Mãe atípica preta – um recorte necessário

Gabriela Guedes

Olá,  me chamo Gabriela Guedes, sou jornalista de formação e mãe atípica do Gael, um menino de quase 05 anos, mas  você deve estar se perguntando: O que é uma mãe atípica?

Bom, sabemos que cada mãe tem seu modo de exercer a maternidade, e esta, também pode se apresentar de diferentes maneiras para cada mulher. Eu, particularmente, prefiro utilizar o termo “maternar”,  pois reflete o movimento que é da própria maternidade, de cada fase, de cada filho. Maternar é um ato de doação, de desenvolvimento e de muitas responsabilidades.

Confesso que achei que estaria preparada de uma maneira intuitiva para os desafios da maternidade, mas não, não estava. E possivelmente, ninguém está!

Gael é um garoto esperto, cheio de personalidade e energia, e aos dois anos foi diagnosticado como uma criança autista. Eu que estava aprendendo os desafios da primeira maternância, agora já não era apenas mãe, mas também, uma mãe atípica.

Atípica porque, nesse contexto, a maternidade  não se restringe a ensinar ao meu filho as descobertas e as dores do crescimento, mas também, proporcionar a ele, entre outros fatores, a inclusão, tratamentos e autonomia. E mais: atípica ainda porque preciso ensinar a maior parte da sociedade como conviver com uma pessoa que precisa aprender e pensar de uma maneira distinta da grande maioria.

A exclusão e o preconceito não são novidades em minha vida, como mulher preta, pobre e periférica, entendi depois de muito esforço que eu não seria aceita em muitos lugares e que não teria todas as oportunidades para crescer e desenvolver todos os meus potenciais. Com isso, me preparei de forma emocional para explicar ao meu filho sobre racismo, sobre preconceito e sobre ser forte, muito forte, antes mesmo de ensiná-lo a contar até mil.

Ao receber um papel com a hipótese diagnóstica do meu filho, meu trabalho, minha maternidade, ganhou uma proporção ainda maior, agora precisava desenvolver, apoiar e proteger uma criança negra e com deficiência. Não era apenas sobre desenvolver sua autoestima, mas sobre garantir sua cidadania e sua sobrevivência em todos os espaços; e principalmente, educar pessoas para que despertem para a existência de meu filho e de outras crianças como ele ou com outras deficiências. Sendo que entre esses meninos e meninas com deficiência, há muitas crianças pretas, sem assistência e sem suporte financeiro que merecem, como qualquer pessoa, viver nesse mundo como indivíduos, como cidadãos, não simplesmente sendo tolerados, invisibilizados e excluídos. 

Em minha jornada com o Gael, me deparei com um sistema de saúde público muito mais falho do que já conhecia. Que não consegue dar acolhimento a todos que o procuram e que precisam de tratamento de curto ou longo prazo; me choquei com a burocracia para as consultas e exames e com a falta de profissionais que pudessem nos assegurar um cuidado contínuo. Tudo isso, embora tenhamos um dos mais democráticos e inclusivos Sistema de Saúde gratuito do mundo – o SUS –  e quero deixar explícito que devemos lutar com todas as forças para que continue assim, sendo que, a necessidade de defendê-lo ficou ainda mais evidente neste contexto de pandemia da Covid 19, e parte da luta para a sua defesa é exigir que seja melhor administrado, receba maiores recursos e que todo seu repasse seja utilizado com responsabilidade pelos representantes públicos nas diferentes esferas governamentais e administrativas.

O choque de realidade aconteceu quando consegui atendimento para o meu filho pelo convênio médico  (sem antes outra grande luta, claro!). E ao conseguir tratamento em um ótimo local privado, com excelentes profissionais e muitas outras possibilidades, ficou ainda mais evidente para mim o tamanho do abismo social. E mais que isso, me dei conta que não existe representatividade suficiente em espaços aonde teoricamente meu filho deveria passar 40 horas  de sua semana, sejam em profissionais negros para sentirem alguma identificação, ou em outras crianças pretas, para não sentirem que estão sozinhas.  Não é uma crítica, é constatação!

A representação através das referências sobre maternidade atípica que precisava no momento do diagnóstico também não encontrei. Todas elas, praticamente o oposto de mim e da minha realidade, nesse momento, a sensação de abandono e de solidão, outra vez,  me pareceu alguma norma social  que eu seria incapaz de combater porque eu estava sozinha, e minha preocupação e medos seriam apenas meus.

Foi então que com a chegada e as horas intermináveis disponibilizadas com a quarentena e com o incentivo do meu marido veio o blog Mãe Atípica Preta. A princípio, seria apenas para falar sobre minhas reflexões, descobertas, questionamento e maternar, mas um problema na página e sem condições financeiras de mantê-la, me fez migrar para o Instagram e ali tudo se desenhou.

Achava improvável que alguém ali se identificasse, que alguém se interessasse, que alguém simplesmente me ouvisse. Mas foi além, muito além das minhas expectativas: fui ouvida, fiz conexões incríveis, conheci pessoas com outras histórias e demandas e pude enfim encontrar outra mães pretas, que apesar da sua correria cotidiana e do pouco suporte também buscam contar suas histórias e ainda, encorajar outra mães pretas e periféricas. Também fui abraçada por toda uma comunidade e mais que isso, aprendi com eles e percebi que as questões da falta de representação afro não eram somente no autismo, mas em todas as demais comunidades de Pessoas com Deficiência.

E assim, surgiu a página que hoje se voltou quase que totalmente ao meu ativismo, embora minha vida não seja somente dores e lágrimas. No entanto, por mais que queira humanizar o conteúdo, sei que seria muito fácil para as pessoas esquecerem o seu real propósito e sua função de racializar a maternidade atípica e os atravessamentos e opressões que nossos filhos autistas e tantas outras pessoas pretas e pobres, com deficiência,  passam diariamente.

É sobre mim, sobre tantas outras mães atípicas pretas, que no seu “corre” diário em busca de tratamento, remédios ou insumos,  não podem sentar diante do computador para narrar suas lutas e os descasos que se deparam todos os dias. Algumas pela falta de Internet ou de computador, e outras simplesmente porque precisam estar lutando diariamente e incessantemente pela sua sobrevivência e dos seus.

Minha vida não é fácil, mas sei que há muitas outras com desafios ainda maiores que os meus. A meritocracia e as oportunidades não nos alcançam, uma escolha nem sempre é uma “escolha”, é simplesmente a vida acontecendo enquanto buscamos sobreviver e nos equilibrar dentro dela.  Por isso, o Mãe Atípica Preta existe para que eu possa falar e estimular que outras pessoas também falem e para alcançar transformações, ainda que sutis. Como diz a autora, filósofa e ativista  Ângela Davis:  “Você tem que agir como se fosse possível transformar radicalmente o mundo. E você tem que fazer isso o tempo todo.” 

Gabriela Guedes é mãe atípica do Gael, de quase 5 anos. Ativista pelos direitos das famílias de pessoas com deficiência, pelos direitos humanos e da luta antirracista e anticapacitista. Autora do Blog e do Instagram @mãeatípicapreta. Membra e uma das idealizadoras do Movimento Vidas Negras com Deficiência Importam, @vndi.Brasil