Mulheres jornalistas, mercado de trabalho e discriminação

Selma Sueli Silva e Camila Marques

Mesmo tendo maior escolaridade que os homens, as mulheres ainda são minoria em cargos de chefia. No ranking da desigualdade de gênero, o Brasil ocupa a 92° posição*. De acordo com o IBGE, menos de 40% dos cargos gerenciais são chefiados por mulheres.

Selma Sueli Silva: Vamos falar sobre a nossa experiência como mulher no mercado de trabalho. Camila, na sua experiência, como é que você vê as mulheres no mercado de trabalho da comunicação?

Camila Marques: Eu me formei em 2018, era da mesma sala do Victor, no UNIBH. Mas antes, eu trabalhei por quatro anos como operadora de telemarketing. Eu realmente devo muito ao Call Center. Como o expediente era de meio período e eu estudava, era o ideal para mim. Eu trabalhava aos sábados e feriados, mas nunca trabalhei aos domingos; Considero isso um privilégio. Eu saía da empresa, ia para o curso ou para a escola, sempre estava em pelo menos dois lugares por dia. A maior parte da minha vida acadêmica, eu morei fora de Belo Horizonte, e isso pesou muito por causa do deslocamento.

Em 2016 eu saí do Call Center, porque já estava na faculdade e precisava fazer estágio. Fui trabalhar no Conselho Estadual de Saúde. Fiquei lá por dois anos e tive contato com a questão das políticas públicas, das minorias. É dentro desse espaço que se formam as políticas públicas como leis, políticas de mulheres, LGBTs. As pessoas não têm noção de como funcionam as políticas públicas, acham que são criadas a partir de projeto de lei ou emenda. Os movimentos sociais possuem participação importante nas discussões, até porque são pesquisadores vtão a campo para ver como funcionam as realidades dos locais. Aqui em Minas, cada região tem uma realidade, assim como cada população tem um estilo de vida. Eu fazia toda a assessoria de imprensa, acompanhava em eventos, cheguei a ir a Brasília a trabalho. Foi muito legal.

Depois disso, eu fui trabalhar na Assembleia Legislativa. Eu trabalhei com um deputado que tinha a atuação ligada aos direitos das pessoas com deficiência. Como era época de eleição, o volume de trabalho era bem maior. Durante o período em que estava lá, havia muitos grupos de mães de alunos das escolas especiais e regulares daqui de  Belo Horizonte. A questão do ensino e da presença de alunos com deficiência nas escolas públicas aqui na capital, era um assunto recorrente nas audiências.

Depois disso, eu fui para Webrádio Mineiríssima e então comecei a colaborar aqui no Mundo Autista, em nossos eventos. Porém, como gosto de escrever, eu sempre mantive meus blogs.

Selma Sueli Silva: E você observou alguma restrição enquanto mulher ou alguma diferença?  Para você, há diferença entre mulheres e homens?

Camila Marques: Há sim. Em todos os espaços. No Conselho de Saúde menos, porque é um espaço voltado para as minorias e movimentos sociais, mas são chefiados por homens. Minhas experiências foram tranquilas, mas todas as decisões eram tomadas por homens.

Selma Sueli Silva: Eu trabalhei primeiro como técnica em edificações. Era técnica orçamentista e trabalhei em uma construtora. No final da década de 1980, início da década de 1990, você imagina se tinha muita mulher como técnica em edificações ou engenheiras no mercado de trabalho. Muito pouco. Era interessante porque eu tinha a mesma expertise dos homens, mas eu não era olhada como tal. Era como se olhassem para mim e dissessem: “mas essa carinha tão novinha, tão bonitinha, ela não deve estar entendendo nada”, eu não tinha credibilidade, simplesmente por ser mulher. Era preciso que a gente se impusesse  muito. Nessa época, eu estava com 18, 19 anos, e estava começando a informatização da empresa. Uma moça que tinha feito computação foi contratada. Ela dirigia um fusquinha e todos a rotularam como “metida” e “maria homem”, porque ela estava em um espaço que era considerado masculino.

