Família e pandemia, tudo junto e misturado

Selma Sueli Silva

Como as famílias estão lidando com o excesso de convivência diária trazida pela pandemia do coronavírus?

Nesta época de distanciamento social, mães que tem filhos autistas costumam passar por desafios mais intensos por causa da nova rotina. Keila Alves Pereira é mãe de Arthur David, uma criança esperta de 5 anos. Toda a família está em quarentena e as únicas saídas acontecem nas idas ao Supermercado.

Arthur estuda na Emei da Gameileira e, nesta semana, a família recebeu um vídeo com recadinhos de todas as professoras.  Keila explica que essa forma de interação aproximou emocionalmente a família e a comunidade escolar, já que as Emeis não adotaram atividades virtuais.

Mas, como mãe precavida, Keila tem recorrido à internet para ‘inventar’ atividades para o filho. O pai de Arthur e o enteado tem menos tempo para brincadeiras conjuntas por causa do home office e das aulas on line. A diversão fica, portanto, a cargo da mãe que se desdobra para manter, também, as tarefas da casa.

Keila conta que o filho está mais falante com essa convivência mais próxima mas, infelizmente, ela tem tido dificuldades para controlar a utilização dos eletrônicos. O fato de as terapias terem sido suspensas tem dificultado bastante manter uma rotina com atividades diárias mais saudáveis.

Para Janaína Duque Ferreira, mãe do Guilherme de 7 anos, a rotina também não está sendo fácil. Ela se equilibra entre a casa e o home office. O marido sai para o trabalho e Janaína fica com todas as tarefas do dia a dia. Eles estão muito cansados com essa nova realidade e o filho, bastante entediado.

O fato de não haver aulas on line dificulta tudo. Embora a mãe tenha tentado, Gui, como o filho é carinhosamente chamado, não aceita atividades da escola em casa. Uma característica, possivelmente, explicada pela rigidez cerebral do autista: ‘lugar de estudar é na escola’.

Janaína aponta que a mudança de rotina é cansativa para todos. O filho se desorganizou, o que afeta toda a família. Até atividades que eram tranquilas como o banho e a hora de dormir, hoje são realizadas depois de muita ‘briga’ e choro. A mãe lembra que mesmo morando em casa, com muito espaço para brincar, o filho fica mais no uso dos eletrônicos.

Embora esteja sendo difícil de conciliar trabalho com as atividades de casa e da maternidade, Janaína considera positiva a experiência do trabalho à distância. Mas ela também confessa que está muito ansiosa e amedrontada com tudo isso, o que a leva a crises de ansiedade e muito estresse. O lado positivo é que a família está mais unida.

Chislene Araújo tem três filhos, o Rafael de 11 anos, Felipe de 7 e Mariana de 5. O filho mais velho, autista, estuda numa escola particular. Na família só o pai sai para o trabalho, mas os filhos têm uma rotina diária de aulas on line. Para a mãe, não é o ideal, mas todos se adaptaram bem à essa nova realidade, que permitiu que ela conhecesse a real necessidade de aprendizagem dos filhos.

Para o sucesso do funcionamento da nova rotina, Chislene, prepara um cronograma semanal que ela chama de ‘nosso’ porque é ela que adapta o cronograma da escola, de acordo com a realidade de vida da família. Chislene explica que “assim as crianças não se sentem sobrecarregadas e eu e o pai nos revezamos na hora de ensinar.” Mas ela faz questão de dizer que os vídeos das aulas, elaborados pelos professores, são excelentes.

Além disso, Chislene está surpresa com o professor de matemática que, apesar de jovem, está construindo uma relação de confiança com o filho que apresenta, também, discalculia – dificuldade maior de aprendizagem específica em matemática. Ele sempre aparece com uma alternativa para as dificuldades do filho Rafael.

Para Chislene, o resultado do material das aulas on line está nota 10, levando-se em consideração o tempo que aos professores tiveram para preparar os vídeos de aula, menos de 30 dias. E é essa mãezona de 3 filhos que dá a dica: “Estabelecer uma rotina de aprendizagem dentro de casa em um período de quarentena ajuda no equilíbrio com o uso de eletrônicos por parte das crianças. Rotina faz bem, e nessas horas, inclusive, ajuda o lado psicológico.”

