Autismo – Psicologia aliada à Educação (Entrevista com Ana Flávia Pascotto)

Victor Mendonça e Selma Sueli Silva

Eu e o Victor estávamos conversando e, há algum tempo, a gente gravou sobre mediação com a Ana Flávia, que já é uma velha conhecida de vocês. A Ana Flávia tem uma construção que eu acho muito interessante. Ela é a psicóloga que a gente indica para questões de mediação escolar e do autismo na clínica mesmo. Mas, vamos ver como é essa construção. 

Ana Flávia Pascotto: É. Eu acho engraçado hoje em dia porque quando eu entrei na faculdade eu falei que iria para o RH. Mas, hoje eu vejo que é influência do meu pai e do meu irmão, que fizeram administração de empresas, então, eu gostava muito. Só que aí, no meu curso da Una, eles abrangeram tanta coisa que falei: “meu Deus do céu, agora já não sei mais o que quero!”, aí eu caí de paraquedas no setor de inclusão e pedagogia, que é onde estou até hoje e que eu amo. Eu falo: “gente, não é a gente que escolhe o autismo, é o autismo quem escolhe a gente mesmo, porque foi lá que eu tive o meu primeiro contato com o Transtorno do Espectro Autista”. Eu nunca tinha tido, só havia lido sobre e não consigo me imaginar atuando com outra coisa. Mesmo que não seja dentro do setor de faculdade e inclusão, na clínica, eu quero continuar atuando com o autismo.

 A gente sabe que, na sociedade, autista assusta. Hoje, o autista assusta?

Ana Flávia Pascotto: Não, pois o tanto que o autista tem empatia sim. E o quanto ele se liga a você de uma forma que, às vezes, nem o fenótipo se liga. A confiança que ele tem em você. E eu falo isso muito claro porque uma das coisas de que tive medo quando eu comecei a acompanhar o Victor é que ele tinha uma ligação muito forte com a mediadora dele anterior, né? Muito mesmo, tipo uma mãezona dele. E eu pensei: ”ele não vai se ligar a mim”. E a gente sabe o quanto a referência é importante para o autista. Tanto que depois da nova coordenação do meu setor, fica só o intérprete com aquele específico aluno. Apesar de a gente trabalhar a autonomia e ele precisar menos de mim, ou seja, ele pode aparecer no setor e se eu não estiver ele será atendido por outra pessoa. Mas, antigamente, houve tempos em que o Victor, dois dias, era comigo, três dias eram com outra pessoa e isso acabou porque a gente entende da referência. E eu fiquei muito preocupada com a possibilidade de o Victor não me aceitar. Pelo vínculo que ele tinha com a Carla, porque a gente sabe que isso é muito sério. Mas aí eu vi o tanto que ele se abriu e as pessoas ficam no que o autista não se abre, o autista não sente. E isso me encantou muito, mas muito mesmo. Essa confiança que ele deposita, assim.

Como foi essa construção para você? Você chegou lá e “pumba!” Trocou! Ana Flávia! Como foi essa construção? O que você sentiu?

Victor Mendonça: Eu realmente tinha uma ligação muito forte com a Carla e quando eu conheci a Ana Flávia, e outras mediadoras também, eu percebi que a Ana Flávia era um pouco mais séria no primeiro momento. Depois, a gente foi criando uma confiança e foi se abrindo mais. O que me encantou foi que, logo no começo, eu vi que ela tinha uma coisa diferente, tinha um olhar mesmo para o ser humano, para o indivíduo, para a pessoa como um todo assim. Ela sabia das minhas dificuldades, mas não… Como fala para um cadeirante: “você vai levantar e vai andar”. Não. Mas ela confiava no meu potencial, ela não via rótulos. Ela sabia que tinha dificuldades, mas ela sabia também que eu tinha um potencial ilimitado. E eu percebo isso logo no começo, foi muito bacana isso. Perceber que alguém podia confiar em mim e que eu podia me desenvolver, mas que eu podia confiar nessa pessoa para quando eu tiver minhas dificuldades, a gente ia crescer junto, iria ser uma comunicação muito boa. Engraçado é que o autista a gente já conhece na comunicação. Mas, o que eu percebo na Ana Flávia como psicóloga é que ela tem essa capacidade de se comunicar muito bem com as pessoas autistas. Ela tem a capacidade de extrair da pessoa aquilo que ela tem dificuldade de as vezes de, ao mesmo tempo que eu fale que ela tem o perfil de, às vezes, mais tímido em um primeiro momento, ela tem a capacidade de extrair isso que a pessoa tem a dificuldade de falar, de quebrar um pouco esse gelo. E a gente acaba quebrando esses tabus, também.

