Desculpa, aí – O diagnóstico de TEA em adultos

Selma Sueli Silva

Hoje, dois de abril, estou na praia com meu filho Victor aproveitando o dia ensolarado. Estou muito feliz enquanto um filme passa na minha cabeça.

Muita gente estranhou o fato de eu ter descoberto ser autista aos 53 anos. Desculpa aí. Pra mim foi bom. Só eu sei como era não entender tantas reações impulsivas, passar do modo tranquila para o fazer um barraco num atmo de segundo. Hoje reconheço os gatilhos e minimizo o caos de momentos assim.

Outros estranharam eu ter divulgado o diagnóstico. Desculpa aí. Foi incrível me entender, mesmo aos 53 anos. Queria que outros adultos se entendessem e pudessem viver o presente, buscando compreender o passado.

Houve quem julgasse que naquela altura do campeonato, pra quê? Eu sei como ter consciência das armadilhas do meu cérebro tornou mais fácil minha relação com a família.

Desculpa aí se eu precisava entender o porquê sempre foi desgastante viajar, ir às reuniões da empresa, fazer o social com os amigos.

Mas “você é ótima comunicadora”.

Claro que sou. Estudei pra isso, foquei nisso, me preparei com muita seriedade. Falar em público, utilizando as técnicas da comunicação, é diferente do diálogo. Não me exige saber qual é a deixa pra eu falar, se estou sendo inconveniente, se já está na hora de dizer tchau. Nas palestras, como no rádio, é só ser eu mesma e falar das coisas que acredito.

Até as coisas mais banais eram difíceis. Por que eu ficava tão desgornizada e desorientada e tudo virava demandas e listas imensas de pendências?

Hoje eu sei. E isso muda tudo. Desde pequena, sentia um aperto constante no coração que piorava na escola.

Até hoje, ver as mesinhas e as cadeirinhas da salinha do ensino infantil me dá um nó na garganta. Lembro perfeitamente de não entender por que eu tinha de ficar ali e não na minha casa. Eu adorava aprender mas não entendia como fazer as coisas, como atender os comandos dados.

Sempre tinha alguém me pegando, me puxando, tentando me orientar e eu me sentia muito burra. Eu já era preocupada com o futuro, como é que eu iria fazer isso ou aquilo.

Desculpa aí, mas foi muito importante, pra mim, aprender e descobrir que não seria eu a responsável por colocar ordem no mundo.

Tudo tinha de ser perfeito. Começava a faxinar a casa, ia de um cômodo a outro, começava aqui, parava ali, me reorganizava acolá. Gastava, nisso, 12 horas, até tudo ficar do jeito que tinha de ser.

Desculpa aí, mas foi bom descobrir que não precisa ser assim, que eu posso ser diferente.

Desculpa aí, mas conhecer e identificar minhas fragilidades me deu a oportunidade de utilizar meu tempo de forma mais eficaz.

Você ainda não sabe porque o adulto precisa de diagnóstico?

Desculpa aí, mas eu sei muito bem o porquê e hoje eu tenho todos os motivos pra comemorar esse dia com todas as famílias.

Autismo. Não é fácil, mas é possível entender, aprender e ser feliz!