Chantal Wiertz, semifinalista do Miss Universo, desconstrói pré-conceitos sobre o autismo no feminino

Sophia Mendonça

A última edição do concurso Miss Universo, celebrada no domingo passado (16) teve entre as suas semifinalistas Chantal Wiertz, de 22 anos de idade, representante de Curaçao, que é autista e ativista pela causa do autismo. Mais uma vez, nos deparamos com a constatação de que existem autistas nas mais diversas esferas sociais. Mesmo com toda a discussão que ronda sobre um possível reforço da objetificação feminina em disputas de beleza, não há como negar os afetos mobilizados por termos uma representante da comunidade autista numa indústria que tem seu papel na legitimação de modelos a serem seguidos pelo feminino.

Com Chantal, diagnosticada com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) há um ano, eu vejo novamente a possibilidade de desmistificar um dos diversos pré-conceitos que contribuem para o atraso diagnóstico de mulheres autista: a ideia de que autistas não ligam para a aparência externa.  Uma vez, lembro-me de uma amiga também enquadrada ao TEA, uma ruiva de beleza muito expressiva, pontuar que o simples fato de ela se maquiar já era motivo para alguns colocarem a suspeita de autismo de lado. É certo que ser autista não remove a feminilidade (ou masculinidade) de ninguém, mesmo nos aspectos mais superficiais dessa construção do que é ter aparência de uma mulher, como traços físicos e até comportamentais. Assim, como a cobrança cultural com o feminino é diferenciada, é preciso uma atenção especial às sutilezas da manifestação do autismo no feminino.

Como mulher autista, eu me lembro que o primeiro exemplo midiático que tive de alguém com TEA foi a modelo Heather Kuzmich, participante da nona temporada do reality show estadunidense America’s Next Top Model. Quando o programa foi exibido, em 2007, eu ainda não havia sido diagnosticada, embora percebesse algumas características muito similares a ela, principalmente no que se refere a desafios de interação (“Você é a piada”, diziam algumas colegas quando ela não entendia algo) e baixa habilidade motora (apesar de ser a melhor da temporada com modelo fotográfica, Heather tinha sérios problemas quando precisava desfilar). Anos depois, ela foi uma peça fundamental para que eu compreendesse o laudo que me foi dado. Que Chantal, em sua ação de figura pública, também possa ajudar a amenizar o sofrimento de mais meninas e mulheres autistas.

*Sophia Silva de Mendonça é jornalista, escritora, apresentadora, cineasta e mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG). Foi diagnosticada autista aos 11 anos, em 2008. Mantém o site “O Mundo Autista” no Portal UAI. É autora de sete livros e diretora do documentário “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho”. Em 2016, recebeu o Grande Colar do Mérito Legislativo de Belo Horizonte, a maior honraria do legislativo municipal, tornando-se a pessoa mais jovem a receber essa homenagem.