Intersecção entre deficiência, feminismo e racismo

Selma Sueli Silva e Camila Marques

Selma Sueli Silva e Camila Marques falam sobre as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho e a relação do feminismo com a busca da mulher deficiente pelo direito de fala.

Selma Sueli Silva: Camila, quando começamos essas gravações, no início da pandemia, não sabíamos se em julho tudo já estaria resolvido. Já estamos no meio do mês de julho e na minha família, infelizmente, já teve um caso de morte por covid. Por isso, eu reforço um apelo para você: Fique em casa.  Vamos levar isso a sério.

Mas, nem tudo é triste na pandemia. Eu vi assisti a várias palestras e uma, em especial, me chamou a atenção. Era sobre a interseção do feminismo, do racismo  com a luta das  mulheres com deficiências. E eu achei muito interessante porque quando você fala da luta da mulher com deficiência, você pensa que a luta dela é só por isso. Mas, quando a mulher com deficiência ganha voz, entre as mulheres mesmo, ela ainda é vista de maneira inferior, não pelas mulheres feministas, mas pela sociedade. É como se a mulher deficiente não fosse a mesma que outra mulher.

Vocês imaginam: eu tenho a mais absoluta certeza de que, se eu fosse um homem, eu teria chegado a um patamar maior do que eu estou hoje. Não por causa da minha competência, mas porque os microfones das rádios ainda são mais cedidos aos homens, os brancos e ditos normais, sem deficiência. Por isso, é preciso que a gente se conscientize de que feminismo não é questão de mi mi mi. Camila, isso também acontece isso com a luta das mulheres pretas com essa ascensão na sociedade. Como isso funciona?

Camila Marques: Bom Selma, quando a gente faz uma pirâmide das opressões, desde o começo, a gente tem no topo os homens brancos, abaixo, as mulheres brancas, depois, os homens negros e por último, as mulheres negras. Antes, eu vou falar um pouquinho da luta das mulheres com deficiência. Ao longo da história,

Os homens sempre estiveram no topo. Hoje, nós, as mulheres, somos mais escolarizadas do que os homens*, mas ganhamos, proporcionalmente, menos que eles, embora exercendo as mesmas profissões. Então, essa opressão vem de sempre. O feminismo vem do Iluminismo**, no século 18, século 19. Ele começou com as mulheres liberais, mulheres brancas, que queriam ir para o mercado de trabalho e ter independência.  A diferença é que, as mulheres negras, nunca saíram do mercado de trabalho. Mesmo quando você pega lá atrás, no período da escravidão, as mulheres negras estavam trabalhando, foram amas de leite, fizeram o chamado serviço pesado.  Então, na verdade, as lutas das mulheres possuem individualidades, mas se entrelaçam. A gente observa as mulheres com deficiência, além da opressão por serem mulheres, com as particularidades que essas mulheres possuem, elas sofrem discriminação. Para o mercado de trabalho, só vale o corpo perfeito, 100% dentro daquilo que é considerado como perfeito.

Selma Sueli Silva: Quando a mulher negra começa a luta dela, aí as pessoas consideram normal. Agora, se a mulher negra for deficiente, assim como a branca, elas ficam abaixo da mulher branca nessa luta. A mulher deficiente, primeiro teve que ganhar voz, porque o protagonismo era de quem cuidava dela. Era como se o corpo não perfeito, essa mente neurodivergente, que não funciona como as outras mentes, não pudesse ter voz. Essas pessoas eram consideradas incapazes de  de falar, de se expressar e ter desejos, de ter sabedoria, de ter alcance. E aí, a primeira coisa que a mulher com deficiência teve que ganhar foi essa voz, ou seja, ela falar por ela. “Ok. Eu preciso de você para me ajudar, para empurrar a minha cadeira e isso não tem nada demais”. Somos seres interdependentes e, em algum momento da nossa vida, nós seremos dependentes. Então funciona assim: “Ok. Eu preciso de alguém para empurrar a minha cadeira, mas para aonde ir, sou eu quem digo”. É uma luta maior, percebe? Eu e a Camila gostaríamos de fazer um convite a você, que está lendo nosso blog: A partir de agora, quando ouvirem sobre a luta do feminismo, a luta da mulher, não pensem como mero mi mi mi. Tentem verificar o que tem há por trás disso, que é a tentativa de construir uma sociedade mais humanizada e inclusiva, porque se a gente perde um ser humano, homem, mulher, negro, branco, norte-americano, brasileiro, a gente perde um ser humano. Aliás, nos dias de hoje, a pandemia está reforçando isso: somos todos cidadãos globais. Temos uma cidadania planetária. O que a gente faz aqui, o que a gente vive aqui, repercute lá no Japão, que está do outro lado. E, é esse convite que a gente faz aqui, não é Camila?

Camila Marques: Exatamente, Selma. Quem diria que um vírus, que veio de tão longe, nos obrigaria a ficar em casa. A sociedade está cada vez mais interligada. Esse vírus atinge negro ou branco, homem ou mulher, todos, infelizmente, estão partindo. A doença não escolhe gênero, raça ou cor.

*Segundo dados publicados pelo IBGE em 2018, na pesquisa “Estatísticas de Gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil”, indicaram que as mulheres ocupam menos cargos gerenciais (públicos ou privados) que os homens. Em 2016, 62,2% desses postos eram ocupados por homens e 37,8% pelas mulheres.

**Dividido em três ondas, o movimento feminista teve sua primeira onda iniciada em meados do século XIX e início do século XX. Mulheres brancas, de classe média, europeias e da América do Norte. A Revolução Francesa (1789) e seu contexto, inserido no Iluminismo, influenciou a busca das mulheres por seus direitos.  Embora já acontecessem movimentos isolados, o movimento feminista negro só ganharia força na década de 1960, com o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.