Quando eu fui para a comunicação social aí eu pensei: “Beleza, essa é uma área de cabeças mais abertas. Eu trabalhei como relações públicas em algumas empresas. Mas uma delas eu cortei do meu currículo. Nessa empresa, o preconceito com a mulher era tão grande que o diretor administrativo demitiu a secretária. Ele foi ao setor de Relações Públicas para me chamar para ser a secretaria dele. Eu expliquei que não tinha competência para ser secretária, que era relações públicas. Ele arregalou os olhos e disse: “vai dizer que você não sabe servir cafezinho e atender telefone?” Respondi: “Agora que não posso trabalhar mesmo, porque se você não sabe que ser uma secretária é só isso, então o senhor não entende nada. E não é de uma pessoa que atende telefone e serve um cafezinho que o senhor precisa. Me colocar aí só para isso? Não faz sentido, contrate um estagiário e vá treinando essa pessoa”. Ele disse que eu não tinha humildade e que todo mundo começa de baixo. Ele mesmo havia começado como office boy. Eu me expliquei: “Sim. Quando o senhor começou, o senhor era formado em alguma coisa? O senhor tinha graduação? O senhor estava fazendo pós-graduação? Porque é o meu caso, as coisas são diferentes.”. Não fiquei muito tempo nesse lugar porque tudo o que eu pensava esbarrava nessa mentalidade preconceituosa da empresa. Tem lugar que, às vezes, você não serve por falta de competência mas, às vezes, por excesso de competência também.

Quando fui para a assessoria de comunicação, eu trabalhei por 10 anos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), como assessora de imprensa. Era comum todos os assessores do Brasil se reunirem para traçar planos e metas aplicáveis em todos os estados. Minas Gerais, sendo um estado grande, era muito respeitado, era um dos estados que mais davam trabalho. Como ser profissional mulher esbarrava nisso? Quando havia esses encontros  e  congressos, sempre tinha alguém (homem) que acreditava que podia visitar a gente no quarto do hotel. Era muito estranho porque, para eles, era normal, e não era. Se a mulher não era casada, e se era casada também, eles tentavam. Ás vezes, eu saía com outros profissionais do INSS, que estavam no mesmo cargo de chefia que eu, e eles achavam que tinham a obrigação de aproveitar a viagem. E  era muito chato ficar fugindo disso. É chato e difícil você ter que trabalhar e ficar “escapando” dessas coisas. Nessa época, eu era recém-casada e as pessoas comentavam em relação a meu marido: “Nossa, você está deixando a sua mulher viajar sozinha?”. Eu só queria trabalhar, só isso. Eu detesto aeroporto, tenho dificuldade de ficar fora de casa, então eu fazia um esforço muito grande para dar conta dessas viagens. Eu não sabia que era autista.

Em uma das empresas que eu trabalhei, um homem  bem mais velho que eu, me perseguia. Ele sempre dizia: Você quer também, só não tem coragem. Eu sei que sou maravilhoso”. Eu trabalhei lá por 10 anos, teve um dia que ele disse: “Deixa eu pegar, pelo menos, no seu seio”. Aí, eu falei assim: “Passa a mão e me deixa em paz”. Estávamos no meio da rua. E isso, por causa do meu cérebro autista. Para mim, era algo literal. Ele riu e achou tão ingênuo da minha parte que, a partir daí, ele me deixou em paz.

E teve um outro. Eu estava em uma banca na Praça 7, perto do antigo edifício Sulacap. Ele me chamou e na hora que eu virei, ele me deu um selinho. Eu fiquei por conta e disse: “Nunca mais faça isso”. Ele disse: “Vem dizer que você não gosta de carinho?”. Respondi: “Gosto. Gosto do carinho das pessoas que eu escolho. E você não é uma delas”. É difícil viver a vida desse jeito.

Depois, eu fui para as redações de jornais e das rádios. A gente pensa que as pessoas tem a cabeça mais aberta. Mas, de todos os veículos que eu passei, o rádio é lugar que ainda tem o pensamento mais arraigado no preconceito. Agora está mudando, porque a tecnologia trouxe uma turma bem jovem. Você não pode olhar para um menino de 21 anos hoje e pensar que ele não sabe de nada. A realidade é outra. Assim, a passos lentos, estamos mudando. Eu trabalhei em uma rádio tradicional, onde o microfone ainda é basicamente masculino. E quando a mulher tem a apresentação de um programa, normalmente, ela só consegue, quando fala de questões comportamentais, quando ela fala de coisas mais leves.

