Autistas leves também precisam de suporte?

Selma Sueli Silva e doutora Raquel Del Monde

Selma Sueli Silva e doutora Raquel Del Monde falam sobre o suporte para pessoas autistas no dia a dia.

Selma Sueli Silva: Seguinte, vou falar uma coisa que temos que confessar: eu e o Victor, durante a pandemia, a gente passou e passa muito perrengue. Por quê? Por algo que, em tese, é simples, e que chama atividades da vida diária. Nós somos uma negação: ele, diagnosticado aos 11, não teve vários estímulos. Eu, diagnosticada há quatro anos, não tive vários estímulos, e mais: eu não sei ensiná-lo porque eu não sei como é que eu sei algumas coisas. Na hora de ensinar, eu me enrolo toda. Como é que ficam, doutora Raquel, essas atividades da vida diária nessas fases da adolescência e da juventude e, como diria o Victor, da “terceira idade”, no meu caso?

Doutora Raquel Del Monde: Bom, ainda bem que a gente tem a plasticidade cerebral. Não existe um limite de idade definido para treinar ou desenvolver essas habilidades. Antes de qualquer coisa, é importante a gente entender qual é a razão das dificuldades para lidar com as demandas da vida diária, se é por alguma dificuldade cognitiva, disfunção executiva, alteração sensorial ou até mesmo por alguma questão comportamental. O primeiro passo é entender a natureza da dificuldade para depois trabalhar em cima dela. E sempre é tempo. Então, não tem problema se for na “terceira idade”, como diz o Victor. Está tudo certo.

Selma Sueli Silva: Sabe de duas coisas que tenho muito medo na minha vida, embora sempre seja tempo de aprender? Andar de ônibus. Para mim, não é fácil. Eu posso até aprender a andar, mas eu sempre passo mal, eu sempre acho que vou errar o ponto e eu desconheço lugares em que fui várias vezes, dependendo de como o motorista entra naquela rua e aquela coisa toda. E outra, é ser síndica de prédio. Eles acham que sou adulta e que posso ser síndica de prédio. Mas, eles não têm a noção do que isso é para mim. Conta para eles, doutora. É mesmo, não é?

Doutora Raquel Del Monde:  De repente, ser síndico pode ser muito fácil para um autista muito sistemático, com pensamento rígido e apego a padrões, né? Como a gente sempre diz: cada caso é um caso mesmo. Agora, existem questões que você levantou que, além de sensoriais, ou questões cognitivas, de funções executivas, podem ocorrer em função de ansiedade. Por exemplo, a dificuldade de andar de ônibus ou de ir a determinados lugares, como você citou. De novo, a gente fala: primeiro é preciso entender a causa da dificuldade. Esse é o principal ponto, porque a partir daí, é que a gente pode realmente, desenvolver um programa com suportes e estratégias relevantes para superar essa dificuldade.

Selma Sueli Silva: Na minha avaliação pela psiquiatra, ela detectou que eu tenho também transtorno da ansiedade generalizada, então, ela detectou boa parte disso, então, é o real e o que eu fico imaginando. E, detectou também, disfunção executiva. Então, na realidade, na terapia cognitiva comportamental, no meu caso, leva as duas coisas e, não teve jeito, um remedinho aí para essa ansiedade gigantesca. As pessoas têm medo de medicação, mas às vezes é o caso, não é dra?

Doutora Raquel Del Monde: É uma das ferramentas que dispomos. O problema é quando as pessoas acham que essa é a única coisa a ser feita – porque nunca é – mas quando é indicada, é uma ferramenta importante. Ou seja, pode melhorar muito a qualidade de vida da pessoa.

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