Hiperfoco – Interesses Restritos do Autista

Victor Mendonça

Estávamos eu e uma amiga conversando sobre o que é ser autista. Como em todo bom diálogo, houve pontos de concordância e discordância. Analisar gente e suas nuances, o ser humano com toda a complexidade inata à condição, sempre foi um dos meus interesses centrais, é um tópico que me move tanto na carreira de escritor como no lado de ator em formação. Dentre vários assuntos surgiu a questão do hiperfoco – os interesses restritos e repetitivos nas pessoas com TEA.

Muitos pais se desgastam com a aparente obsessão dos filhos por determinados temas ou objetos. Alguns se mostram até bastante preocupados. Não os julgo. Também pode, eventualmente, aparecer quem julgue essa característica como algo similar à genialidade – e muitas figuras importantes na História apresentavam ou apresentam traços, leves ou nem tanto, do espectro autista.

Em minha concepção, o hiperfoco é neutro, mas, como muitas coisas na vida, pode ser o caminho dourado para o sucesso e plenitude – tanto pessoal como profissional –, se bem trabalhado. Eu gosto muito de ter hiperfocos, e acredito que foram eles que ajudaram a forjar a pessoa que sou hoje, em todos os aspectos. Eles me levaram a ter um portfólio profissional, aos 21 anos, do qual me encho de orgulho. Essa facilidade na concentração sobre alguns temas também foi forte aliada na luta contra a depressão ou ansiedade e na compreensão do mundo externo.

Meu primeiro hiperfoco foi com os contos de fadas. Assisti a incontáveis versões de todos eles, em especial Cinderela, que era o meu favorito. Vi a trama como se fosse uma história real em “Para Sempre Cinderela”, gostei das adaptações adolescentes e também das mais próximas ao conto de Charles Perrault. Até hoje me pego revendo as adaptações da Disney ou cantarolando as canções do musical de Rodger e Hammerstein. Isso é vida!

Na mesma época, viciei-me no desenho animado “Três Espiãs Demais”, o que me levou a querer conhecer todos os países que elas visitavam em suas missões, mesmo que por meio da Enciclopédia do Show do Milhão (sim, houve um tempo em que a Internet não era de tão fácil acesso!). Além de muitos falatórios sobre o tema, calculei o PIB e a renda per capta de todas essas localidades, aos sete anos.

Depois vieram reality shows, os filmes, o budismo e a literatura chick-lit, voltada à mulher moderna – todos eles se mantêm até hoje e vão se alternando em minha mente. Devorei todos os livros de Sophie KInsella, de “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”, o que me inspirou a escrever, no auge de uma crise, “Danielle, Asperger”, aos 14 anos.

Tudo isso converge para o meu hiperfoco central: analisar nuanças dos atos das pessoas. Até aí tudo maravilhoso, mas e quando eu começo a pensar demais sobre isso? A tentar compreender o comportamento dos que me cercam? Por um lado, isso me trouxe o benefício da ponderação, e por outro me fez sofrer ao notar e repetir para o meu cérebro, várias vezes, algumas contradições. Eu sempre me coloquei muito “‘na mão” do outro, dos julgamentos alheios, e isso não me faz nada bem. E o cérebro hiperexcitado não dá sossego, da profunda alegria ao sofrimento mais indesejado. Vou de um momento ao outro num piscar de olhos e, tendo consciência disso, tento administrar essas armadilhas do meu cérebro.

O que importa, ao final, é jogar luz nas habilidades que o hiperfoco nos traz para vencer as batalhas do cotidiano. O prazer dado por um momento com meu tema de interesse é indescritível. E compartilhá-lo com outros – às vezes por meio de monólogos, confesso –, isso sim, vale a pena e a prenda!