Autismo no adulto: antes e depois do diagnóstico.

Selma Sueli Silva e Myriam Letícia

Neste segundo texto da série feita com a psicóloga, terapeuta holística e servidora pública, Myriam Letícia, ela e Selma falam falam sobre a vida antes e depois do diagnóstico de autismo. É importante ter o diagnóstico? Há ganhos? E perdas, há? Como foi esse processo de descoberta? Confira aqui.

Selma Sueli Silva: Hoje vamos falar sobre o diagnóstico no adulto e o diagnóstico na adulta mulher, que é mais diferente ainda.. A Myriam vai nos contar sobre como era a vida dela antes e agora, depois do diagnóstico de autista. Porque muitas pessoas acham que o diagnóstico não muda a vida quando já se é adulto.

Myriam Letícia e Selma Sueli durante entrevista para o Portal Uai

Myriam Letícia: Antes de eu descobrir o diagnóstico, eu tive muitos períodos de depressão e ansiedade que sempre se repetiam e eu não entendia o porquê. Eles estavam  muito relacionados a questão de comunicação e dificuldades, assim como à socialização também.  Ao mesmo tempo, eram períodos da minha vida em que, até por não me conhecer e não entender o que acontecia comigo, era grande a necessidade de tentar me encaixar, de tentar me adaptar, o que me  causava um extremo cansaço.  Muitas vezes eu agia não sendo quem eu era, o que foi causando um desgaste e as recorrentes crises  de depressão direta. Quando enfim, eu soube do diagnóstico, isso me trouxe um autoconhecimento muito grande e uma aceitação muito grande também. Paralelamente, me trouxe também um norte, um direcionamento para o que eu queria trabalhar melhor em mim, aquilo que eu escolhi,  o que eu achei que eu queria melhorar. Eram coisas relacionadas à aceitação, ao autoconhecimento e ao respeito aos meus limites, coisas que eu fazia e que me violentavam e eu não percebia porque eu tentava fazer coisas para me encaixar. A partir do diagnóstico eu fui me direcionando a algumas áreas que eu queria desenvolver mais e que, até então, eu não sabia como.

Selma Sueli Silva: As pessoas não têm noção de qual sofrimento a gente fala, mas é um sofrimento, de fato, muito intenso. Vou dar uns exemplos práticos e aí, você vê se concorda com isso. Minha mãe falou que quando eu era mais jovem, já estava começando a fase da adolescência, se viesse um menino, que eu achasse babaca, se viesse conversar comigo, eu falava assim: “Ah nem, você é muito babaca”. Falava assim, na lata e achava isso muito normal. Se ele achasse a mesma coisa de mim, ele também falaria. Então você é ensinada que isso não é legal no social, que você tem de ser outra pessoa, que não pode falar desse jeito. Às vezes, temos de aguentar o papo de um cara babaca. Quando o cara vai embora, a gente está com a cabeça cheia. Pode ser um cara, uma amiga, ou algo assim. É uma exaustão terrível.

Outra coisa que mudou muito para mim e eu não sabia antes, era quando eu ia para um encontro religioso. Eu sou budista, e eu ia para o centro cultural, ou algum outro encontro e o Victor ficava chateado, porque ele falava: “Nossa mamãe, você fala demais, se despede de um por um. Leva muito tempo se despedindo das pessoas. Eu achava que eu tinha que despedir de todo mundo do mesmo jeito, senão, eu estava fazendo distinção entre as pessoas. Todo mundo que me cumprimetava eu dava tchau, três beijinhos, perguntava como estava. Conclusão: eu demorava para ir embora, e quando conseguia sair estava exausta. São detalhes que, ao longo da nossa vida, transformam a nossa existência em algo muito difícil.

Myriam Letícia: Sim. Você falou algo, que existe no autismo no feminino, na mulher que, a gente tem muito esse hábito de observar o comportamento das pessoas para copiar e se modelar, assim, principalmente se a gente não tem o acompanhamento terapêutico desde muito nova. Uma das estratégias que a mulher tem, até por ser culturalmente mais exigido da gente, é de tentar se encaixar socialmente copiando  o comportamento das pessoas. Observamos muito e até por isso, várias autistas se tornaram psicólogas também. Mas, se torna uma coisa que não é autêntica, que a gente não está sendo como que a gente é, na essência.

Por muitas vezes, eu me forcei a situações para me encaixar socialmente. Isso me causou um enorme desgaste e vieram o transtorno de ansiedade, o transtorno depressivo. E, com a descoberta do meu diagnóstico, temos condições de exercitar o autoconhecimento, então eu entendi que eu não precisava me forçar a determinadas situações, que podia fazer aquilo que eu queria. Tem coisas que eu  não aguentava, mas eu me forçava a aguentar um pouco mais”. Não que todo mundo precise, mas eu, particularmente, queria frequentar as festas, conversar com as pessoas. Eu queria aprender como e fui conversar com as pessoas e trabalhar essas questões em mim.

