Crítica de Filme: Scooby-Doo (2002)

Sophia Mendonça

Desde que estreou no dia 1 de outubro, os filmes Scooby-Doo 1 e 2, que são baseados na famosa animação, estão no topo nos filmes mais assistidos da Netflix atualmente.

Sophia assistindo Scooby Doo (app Mirror)

É possível apostar que, quando a série animada Scooby-Doo, Cadê Você foi lançada, em 1969, ninguém imaginava o sucesso que ela iria fazer. O programa trazia quatro adolescentes metidos a detetives e um cão dinamarquês falante chamado Scooby-Doo que, visitando lugares inóspitos (como casas mal assombradas), resolviam os casos mais misteriosos. Seja pela fórmula dos episódios, que é sempre a mesma mas que não deixa de ser inteligente e interessante nunca, ou pelos personagens carismáticos, a série faz imenso sucesso até hoje. Esse êxito ocorre tanto em reprises quanto nas várias versões televisivas do desenho e nos muitos filmes lançados diretamente em vídeo. É uma pena, portanto, que o cinema fique devendo uma boa obra protagonizada por Scooby e sua turma. Um exemplo disso é Scooby-Doo (idem, 2002), primeiro filme em live-action a trazer esses personagens.

O longa começa mostrando a separação da Mistério S/A depois de um caso ser resolvido. Porém, eles voltam a se encontrar depois que são convidados a solucionar um mistério na Spooky Island, um parque temático. Os jovens que vão para o local apresentam comportamento estranho após estarem lá.

O grande problema da película é ser completamente infiel à obra em que foi baseada. Nem a trilha sonora, mesmo com bastante rock, consegue recriar o clima dos desenhos, em que a música é fundamental para o sucesso dos episódios (afinal, não há como esquecer as cenas em que os personagens fogem dos falsos monstros). E se o design de produção acerta em alguns momentos, como no castelo que os protagonistas vão investigar (tal construção é assustadora, como deve ser), a direção de arte falha ao não criar um parque temático mais arrepiante.

Mas é o roteiro a pior coisa do filme. Escrito por James Gunn, ele peca, por exemplo, na forma ridícula como o carismático (no desenho) Scooby-Loo é mostrado. O mistério é um problema gravíssimo, pois não lembra em nada os da série de tevê, nem na ideia, nem no desenvolvimento, nem na conclusão. E, para piorar, algumas piadas parecem completamente fora do tom, como o humor de banheiro utilizado para criar momentos supostamente divertidos em alguns instantes.

A direção ficou a cargo do ex-montador Raja Gosnell, cujo trabalho deixou bastante a desejar por não conseguir dar ao filme a impressão de estarmos vendo algo derivado do seriado. Afinal, como já foi dito, tudo parece completamente diferente. Os efeitos especiais, apesar de não atrapalharem muito (afinal, existem problemas mais graves na obra), estão longe de serem convincentes. Prova disso são os monstros que aparecem no longa.

Pelo menos Scooby-Doo e Salsicha (interpretado por Mathew Lillard) estão carismáticos como sempre e Linda Cardellini interpreta Velma de maneira discreta e eficiente. Sarah Michelle Gellar cria uma Daphne de personalidade forte e está até bem, mas o mesmo não pode ser dito de Freddie Prinze Jr., mais por culpa do roteiro, que o obriga a proferir frases de caráter sexual (como quando sua alma entra no corpo de Daphne). Fechando o elenco, vem Rowan Atkinson, exagerado como de costume (o que aqui não funciona nada bem), e Isla Fisher, que, como o interesse amoroso de Salsicha, está muito mal aproveitada, apesar de seu carisma.

Mesmo com todo o fracasso artístico, o filme foi um sucesso nas bilheterias, mais por causa das expectativas dos fãs do que pela obra em si. Tanto que sua continuação, Scooby-Doo 2: Monstros à Solta (Scooby Doo 2: Monsters Unleashed), não repetiu o mesmo feito. Sinal do quão decepcionante esse primeiro longa foi.