Como as tecnologias podem ser usadas de forma efetiva para ajudar no desenvolvimento do autista?

Victor Mendonça e Selma Sueli Silva

Tecnologias assistivas foi o tema da ONU em 2019 para celebrar 02 de abril, o Dia Internacional do Autismo. Esse é um assunto muito importante. Afinal, depois que a tecnologia se expandiu no mundo, os eventos passaram a acontecer numa velocidade crescente. E tudo se modifica muito rápido, trazendo grandes transformações de uma década para outra.

O ponto frágil do autismo é a comunicação, e a tecnologia surge como aliada das famílias e das escolas para uma educação mais inclusiva. É muito importante pensarmos nas políticas públicas para que essas tecnologias sejam acessíveis a todas as classes sociais.

Alguns professores acreditam que o uso de tablets deveria ser proibido nas salas de aula. Mas não é assim. O tablet e os aplicativos de jogos, por exemplo, podem ser muito úteis para o autista e outras crianças com deficiência.

No caso do autista com dificuldades motores, a possibilidade de se fotografar o quadro nas escolas é muito favorável. Nada é um mal em si. Recursos tecnológicos bem aplicados e utilizados são grandes aliados na área da educação nas áreas da fala e da escrita, mas também auxiliam no treinamento da concentração por meio dos joguinhos, por exemplo. E outros aplicativos.

Há autistas que passaram a se comunicar com o mundo por meio do tablet. É o caso da Carly Fleshmann, autista de grau 3, com deficiência intelectual que não desenvolveu a fala. Aos dez anos, ao encontrar um tablet na casa, ela conseguiu se comunicar por ele. Comunicar é diferente de falar. Há uma tendência compreensível em se dar muito valor à fala, mas não devemos nos esquecer de que o autista pode se comunicar de outras formas.

As mamães de bebês e professores infantis entendem perfeitamente a comunicação deles por que elas prestam muita atenção em todos os outros sinais de comunicação: a expressão da face, o tipo de choro. Às vezes, a gente pode ficar preso à fala e se esquecer de prestar atenção a esses outros sinais da comunicação. Você se comunica com o seu filho? Fica atenta aos sinais de comunicação?

Hoje a Carly é uma grande youtuber que já entrevistou diversas personalidades. Pensem bem, o talento que estava escondido esperando a fala da Carly. Mas ela começou a se comunicar de outra forma e pode expressar todo esse talento e potencial. A gente vê um autista não oralizado e pensa em tudo que ele está perdendo, mas é bom que se diga: o mundo é que perde se não houver alternativas de comunicação para essas pessoas.

Outro bom exemplo é o autista não oralizado Pedro de Lucena, sempre citado nas palestras do Mundo Asperger. Ele possui stins bem expressivos e poderia ser rotulado por tudo isso. Entretanto, nós estivemos num evento em Fortaleza com ele – o Primeiro Encontro de Pessoas Autistas – e ele começou com esses stins, foi ao tablet e escreveu: “Estou me sentindo muito estranho. Nunca pensei em palestrar para tanta gente. Eu estou muito emocionado”. E esse Pedro de Lucena é um poeta da maior grandeza. Toda sua riqueza interior transborda no teclado do tablet. E todos nós saímos ganhando com isso. Por isso, é bom pensar fora da caixa para que nossos pré-conceitos não impeçam o mundo de crescer.

Esse encontro com o Pedro foi no I Congresso de Pessoas Autistas promovido pela Abraça, que é uma Associação de nível nacional que luta por políticas públicas para pessoas autistas, para que mais Pedros possam externar todo seu potencial. Aliás, a autista e ativista Amanda Paschoal disse numa entrevista ao Pedro Bial, da Rede Globo, que o ideal é que todo autista comunique por si, seja sua própria voz.

Enfim, o uso de tablet pode acontecer de forma interdisciplinar e traz o aluno do mundo virtual para o mundo real. É um processo de desenvolvimento que permite a conexão do autista.