Chislene ressalta que a família sente muita falta de passear livremente.  Ela mantém a página @chisa.araújo, no instagram, onde dá dicas sobre rotina familiar, passeios e outras orientações relacionadas à experiência de ser mãe de três filhos.

Fernanda Milagres e o filho Jorge de 9 anos, estudante da rede privada de educação, também estão em quarentena. Esse período em que ela alia o trabalho como defensora pública, à maternidade e às tarefas de casa apresenta algumas dificuldades e muita tensão.

Umas dessas tensões acorreu porque o filho, autista, não se adaptou com as aulas on line, estando bastante prejudicado em relação aos colegas. Ainda assim, mãe e filho conseguem ter bons momentos juntos. Mas Fernanda confessa que tem sido um desafio “manter o equilíbrio mental e o pensamento positivo.” “Lidar com o esgotamento mental e físico está sendo complicado”, desabafa. Entretanto, a psicoterapia à distância foi mantida e a internet tem sido uma ferramenta preciosa para a família.

A dentista Maysa Sousa A. Maciel está às voltas com o filho Mateus, de 9 anos, e o marido. Na casa, só ela e o marido saem para compras de farmácia, supermercado e visita ao pai aos sábados.  A família se adaptou à restrição das demais atividades mas sente falta das idas a praças, parques, de receber amigos e andar de bicicleta. Mateus estuda em uma escola pequena o que facilita manter contato, inclusive com a coordenação. O filho de Maysa tem aulas on line todos os dias, de segunda a sexta, de 8 horas da manhã ao meio dia, praticamente desde o início da quarentena.

A família reconhece que a interação da sala de aula faz falta mas que a solução temporária está resolvendo já que o período de afastamento se estendeu e é preciso seguir em frente com a rotina das crianças. Dessa maneira, o atraso para repassar o conteúdo, quando tudo isso passar, diminui e afasta a possibilidade da perda de todo o ano letivo.

É fato que nem os professores e nem as crianças estavam preparados para o que esse novo vírus trouxe à vida das pessoas, mas Maysa reconhece que é também uma “oportunidade de levar mais tecnologia e novas ferramentas de aprendizado para a escola tradicional.”

Ela e o marido conseguiram dividir as tarefas. Ele acompanha as aulas on line pela manhã e desempenha o papel da mediadora que o filho tem na escola. Nesse período, Maysa trabalha home office e à tarde eles se revezam nas tarefas de casa e reforço de atividades escolares. Ela explica que, dentro do possível, todos seguem a rotina na semana para conseguirem conciliar estudo, trabalho e momento de diversão. Ainda assim, ter o trabalho, as atividades de casa e da escola com o filho, tudo acontecendo ao mesmo tempo e no mesmo ambiente, tem sido um grande desafio.

Porém, a família gostou dessa oportunidade de uma convivência maior, como almoçar juntos e constatar que podem viver sem várias coisas como salão de beleza e ainda aprendem como administrar melhor os alimentos sem grandes desperdícios.

Para Maysa, a internet tem dois lados: o positivo porque é uma grande distração quando se tem que passar grande tempo em casa. Por outro lado, controlar esse tempo com o filho é um desafio já que, se deixar, as crianças só querem ficar nesta atividade que distrai, é verdade, mas também cansa. A dentista explica que esse fato já rendeu alguns momentos de estresse para “conseguir colocar limites e tempo”. Maysa lembra ainda, que “a grande gama de informações criou ansiedade sobre a infecção pelo Covid-19 e a possibilidade de todos ficarem doentes.” Ela constatou que isso foi um peso para o filho que ainda é muito jovem para conviver com o clima de tensão pelo qual o mundo tem passado.

Pedro, de 15 anos, é filho de Rejane e tem uma rotina com os desafios próprios da adolescência. Ele estuda na rede municipal de ensino e não está tendo aulas on line. A família fica em casa e quando é necessário fazer alguma compra, somente um deles sai.  O filho não tem atividades on line, pois a rede municipal está parada.

