Meu filho autista percebeu que eu também era autista

Selma Sueli Silva

Aos 18 anos, meu filho Victor Mendonça me disse: “Todos apontam o peso que posso ser na sua vida, mas ninguém percebe o peso que você também pode ser na minha vida. Vá atrás de seu diagnóstico”.

Será que também sou autista?

Desde o diagnóstico de meu filho, aos 11 anos, conheci um mundo até então desconhecido por mim: o autismo. A partir daí, quanto mais eu estudava e selecionava profissionais para me auxiliarem nessa descoberta, mais eu também me identificava com a síndrome. Levei essa desconfiança ao psicólogo que me acompanhava e ele a descartou. Para esse profissional, tratava-se de um espelhamento da situação recém-descoberta do filho, pela mãe.

Aceitei o argumento e arregacei as mangas para correr contra o tempo perdido pela falta do diagnóstico precoce em meu filho. O caminho seria longo e eu não podia me dispersar, pensando na minha própria situação.

O caminho antes do meu diagnóstico

Educar um adolescente autista para mim era mais um dos desafios que a vida me impunha. Sou de origem muito humilde, mulher, filha de pais separados e fazia um grande esforço para conseguir me adequar e conseguir os mesmos resultados que minha irmã e primos. Eu sempre me senti diferente e inadequada. Mas foquei em entender de gente e como agir para conseguir a aceitação de minha mãe e de meus avós e, posteriormente, de professores, colegas de escola e de trabalho.

Nada havia sido fácil e tudo me exigia muita observação, estudo e foco. A sensação era de que eu já tinha nascido velha. Aos dez anos, o mundo pesava em minhas costas, embora meu maior medo fosse me tornar adulta. Para quê se adulto só sabia sofrer e criticar criança?

Portanto, por dezenas de vezes, me vi entendendo atitudes de meu filho, porque comigo havia sido igual. Ensinava a ele as estratégias que utilizara em diversas situações em minha vida. Mas, em contrapartida, me estressava também. Principalmente quando não conseguia passar para meu filho o que eu queria dizer ou o que estava sentindo. E não o entendia também. Será que a relação entre as pessoas seria para sempre uma série de mal-entendidos?

Às vezes, brilhava ao entender exatamente o que Victor sentia ou queria, mesmo quando não conseguia me explicar, pois havia sido igual comigo. Outras vezes, no entanto, entrava fundo no conflito com ele, chorava, gritava e sofria. Houve momentos em que solicitei que minha irmã o buscasse em casa, sentindo que poderia até machucá-lo diante de minha frustração em lidar com alguns momentos de crise.

O papel do marido

Eu era casada à época, e percebia a frustração do pai de meu filho em lidar comigo. Ele sempre dizia que eu tinha o maior coração que ele já conhecera, mas, em compensação, era muito nervosa e agitada, podendo ir de 8 a 80 numa fração de segundos.

A antiga sensação que sempre me acompanhou, doía fundo em mim: tudo que apontavam em mim, eu sentia igual. Também não conseguia entendê-lo, o considerava egoísta em alguns momentos, incapaz de compreender o meu lado.

E, de novo a sensação: eu, frequentemente, estava certa no conteúdo de minhas discussões, mas errava na forma. Mesmo quando não estava brigando, minha expressão corporal indicava outra coisa. É que quando acredito muito em algo, arregalo os olhos, falo rápido, movimento as mãos freneticamente e não controlo minha respiração (Ainda vou contar como esse meu jeito me levou a ser deixada no trailer da polícia por um motorista de Uber, que jurou que eu estava brigando quando só estava tentando dizer que precisava chegar urgentemente em casa, sem perguntas, sem o som do rádio, porque ir às compras me levou à exaustão).

Eu descobri o diagnóstico de meu filho e ele o meu

Um belo dia, depois de eu ter ficado tocada em uma palestra de uma autista mulher (estava confusa e desorientada com certos reconhecimentos na fala dela), meu filho foi direto e assertivo, arrancando o band-aid de uma vez. Adoro usar expressões linguísticas, metáforas, depois que descobri as possibilidades de nossa linguagem nas aulas de português.

Victor disse: “Todos apontam o peso que posso ser na sua vida, mas ninguém percebe o peso que você também pode ser na minha vida. Vá atrás de seu diagnóstico”. Fiquei estarrecida e pedi mais cuidado dele comigo. Ele sorriu daquele jeito de quem sabe o que faz e observou que já havia me dito de sua desconfiança de várias formas mais brandas, com várias indiretas, mas que eu não havia entendido.

Na verdade, Victor já havia falado sobre isso com o psicólogo dele – especialista em autismo, que dera a ele a indicação de uma psiquiatra. Diante disso, fui… Nada como argumentos lógicos e diretos para convencerem o autista. Algum tempo depois, estava recebendo o diagnóstico de autismo leve, como o de meu filho.

Ter filho autista causa pena em muitas pessoas, mas não devia.

Depois de casada, demorei sete anos para ter filho. É que em minha vida, tudo era sempre muito planejado e eu saberia o momento certo de engravidar. Percebi que não era assim, e o Victor nasceu em 1997.

O desafio de lidar com tantas variáveis apavorou-me num primeiro momento. Educar e acompanhar o desenvolvimento de um filho não era algo tão previsível, como eu percebi no primeiro ano de vida, quando não largava o livro adquirido para a ocasião: O bebê de 0 a 1 ano.

Resolvi observar, estudar mais e traçar as estratégias e os planos B que sempre me acalmaram diante dos fatos inesperados da vida.

Agora sei que Victor significou a grande oportunidade de uma releitura do mundo e da vida por mim. Com ele, passei a entender muita coisa que, até então, sequer havia notado, e outras coisas que, por mais que quisesse, jamais entendi.

Hoje, explico para as pessoas: ter filho autista traz sim, muitos desafios e sofrimento. Mas as vitórias que compartilho com meu filho são tantas, de todas as dimensões e inimagináveis. Valem cada obstáculo no caminho. Além disso, hoje, com 22 anos, eu admiro este cara que está ao meu lado para além de ser meu filho. O admiro em toda a sua potencialidade e força para ser o senhor de sua mente e da construção de sua vida. E sou muito grata a ele que me fez descobrir quem eu realmente era e a perceber a veracidade da frase: “tudo bem ser diferente”.

A trajetória de Selma Sueli Silva, jornalista, radialista, escritora e autista, é narrada no livro “Minha vida de trás pra frente“.