Crítica de Filme: Verdade ou Desafio? (2018)

Sophia Mendonça

Este filme busca a fórmula para o sucesso de adaptar jogos famosos entre seu público alvo, escalar um diretor experimentado para a função: Jeff Wadlow.  Essas apostas dão certo, justamente porque o cineasta e sua equipe de roteiristas sabem explorar as potencialidades de um material que, embora limitado, é muito popular. Disponível na NetFlix.

Verdade ou Desafio? não reinventa a roda enquanto cinema de horror, mas consegue envolver os espectadores em clima de profundos medo e tensão. Esta é uma inversão dos paradigmas da tendência observada em produções do gênero na atualidade. O filme tem até sustos esporádicos, mas não se centra na adrenalina mais rasteira para conquistar o público. Também não se trata de obra que banaliza a violência. É uma produção instigante, bem realizada e mantém o sentimento de apreensão vivo bem depois da subida dos créditos finais.

Na trama, um grupo de jovens resolve brincar do jogo que dá título ao filme durante férias no México. A brincadeira torna-se realidade e, como um demônio, começa a tomar o controle das vidas de cada um deles. O roteiro, escrito por quatro colaboradores, é engenhoso e relativamente ousado em alguns pontos, como no impactante final. Ainda assim, os roteiristas optam por um caminho seguro, apesar das reviravoltas, e usam e abusam de todos os clichês e estereótipos possíveis. Todavia, está tudo tão corretamente amarrado que fica difícil não se entregar ao entretenimento, mesmo com a carência de novidades.

O cineasta Jeff Wadlem se apropria, de forma inteligente, de convenções do gênero como closes expressivos nos rostos dos atores. Ele não apresenta sinais de pressa na condução da narrativa e inicia flertando com o público de forma até lúdica. Porém, à medida que as verdades se tornam mais problemáticas, os desafios também vão ficando mais perigosos. Dessa forma, Verdade ou Desafio? surpreende ao ganhar forma e brincar com as expectativas dos espectadores. A criação do sentimento de pânico é orgânica e palpável durante a projeção. E uma vez que o pavor é transmitido a quem acompanha o longa-metragem, ele se instala e não abandona o espectador, como a maldição que permeia o enredo também não oferece trégua aos personagens.

A escolha de manter a chama acessa é beneficiada pelas interpretações que, embora não sejam espetaculares, funcionam bem no contexto da obra. É certo que um filme como este não exige muito do elenco. Os personagens são rasos como um pires e mesmo os dramas e conflitos que passam pela história não são mais que meros artifícios para o objetivo de amedrontar o público. Isto não chega a ser um problema, pois faz parte até da constituição do terror enquanto gênero. Contudo, há carisma e verossimilhança nas interpretações, o que facilita o envolvimento na atmosfera exibida pela produção.