O autismo no cotidiano

Camila Marques

Para muitos pais de autistas e até mesmo adultos com autismo, o diagnóstico pressupõe dependência total. A neurodiversidade comprova que não.

Possivelmente, a maior preocupação para pais e responsáveis quando recebem o diagnóstico do autismo é saber se, no futuro, o indivíduo poderá ter uma rotina autônoma. “Essa criança dependerá sempre de ajuda”, “Não conseguirão mais ter uma vida comum”, “Preparem-se”, são algumas das frases mais ouvidas por pais de autistas. Frases com nenhum afeto ou empatia.

A estigmatização e a estereotipização do autismo faz com que muitos pais adiem a decisão de procurar e assumir o diagnóstico.

De acordo com a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno de neurodesenvolvimento, caracterizado por padrões de comportamentos repetitivos e dificuldade na interação social, o que afeta o desenvolvimento do indivíduo.

A falta de informação reforça o estigma e dissemina o preconceito. Ter limitação não está ligado a impossibilidade de desenvolvimento, mas sim a processos diferentes desse desenvolvimento, o que caracteriza o cérebro neurodivergente. Por isso, a necessidade de “desgessar” o sistema educacional, onde as potencialidades de cada criança devem ser exploradas, contra o capacitismo. Além disso, é necessário refletir também sobre o uso e frequência em espaços públicos, visando que todos os ambientes possam não só ser agradáveis, mas possíveis para a pessoa autista.

A vida como ela é

Em um mundo onde o consumo de informação é intenso, o barulho e a rapidez das coisas e acontecimentos podem ser confusos para a mente e mais exaustivos ainda para a mente autista. A importância e busca por adequação dos espaços no cotidiano melhora a produtividade e a capacidade do autista para lidar com as situações. Tarefas simples, como pegar um ônibus ou organizar atividades do cotidiano. O comportamento é a parte mais observada no ser humano em sociedade. O meio em que a pessoa está é determinante para a adoção de costumes, o que já é constatado pela psiquiatria moderna, que estuda os parâmetros do comportamento.

Recentemente, as empresas de ônibus da cidade de São Paulo adotaram a mudança dos adesivos de prioridade dentro dos transportes coletivos. A medida visa cumprir a Lei Estadual nº 16. 756, de junho de 2018. A medida torna obrigatória a inserção do símbolo do Transtorno do Espectro Autista (TEA) na indicação de grupos preferenciais em estabelecimentos públicos e privados que disponham de atendimento prioritário.

“Quando eu era criança, andar de ônibus era um tormento. Os cheiros, o balanço, as pessoas à minha volta. Sempre que podia, me sentava perto da janela para contar as casas, o que me ajudava a diminuir o tormento da viagem. Um dia, estava quase desmaiando em pé. Uma jovem senhora percebeu meu sofrimento e me ofereceu o lugar. Sentada, eu conseguia me situar melhor. Benditas almas que se reconhecem e não precisam de mais nada. E para os menos sensíveis… os rigores da lei”. (Selma Sueli Silva, Jornalista e autista. Seu diagnóstico foi realizado após os 50 anos).

“Se estou arrumando vasilhas, guardando-as limpas na prateleira, se tem alguma coisa que denota algum outro elemento visual, eu acabo me perdendo e me desvio da tarefa. A minha flexibilidade mental tende a ser mais eficaz se eu adoto uma ordem de organização”. (Victor Mendonça, sobre sua forma de lidar com a realização de afazeres domésticos).

Sabemos e reconhecemos que os diferentes níveis de autismo e quadros de TEA são determinantes para a realização ou não de atividades comuns no cotidiano do autista, como usar um transporte público ou arrumar a casa. O que notamos também é que lidar com o diagnóstico e adequar-se à rotina de forma confortável, permitindo o desenvolvimento da pessoa autista, é crucial para a sua autonomia e, consequentemente, evolução.

Caminhar para uma sociedade mais inclusiva requer como primeiro passo o diálogo.