Aqui no Mundo Autista é complicado para a gente às vezes indicar profissionais porque a gente tem que conhecer e saber que são bons. Porque a vida das famílias de pessoas com deficiência é tão complicada que a gente quer acertar. E quando eu falo de profissional bom eu não falo de profissional que não erre, eu não falo de profissional que não é perfeito. Eu falo é de profissional com essas características, da Ana Flávia.

Victor Mendonça: E o psicólogo tem um papel muito importante porque tudo o que ele fala pode ter um impacto na pessoa e na pessoa autista que é mais intenso. Um impacto até muito maior. Então, esse cuidado da Ana Flávia também é uma coisa muito importante nesse processo.

E agora, a Ana Flávia, pós-graduanda em neurociências da educação, aplicada à educação. Por que a escolha?

Ana Flávia Pascotto: Em um primeiro momento eu cheguei a olhar neuropsicologia, mas pelo trabalho que eu faço, eu acredito que é de estar ali para fazer a diferença, porque eu vi a diferença que foi a mediação do Victor e vejo no meu atual aluno, eu gosto da área da educação. Eu acho que, mesmo que eu faça a área da neurociência aplicada à educação devido ao setor que eu estou, na clínica ela é muito aplicável também, no atendimento fora. Porque quando a gente fala: “Ah, no atendimento da clínica”, mas nem sempre é só terapia, mas um atendimento psicopedagógico voltado para a pedagogia fora do espaço acadêmico também é muito importante.

Porque o quê que nós, família, estamos precisando? De gente que entenda do ser humano como um todo. Pra que eu tenha o rendimento necessário, que é cobrado, que é o caminho natural de todas as pessoas, eu preciso de profissionais que entendam da área da saúde, da educação, e se não for tudo junto em um profissional, eu preciso que essas áreas conversem entre elas. E lá no… por exemplo, o contato que eu tive com a Ana Flávia no NoPe, olha que coisa interessante que eu notei: o NoPe, é um setor então que cuida dessa área da inclusão dentro da universidade. Tinha um profissional a frente do NoPe que  era bacana. Entrou outro e eu notei a diferença. Gente, vocês não tem noção! E eu não estou comparando, eu estou falando de características. As características desse outro profissional que entrou. Um abraço, Luís, foi fantástico! Porque aí, a gente percebia que fazia a diferença lá, nos bastidores, a gente percebia que, na ponta, com o Victor recebendo essa mediação por meio da Ana Flávia. Por outro lado, a Ana Flávia também ficava mais segura, de atuar. Porque você pensa bem: é fácil, em tese, você entrar na sala de aula como uma estranha, com o professor te olhando, com outros alunos te olhando, do lado de outro aluno que, está ali querendo saber “qual é a sua”. Qual que é essa sensação?

Ana Flávia Pascotto: É como se a gente entrasse assim… Em toda a sala é um processo diferente e assim, eu tive muita sorte que a sala do Victor os meninos são uns amores. O grupo deles me acolheu como se eu fosse parte do grupo.

Ana Flávia Pascotto: A Fran, o Thiago, nossa… Adoro a eles. E, quando eu mudei eu falei: nossa, muito desafio, né? Porque uma sala nova, do primeiro, segundo período, que tem uma realidade totalmente diferente. E agora tem o uniforme, né, que no Uni agora. Então eu fico totalmente diferente, porque destaco mais ainda no meio da multidão. Quem é essa daqui, ela tá observando a gente? Eu escutei esse tipo de pergunta. “Você que ela está aqui observando a gente para alguma coisa do Uni?” E até eu explicar que eu estava ali para fazer a mediação, as pessoas não entendem o que é a mediação e isso eu percebi muito claro nas coisas na sala de aula. Mais de uma vez perguntaram como é que ficava o aluno e como é que eu trabalhava, o que eu fazia… E assim, eu tive que explicar aos poucos porque o pessoal acha que a gente está ali para facilitar, mas não. A gente está ali para ajudar com estratégias e técnicas que coloquem o aluno com e até em equidade com os outros. A gente não está facilitando em momento algum. Tanto que, perguntas como: “mas a média dele é menor?” “Não, a média dele é igual a de vocês. Ele precisa tirar 70 pontos para passar”. “Ah, mas abona falta?” “Não, não abona falta”. É igual, o processo é igual. Porque não adianta eu mudar tudo porque não vai ser uma inclusão, vai ser uma exclusão.

