, como crises. Ao começar o programa, Victor se atrapalhou logo no início. Selma e Victor acharam graça, fizeram piada. O lúdico, a brincadeira também está presente nisso, ver os momentos em que você pode interagir e socializar com seu filho. Só não podemos ficar inconvenientes.

Selma e Victor viram na internet um vídeo do Marcos Mion dançando com o filho dele. Experimente colocar uma música que seu filho gosta e começa a dançar. O que pode começar com um “stim” e de repente vai além e vira uma dança. Victor adora e fez isso na arteterapia. É só colocar a música e deixar a criatividade espontânea da criança se soltar. É nessa liberdade que a criança vai aprendendo e vai se construindo como pessoa.

Há gerações que construíam o próprio brinquedo. Pipa, papagaio, carrinho de rolimã, sofazinhos, caminhas com caixinhas de fósforo. Isso tudo pode ser feito com material próximo da gente, como a pet, por exemplo. Você não está perdendo tempo com esse brincar, você está preparando a criança para ser um adulto mais equilibrado, com mais coordenação motora, inteligência emocional.

Os jogos de tabuleiro, como Banco Imobiliário, trabalham o pensamento lógico, a matemática. A Selma detestava esses jogos competitivos, mas depois ela descobriu que a graça está no processo de brincar, e passou a escolher parceiros menos competitivos.

Existem linhas que trabalham o brincar no autismo, como o método Denver, que ensina brincadeiras de pais e filhos de até seis anos de idade. Existe, também, o método Dir Floortime, eles partem do pressuposto de descobrir o mundo junto, por meio das brincadeiras.

As crianças de hoje acabam muito voltadas para brincadeiras no computador. A tecnologia usada com moderação é uma grande aliada da comunicação do autista, mas as crianças perdem a socialização vida a vida, muito importante para a inclusão social.