A mãe de Pedro trabalha como social media e mantém o instagram @mundodopedro.feliz onde fala do “autismo na adolescência de forma leve e divertida”. Mas ela confessa que no início da quarentena foi difícil e que agora todos já estão adaptados. Rejane e Pedro gostam de assistir a filmes juntos mas ela ressalta que sente falta de passear e de não ter de se preocupar muito com a limpeza e higienização rigorosas.

Entretanto, os olhos de Rejane se iluminam quando ela conta que o novo trabalho surgiu nesse período. E, para compensar, agora ela tem a oportunidade de ensinar as tarefas domésticas ao filho e, também, ao marido que está em home office.

O uso da tecnologia com equilíbrio em tempos de quarentena

Depois de perceber a dificuldades das mães em equilibrar o tempo de uso da internet, a reportagem falou com a neuropsicóloga Dra. Annelise Júlio-Costa. Destacamos a resposta da especialista:

“O período tem sido muito difícil para mães e pais que precisam dividir o tempo entre filhos, afazeres domésticos e trabalho. Uma mudança brusca e repentina aconteceu e além de terem que se adaptar às novas demandas, os pais precisam guiar a adaptação dos filhos à nova rotina. A mudança da rotina trouxe muito tempo de ócio que está sendo ocupado com o uso dos eletrônicos.

Entretanto, o uso excessivo de telas traz diversos problemas para a criança como aumento de irritabilidade e a dificuldade para fazer outras atividades e brincadeiras fora do mundo virtual. Destaco abaixo, algumas dicas para manejar o uso de eletrônicos em tempos de pandemia.

  1. Estabeleça uma rotina com as crianças e adolescentes. A rotina não precisa ser rígida e com horário para tudo. O objetivo é organizar e estabelecer sequência de atividades rotineiras, os horários das refeições e sono, limitar o horário de eletrônico e organizar alguns horários livres que serão dedicados a brincadeiras, leitura, momentos em família entre outros.
  2. Estabeleça horários “sem eletrônicos”. Esta dica completa a primeira, pois sei que é uma “ginástica” para nós, pais, mantermos as crianças ocupadas todo o dia. Sem problema! As crianças também precisam aprender a lidar com o tédio. Você irá escutar: “mas não tem nada para fazer”, “isso é chato”, “tô entediado”. Acontece que essa situação passa e pode não durar mais que alguns dias, quicá minutos. Seus filhos precisam do tédio para que a criatividade possa aflorar. Eles vão achar alguma coisa para fazer, sejam eles filhos únicos ou não.
  3. As crianças/adolescentes PRECISAM de atividade física. Estabeleça um momento para isso. Você pode usar vídeos do YouTube, dicas de exercícios funcionais ou mesmo usar as atividades domésticas como exercício físico.
  4. Faça a higiene do sono. Não vá dormir e deixe-os acordados. Meia noite não é horário de criança acordada!

Entendo que a implementação das dicas pode ser desgastante e trabalhosa e que algumas crianças/adolescentes vão apresentar resistência. Não desista, o trabalho inicial de estabelecer a rotina será recompensado no futuro. Enfrente o leão!

Cada mãe/pai tem suas demandas e a implementação das dicas fica dentro do que é possível para cada casa. Pense no que é possível e esqueça o ideal, isso diminuirá suas frustrações. Busque por resiliência, paciência consigo mesmo, persistência e esperança.

Ah, uma última coisa: sozinho é mais difícil! Então, procure conversar com quem passa por questões semelhantes as suas e ainda com quem te acolha nas frustrações diárias. Caso sinta necessidade, há profissionais da psicologia que prestam assessoria rápida de estabelecimento de rotinas e orientações para deixar este momento mais leve. Isso vai passar, mas até lá procure viver e não apenas sobreviver.”

Confira mais sobre o uso saudável dos eletrônicos no link abaixo. Você terá acesso à cartilha preparada pela Dra Annelise e equipe, “Como trabalhar o uso de eletrônico com as crianças? Dicas para criar bons hábitos no mundo virtual”.

https://www.neuropsicoterapiabh.com/cartilhas