No dia do autismo, o que nós, autistas, podemos fazer para a sociedade em quarentena

Selma Sueli Silva

O que para muitos é um desafio, para o autista é a própria vida. Bem vindos ao mundo com desafios de comunicação, hiperfoco, ansiedade extrema, insegurança, solidão e a criação de trilhas neurais para garantir novos e interessantes resultados.

Dia Mundial para Conscientização sobre o Autismo

Até 2019, esta data era celebrada com eventos por todo o mundo: Palestras, conferências, encontros na praça, eventos nas escolas… Havia uma grande manifestação, na maioria das vezes de familiares, profissionais e outras pessoas “típicas” para a discussão do tema. De uns anos para cá, autistas adultos vêm desafiando suas dificuldades de comunicação social e se juntaram a essas pessoas para levar à sociedade informações mais confiáveis sobre o tema.

Em 2020, tudo mudou. Assim como faz o cérebro neurodivergente do autista, é preciso criar outras trilhas neurais, pensar em alternativas para conseguir o mesmo resultado, mas de forma diferente.

Cérebro Neurodivergente e Criatividade

Associações, profissionais da Saúde, da Educação, familiares, todos buscam, neste mês, formas alternativas de se comunicar. Nem sempre é fácil, não é mesmo? Há sempre aquele grupo que pensa que não vai dar certo, outro que acredita que não adianta tentar, porque o resultado já está comprometido, outro que se entrega à tristeza e ao desânimo e crê que só será feliz quando tudo voltar ao normal. Normal? Nunca mais. Teremos que nos reinventar para outro modelo de “normalidade”, num mundo diferente. A despeito de toda e qualquer dificuldade, com o suporte necessário, vamos vencer as barreiras da acessibilidade como já fazemos nós, os autistas.

Nova Era e acessibilidade

Para se repensar o mundo pós coronavírus será muito útil observar os autistas, perceber como eles fazem o que podem com as ferramentas que eles têm, e viver um dia de cada vez.

A pessoa autista está à busca constante de um controle que todos querem, mas ninguém tem. O autista necessita, visceralmente, de previsibilidade e da rotina para garantir seu equilíbrio. Qualquer semelhança com os dias de hoje não é mera coincidência.

No livro: Desenho Universal – Caminhos da Acessibilidade no Brasil estão descritos os desafios para o mundo nessa nova era. “O ambiente sócio-físico é o principal gerador das dificuldades que se impõem à livre circulação de indivíduos ou grupos. Tais empecilhos podem ser físicos, comunicacionais, sociais e/ou atitudinais.”

Hoje, o mundo foi convidado compulsoriamente, a entender isso. Então vamos lá:

Barreira Física ou Arquitetônica: Precisamos estar em locais em que possamos nos manter a, pelo menos, um metro de distância um do outro, em ambientes ventilados e coisas que tais.

Barreira Comunicacional: Temos, todos, ferramentas necessárias à nossa comunicação em tempos de distanciamento social?

Barreira Social: Como será o processo de inclusão social de grupos ou categorias de pessoas, durante a quarentena?

Barreira Atitudinal: O comportamento e as atitudes dos indivíduos, de modo intencional ou não, impedem o funcionamento das medidas de prevenção para que o coronavírus não se alastre por todo o país?

Precisamos eliminar todas essas barreiras para criarmos uma nova sociedade democrática, humanizada e inclusiva. De novo, isso não é mera coincidência.

O que mais podemos aprender com o autismo

Assim como para o exercício da neurodiversidade, precisamos de uma dedicação maior e uma boa dose de paciência para aguardar os resultados dia após dia. Agora o mundo sabe que nunca teremos o controle de tudo, que devemos estar preparados para redefinir rumos e ações.

Bem vindos ao fascinante mundo do autismo

Para o geneticista Diogo Lovato, existe a hipótese de que o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) faça parte da evolução humana. Mas ele não quer dizer que com a evolução todos serão autistas. O geneticista explica: “Quando falo de evolução, quero dizer que há muito se sabe que o autismo é hereditário. As características autistas estão na população de uma forma geral”.

É bom lembrar que quando falamos de autismo e genéticas, referimo-nos a mais de mil genes e que cada gene é uma estrutura enorme, com imensas possibilidades de pessoas dentro do espectro em termos de combinação da genética. Por isso, cada autista é único. Mas Lovato lembra: “É. E também faz com que o autista seja parte da evolução. (…) A complexidade humana tem aumentado e o que traz nosso sucesso como espécie é a diversidade. O autismo, portanto, é importante para a humanidade, pois é parte dessa diversidade. Quando se pensa em eliminar o autismo por alterações genéticas, isso não faz o menor sentido. Faz sentido para condições monogênicas muito graves que são hereditárias, mas simples, e que trazem um comprometimento de saúde muito grave, pessoas que não iriam viver. O autismo é multigênico e não está nessa condição”.