Porque, no rádio, eles ainda não associam o saber à mulher. Ainda não confiam no conhecimento da mulher. Além disso, o prazo de validade da profissional mulher é bem menor que o do homem. Eu, por exemplo, já fui recusada para o trabalho por causa da minha idade. O editor queria uma jovem, pois pagaria menos e ele acreditava que só assim se pode ter ideias mais joviais. Camila, você me conhece: a jovialidade não está na idade ou no corpo. Está na pesquisadora e na estudiosa que eu sempre fui e serei. Eu fiquei com pena dessa pessoa que não descobriu isso ainda para o mercado de trabalho.

Eles podem falar o que for, mas na minha opinião, a Fátima Bernardes saiu da bancada do Jornal Nacional porque tem mais de 50 anos. Não tenho dúvida. Ela tem a minha idade e nasceu no meu dia, dia 17 de setembro. Já o William Bonner, que é dois anos mais novo, se tiver um cabelo branco, uma ruga, as pessoas falam:“nossa, mas que homem, ficou mais charmoso. Mas a mulher, não. Ela precisa da pele de pêssego, e as tvs em HD foram um arraso, tanto para as jornalistas, quanto para as atrizes, porque evidenciam a passagem do tempo. A gente ainda vive isso. Eu quero aqui, agradecer as milhares de pessoas que seguem a gente, aos ouvintes que sempre me acompanharam, a todos vocês que dão chances  a profissionais como a gente, de estarem juntinhos com vocês nessa troca gostosa, porque só assim a gente aprende.

Camila Marques: O próprio conhecimento é algo que vai mudando. Você falou algo que chamou muito a minha atenção com relação ao lugar da credibilidade ainda ser do homem. Isso é algo que precisa ser revisto urgentemente. Porque, se pensarmos na realidade do profissional hoje, o recém-formado precisa fazer uma pós-graduação e fazer cursos e mais cursos. Mas, na hora de falar com credibilidade, ainda é o homem que sobressai. Por quê?

Selma Sueli Silva: Então, vocês observem: a mulher tem mais credibilidade no sentido de ser mais disciplinada, mais atenciosa, mais comprometida. Mas, na hora de falar, da expertise, é o homem que ouve “Nossa, como ele entende”. E a mulher quando se impõe, às vezes, até adquire a faceta de antipática. “Nossa, que nojenta, acha que sabe tudo.”

Camila Marques: Justamente.

Selma Sueli Silva: Não estamos generalizando, há honrosas exceções, isso vai mudar,  mas ainda é um desafio.

Camila Marques: Eu acho que a função de As divergentes é trazer programas para pensar, para refletir, para provocar a discussão. Não faz sentido a gente ficar falando sobre a nossa visão e pronto. É preciso refletir o tempo todo.

Selma Sueli Silva: Você que é homem, pode pensar: “Será que elas estão contra mim?”. Não. Na verdade, vocês também são cobrados de forma estereotipada, muitas vezes. É muito mais fácil a mulher chegar aos 30 sem patrimônio, sem estabilidade econômica, pois ela é menos cobrada socialmente por isso. Já o Homem não, ele é logo taxado de fracassado.  E não deveria ser assim, porque são dois adultos de 30 anos que têm que estar em movimento na vida. Então, a gente percebe que homem tem várias questões em que ele ainda é muito cobrado. Se ele em uma reunião e começa a chorar, por exemplo. Se é uma mulher, é algo esperado. Mas homem não, é sinal de extrema fraqueza.

Camila Marques: É preciso pensar na questão da humanização masculina, porque não faz sentido pensar que o homem não chora. O homem chora, tem dúvida, tem dificuldades. O legal é quando a gente agrega, cria rede e faz a conexão. Porque na vida, somos todos interdependentes e, quando nos juntamos um pelo outro, a vida fica melhor.

*O Índice de Desigualdade de Gênero, IDG foi realizado pelas Nações Unidas, em 2017. Fonte: UFMG  (https://ufmg.br/comunicacao/noticias/mulheres-lideres-dialogo-reflexao-critica-e-resistencia)

Camila e Selma, apresentadoras do programa AS Divergentes, no Canal Mundo Autista, YouTube

 

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