Empatia no Mundo Atual

Victor Mendonça

No dia de seu falecimento, o saudoso jornalista e apresentador Ricardo Boechat fez em seu último programa na Rádio Band News FM uma reflexão que ia ao encontro da Teoria da Disfunção Narcotizante da mídia. Ela ocorre quando o excesso de informações sobre tragédias e afins faz com que o público se sinta anestesiado por aquilo, como se estes acontecimentos fossem algo esperado ou mesmo corriqueiro. Este conceito hoje pode parecer ultrapassado por conferir à mídia uma ideia de influência no público muito maior do que realmente tem. Afinal, são vários os meios que ajudam a moldar a visão de mundo e as percepções críticas dos consumidores dos veículos de comunicação (como a família, a escola, a igreja etc.). Todavia, no contexto apresentado, a discussão proposta revela-se mais atual do que nunca.

Vivemos em uma sociedade em que as tragédias vêm ocorrendo sucessivamente, uma após a outra, fazendo com que esqueçamos rapidamente a anterior após mostrar nossa indignação e mergulhemos a fundo na próxima, até que outro acontecimento terrível apareça. Assim, crimes ambientais como o de Brumadinho são completamente esquecidos em poucos anos ou décadas, e as chances de novamente uma barragem se romper permanecem tão altas quanto eram antes do ocorrido, porque são frutos de um processo muito mais amplo que devemos analisar com cuidado acerca do modelo brasileiro de exploração mineral. Desta forma, a impunidade reina e o ciclo de desastres se perpetua.

No âmbito pessoal, o caráter imediatista de nossa época tem colaborado com o surgimento e agravamento de vários transtornos psiquiátricos sérios, como depressão e ansiedade, que devem ser tratados com respeito e não simplesmente confundidos com “frescura” ou preguiça do indivíduo, como se fossem algo cujo controle está facilmente em suas mãos e que a pessoa não resolve porque não apresenta este desejo. Nesta hora, o mais importante é abrir mão de nossas verdades pré-concebidas e ouvir o outro, não imaginar que somos nós em seu lugar a partir de nosso ponto de vista, mas sim tentar entender como a outra pessoa vivencia seu próprio contexto. É aí que podemos tentar ajudar, oferecendo acolhimento, diálogo e mesmo soluções concretas. Eurípedes, poeta e dramaturgo da Grécia antiga, disse que não há melhor remédio para as dores do ser humano do que as palavras de alento de um bom amigo.

Como apontei em texto sobre migrantes e refugiados em minha coluna para o portal SeikyoPost!, “o século 20 deixou como herança várias sequelas de uma incitação ao desprezo e à inimizade em relação a certos grupos de pessoas, devido às duas grandes guerras mundiais. (…) A essência dos direitos humanos está no compromisso de jamais permitir que mais ninguém sofra o que alguém já sofreu. Por isso, os direitos humanos não selecionam nacionalidade, etnia ou condições socioeconômicas, pois se referem a todo e qualquer ser humano”.

Segundo a jornalista Selma Sueli Silva em artigo para este blog sobre Autismo e Empatia, “a palavra empatia (in = para dentro + pathos = sentimento) tem o sentido de sentir-me no lugar de, sendo, portanto, mais forte do que a palavra simpatia, pois, ante a dor do outro, eu me sinto no lugar daquele que sofre. A empatia nos torna sensíveis a dores do outro”. Em outro texto para o SeikyoPost!, agora sobre a visão budista da empatia, afirmo que “A capacidade de se colocar no lugar do outro é crucial no atual milênio. Um buda (pessoa iluminada, que compreende a natureza da vida e sabe discernir o certo do errado) percebe e compreende a dor das pessoas, mas não deixa que isso o paralise. Ao contrário, é essa compreensão que o capacita e lhe dá forças para compartilhar sua coragem e sabedoria com todos que necessitam”.

A falta de empatia na seara da Inclusão pode fazer com que a sociedade perca valores inestimáveis. A série “BBC Icons”, da BBC, decidiu nomear como um ícone do século 20 Alan Turing, autista e gay, tido como “pai da computação”, criador dos princípios básicos de programação, que deram origem aos computadores e celulares. Vítima do preconceito por esses dois motivos, ele chegou a ser castrado quimicamente e se suicidou em decorrência da depressão, mesmo que seus inventos tenham salvado milhões de vidas na Segunda Guerra. O filme “O Jogo da Imitação” conta um pouco da vida deste homem de extrema relevância para a humanidade, mas que não teve o reconhecimento merecido, à época, pela ignorância social.

É preciso entender o princípio básico do respeito à dignidade máxima da vida para nutrir a empatia por qualquer pessoa, mesmo por aquela que consideramos estar nas partes marginalizadas da sociedade. Segundo estudo da ONG Observatório das Favelas, o perfil dos jovens que ingressam no tráfico atualmente é de adolescentes negros, nascidos em famílias numerosas, chefiadas por mulheres de baixa renda. Antes de entrarem para o crime, largaram a escola e tiveram trabalhos em condições precárias. “Eles querem seguir estudando, mas as escolas fecham as portas, os empregadores não os aceitam, a família passa fome, e o tráfico aparece como a melhor opção. Fome é um problema imediato”, consta na página do Facebook “Quebrando o Tabu”.

Este déficit na educação é um problema que está no cerne de toda a crise sociopolítica que vivemos hoje, e é algo que somente a busca por políticas públicas oriunda da empatia poderá reverter. Afinal, esta característica (da empatia) nos torna humanos capazes de não nos igualarmos aos criminosos e pessoas com discursos de ódio. Assim, para estes casos, passamos a querer justiça e jamais vingança, e termos maior sabedoria para resolvermos os males sociais pela raiz, ao invés de alimentarmos um ciclo de ira e lamentações. Afina, nas palavras do renomado escritor Victor Hugo, de “Os Miseráveis”: “Os grandes sofrimentos agigantam a alma a proporções descomunais”. Que este difícil período em que vivemos sirva para nos tornarmos pessoas melhores, transformando-nos em uma sociedade mais humanizada.