Agora, Ana Flávia, um desafio: e no consultório, qual é a diferença? Medos e certezas.

Ana Flávia Pascotto: Consultório é que, querendo ou não, eu trabalho com uma equipe. E a minha equipe que — eu falo isso com muita convicção – me deu muita liberdade e autonomia e você tem muita capacidade de fazer sem ter que pedir autorização de tudo para mim. Vocês tem a liberdade de ser autônomos. Eu confio na equipe que treinei e sempre foi assim. Mas, às vezes, qualquer coisa que acontece a gente tem um espaço onde está todo mundo. Na clínica, é meio que “um desafio de coragem por si só”. Eu não vou ter um professor  que estava atrás  de mim na supervisão de estágio, eu vou ter que procurar a supervisão, eu vou ter que estar em dia com a minha terapia, porque isso é muito importante. Tem psicólogo que acredita que não tem que ter terapia. Mas eu falo que se você não faz, suas coisas vão passando para o seu paciente muito facilmente, você acha que não, mas vão. E aí é muito mais essa questão de confiança no que você está fazendo mesmo, “eu consigo”, “eu sou uma profissional, estou aqui, autônomo, o que é um pouco mais difícil também, que é a empresa que não dá todo um suporte diferente, só que é muito importante para o crescimento enquanto psicologia. A faculdade dá só uma base para você. A realidade é totalmente diferente, na teoria é tudo muito lindo, mas na prática não tem nenhum paciente que você recebe descrito “assim, assim…”, as pessoas são únicas porque, cada sintoma com a interação do TEA vai de pessoa para pessoa.  O Victor interage de uma maneira com o autismo e o outro autista vai interagir de uma outra maneira. Sem falar nas comodidades que são totalmente diferentes. Então, eu acho que o maior desafio seja a confiança em seu trabalho e a capacitação contínua porque  é muito importante continuar a estudar, assim. O curso dá uma base, mas você tem sempre que procurar. Não é a toa que comecei a ir para a pós agora, justamente para complementar o que eu sei. Que a gente aprende muito, eu sempre falo que o UniBH me deu, nossa, muita riqueza teórica e prática e continua me dando, eu fiz minicurso de libras pelo setor, inclusive, que lá tem intérprete de libras. Então, assim, é a formação contínua. É um desafio muito grande, eu estou bem  ansiosa- eu sou ansiosa-, mas eu estou bem animada, porque eu sei a diferença que o nosso trabalho faz na sociedade como um todo.

A gente tem um internauta que nos acompanha, ele é um intérprete de libras e fez contato com o livro porque agora ele vai ser intérprete de libras para um aluno que é autista e ele queria saber algumas dicas. Você pode passar para ele?

Ana Flávia Pascotto: Então, a primeira dica que eu dou é que o autista vai te dar o caminho. Sempre. Claro que você tem o conhecimento básico, que são os estereótipos, mas que a gente não pode levar, a gente tem que conhecer a pessoa.

Victor Mendonça: A autoestima para o autista é realmente um desafio porque, você pensa bem, a maior dificuldade do autista está na interação social. Então, quando você não se vê junto aos seus pares da maneira como você gostaria, o que convencionou que é o padrão, você acaba se sentindo inferiorizado. E a Ana me ajudou muito a trabalhar essa questão que é a da autoestima, porque ela me dava suporte, ferramentas para que eu pudesse pensar assim: “não, eu posso conversar com meus amigos dessa forma, eu posso estar localizado naquele o que ela está falando, como a gente também aqui está, mas viver isso com ela”. Porque ela é uma pessoa que realmente entende, que é sensível, que tem uma bagagem. Além de amigo, eu sou fã dela. Muito obrigado, Ana.

Você tem uma dúvida sobre a questão da mediação, alguma coisa que você gostaria de saber como é que faz, como é que ela atende no consultório, coloque aqui nos comentários, que vai chegar para ela e a Ana Flávia vai responder.

Ana Flávia Pascotto:

Clínica Bem Estar

Rua Aristides Duarte, 12, Prado.

Contato da Clínica: 3318- 9006/ 3582- 0002

Contato direto comigo: 99172- 0020

E-mail: anaflavia_pascotto@hotmail.com

Instagram: @anaflaviapascotto

Victor Mendonça: Ana Flávia, você tem muito que contribuir para esse mundo do autismo, da inclusão, do ser humano e da riqueza fascinante que é o ser humano. Então, uma longa carreira pela frente, você merece tudo de melhor!