Selma Sueli Silva: Embora não pareça, porque sou extrovertida, eu sou tímida. Eu não sei explicar muito bem isso.

Myriam Letícia:  É porque a introspecção é confundida com a timidez.

Selma Sueli Silva: Quando estava no fundamental 1 e 2,  eu gostaria muito de ter sido uma menina que tivesse coragem de pedir para tomar água quando eu estivesse com sede. Que tivesse coragem de pedir para ir ao banheiro quando quisesse fazer xixi. Mas simplesmente eu não conseguia e tive muita infecção urinária por causa disso. E, à medida que eu fui crescendo, eu não percebia esse incômodo de querer fazer xixi, pois eu não tinha autopercepção. Olha que loucura!

Myriam Letícia: Você me lembrou de uma situação, quando eu estava no ensino médio, aos 17 anos. Eu fui pedir ao professor licença  para sair da sala para ir ao banheiro. Ele estava explicando a matéria e eu estava com muita vontade de ir ao banheiro. E aí, ele falou assim: “Agora não”. Você não vai. E eu disse: Ok. Voltei calada para o lugar, minha colega olhou assim para mim e perguntou, indignada: O que está acontecendo? Eu respondi: “Eu pedi para ir ao banheiro e ele não deixou”. Ela virou para o professor e disse: “Professor, como você não deixa a menina ir ao banheiro? Ela quer ir ao banheiro”. Essa garota era uma amiga muito querida, conhecia o meu jeito, e brigou por mim. O pessoal começou a argumentar: “Ela é uma mulher, o senhor sabe se ela está menstruada?” e por aí vai. Foi muito interessante, porque essas situações assim revelam uma rigidez de pensamento, principalmente, com relação a uma autoridade. A pessoa falava não, era não. Eu não sabia argumentar, por mais que, por dentro, eu soubesse que aquilo não estava certo.  Dentro da minha cabeça tinha um universo de argumentações, mas você se acha tão estranho que você não tem coragem de colocar aquilo para fora, de conseguir expressar aquilo de alguma forma. Essa questão da comunicação é muito peculiar de alguma forma. Eu já vivi várias situações quando eu era mais nova, que essa dificuldade de expressão, de comunicação me causou vários constrangimentos. Foram situações em que eu não conseguia organizar meus pensamentos para argumentar o que eu queria dizer e acabava sendo constrangida em conversas, principalmente em assuntos polêmicos. Geralmente, eu não conseguia transformar o meu pensamento em fala, principalmente quando envolvia os sentimentos.  Se tem emoção e sentimento se torna mais difícil ainda de se expressar e comunicar. Isso foram coisas que vivi na juventude que me atrapalharam muito. Trabalhei isso na terapia, porque eu queria trabalhar e hoje, acho que consigo me comunicar e me expressar melhor, principalmente com relação a sentimentos e emoções, embora ainda tenha algumas dificuldades.

Selma Sueli Silva: Exatamente. Você foi em um ponto nevrálgico, de fato. Eu até queria me comunicar, falar mais. Só que, quando eu fui tentar fazer isso mais velha, as pessoas me achavam prolixa, pedante, arrogante, e eu não entendia o porquê, já que eu sabia que não era nada daquilo. Por isso, eu escolhi fazer o curso de comunicação social.  As pessoas não me entendiam e eu não entendia as pessoas. Depois do diagnóstico, eu fiquei surpresa com quantas vezes eu achava que tinha razão e, com o diagnóstico, eu consegui enxergar que nem sempre era assim. O diagnóstico fez muita diferença na minha vida. Eu comecei a perceber a questão do cérebro rígido. Eu achava que tinha uma teoria da mente maravilhosa, que eu entendia tudo e todos.  Por exemplo, minha mãe tinha as razões dela. Ela estava falando a mesma coisa que eu e eu não conseguia entender. Ela tentava explicar e quanto mais ela tentava explicar, mais eu ficava ansiosa e eu chegava a ficar com náudea, pelo esforço. Eu falava: “Mãe, para de explicar que minha cabeça está toda confusa”. Depois do diagnóstico, eu comecei a perceber essa rigidez e a tentar trabalhar isso mais. A relação com a minha mãe melhorou 1000%. Não que antes fosse ruim, pois eu já estava adulta, então já havia vencido mil etapas, mas hoje em dia é melhor.

Myriam Letícia:  No meu caso, eu fui percebendo essa rigidez de pensamento, de ideias. E isso norteou um jeito terapeuticamente de trabalhar essa questão depois do diagnóstico. Trabalhei a expressão e o jeito de me comunicar, porque a maior rigidez era comigo mesma. Na verdade, eu sempre tive mais facilidade em ter uma flexibilidade com as outras pessoas, porque, culturalmente, eu fui inserida em um contexto de espiritualidade desde muito nova que me trazia muito essa questão da empatia. Mas,  a rigidez sempre esteve muito presente comigo mesma, com os meus princípios e o que eu devia ou não fazer, o certo e o errado. E isso me causava um grande sofrimento.

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