O autista é o Menino Só

Victor Mendonça e Andrea Taubman 

 

 Andrea Taubman fala sobre O menino só e o que esse menino tem de especial.

Victor Mendonça: Andrea Taubman, nós deixamos todos na expectativa e, hoje, vamos falar sobre um menino. Um menino que tem a ver com a minha história e com a história de vários meninos, que é o personagem do seu livro “O menino só”.

Andrea Taubman: Eu tenho ele tatuado no meu braço. Eu sou devota dessas ilustrações de Ana Elizabeth. Ela foi genial e tem um motivo para ele ter ilustrado o livro.

Victor Mendonça: Conta como surgiu a ideia desse menino só.

Andrea Taubman: A minha literatura na verdade, nasceu muito da experiência de voluntariado que eu tive no abrigo. Eu fui voluntária muitos anos e conheci crianças com várias questões, inclusive crianças autistas, os “meninos sós”. A Ana foi professora e diretora da rede municipal e ela lidou com um menino aspie fofo, que ela ama muito e ela disse que aprendeu tanto com ele. Na verdade, eu sempre falo que O menino só é um convite poético para que as pessoas abram os seus olhos para o universo do TEA (Transtorno do Espectro do Autismo), que é tão importante para o trabalho que você e tua mãe fazem brilhantemente há anos.

Victor Mendonça: Obrigado! A gente tenta levar e compartilhar vivências, trazendo informações reais e concretas desse universo. Eu digo tenta porque, realmente, é um universo pouco conhecido, mas quando você o conhece, você vê o que há de fascinante no ser humano em geral e no ser humano autista pela sua forma neurodivergente de pensar.

Andrea Taubman: Exatamente! A neurodivergência traz uma riqueza vista por muitos como um problema e eu volto a dizer: é uma oportunidade. Não há problema na neurodivergência, há oportunidade de enxergar. Enxergar pelos olhos da pessoa neurodivergente realidades que os neurotípicos não conseguem ver. E é isso que traz o livro O Menino só. Primeiro porque ele diz que “esse menino só” nasce em qualquer lugar, em qualquer família.

Porém, muitas famílias quando recebem o diagnóstico, começam a achar que são só elas, pois agora é que o autismo vem sendo divulgado por muitas pessoas. Há dez anos, pouca gente sabia. Nem mesmo as escolas conheciam sobre o assunto.  Uma vez, eu vi uma cena, ao chegar em uma escola, num dia de aniversário, eu vi um menino não queria ficar para o parabéns de jeito nenhum. Isso, porque era muito barulho para ele. Os adultos estavam irritados e ninguém entendia que aquilo não era um capricho, uma birra.

Victor Mendonça: São os julgamentos das pessoas mais uma vez, antes de tentar conhecer a realidade do outro.

Andrea Taubman: Exatamente. Aí, eu vi uma pessoa, eu acho que era uma professora, contendo ele, abraçando. Eu já estudava a questão do autismo, então eu falei: “ eu sei que você faz isso com o maior amor, com todo o carinho, mas essa é a pior coisa para ele neste momento”. Ele precisa se regular, talvez ele precise se balançar ou fazer alguma estereotipia* para ele ficar bem. De um modo geral, o que é um menino só? É esse convite do meu livro, para que as pessoas conheçam esse menino só. Quando a gente fala assim, no livro: “ele inventa tanta história, com gente na memória. Repete falar de duendes, gnomos e fadas”, porque tem ecolalia**, que a gente sabe. E tem as histórias, que o menino só gosta e ele vai sempre contar a mesma história por muito tempo, até mudar para uma outra.

Victor Mendonça: Engraçado você tocar esse trecho porque, quando eu estava me preparando para essa entrevista, eu dei uma relida no livro e esse é um trecho que eu amo, em particular, ele me chama a atenção. Aliás, eu amo esse livro. Às vezes, até adulto, as pessoas me falam: “Mas nossa, Victor, de novo?” O autista, quando gosta de uma coisa, não tem jeito, quer contar e recontar. Eu ligo para meu pai e fico: “Papai, eu vou ficar conversando com você, por horas”. Ainda bem que ele tem essa paciência.   Assim, é como uma troca, a gente que é autista descobre no neurotípico um universo fascinante e isso é muito bacana.

Andrea Taubman: É isso. Eu acho que tudo nesse mundo é troca. Mas quando a gente não consegue compreender e quando a gente não tem informação, a gente não vai até onde o outro está é aí brotam os preconceitos, os julgamentos, que na verdade, não servem em nada, para fazer deste mundo, um lugar melhor. Precisamos ir aonde o outro está, precisamos exercitar a cultura da empatia.

Então, o livro traz trechos com essa reflexão. “Como é difícil amarrar  cadarço de um sapato.” Ou, como esse trecho: “Como é ruim acariciar gente, cachorro ou gato! Como sofre quando é obrigado a estabelecer contato com tanta incompreensão. Não gosta de camisa de botão, encaixá-lo na casinha é a maior complicação. Se assunto não lhe interessa, não presta a menor atenção.” Por que eu fiz tanta questão de colocar essas características, tão comuns com meninos sós? Porque muitas vezes, eu vi absurdos como alguém tentando obrigar uma menina de seis anos, a dar laço, amarrar o cadarço, como se fosse a coisa mais importante na vida de um ser humano. Uma criança aspie, por exemplo, não tem a mesma coordenação de uma criança neurotípica.

Victor Mendonça: Eu não tinha e não tenho. Eu me lembro bem dessa  fase da minha vida, com muitos detalhes sofridos.

Andrea Taubman: Então, o que custa comprar um tênis de velcro?

Victor Mendonça: Minha mãe fez assim e eu nunca quis aprender a amarrar o cadarço, porque havia coisas mais interessantes a fazer. Você tocou em um ponto relevante que é o aprendizado que as pessoas podem ter, do universo autista, ao lê-lo. Essas diferenças existem e trazem um sentimento real, com um incômodo real. Desconhecer isso, não vai fazer com que essas diferenças desapareçam. São questões que podem ser comuns em outras pessoas, mas são muito intensas para os autistas, pois dizem respeito a questões sensoriais. Como você citou: pode parecer bobagem, mas não é, tem de ser validado. Eu acho incrível como uma neurotípica se colocou no lugar do outro com tamanha clareza. Isso de ser um poder dos escritores. Muito obrigado, Andrea. Voltamos com a Andrea, daqui a 15 dias, para falar de um personagem que eu adoro e que traz um recado muito importante para as crianças e os adultos, que é a Ritoca.

Andrea Taubman: Victor vou me despedir com uma frase que eu adoro. “Há mais vida e mais amor; certezas e destemor no seu modo de perceber o que que se passa ao seu redor dos que não o conhecem poderiam supor. Fraudes, trapaças, ironias  não têm lugar no seu dia a dia. O menino só é um sol que toda luz irradia.” Que nem você, Victor.

Victor Mendonça: Ah, muito obrigado! Gratidão! Até a próxima, pessoal!

 

*Estereotipia é, na verdade, um comportamento que faz parte da vida no espectro autista, chamado também de Stimming ou stim, em inglês, pelos autistas adultos. “São movimentos corporais repetitivos que autoestimulam um ou mais sentidos, de maneira regulada.” Para a comunidade autista, a palavra reflete o termo “movimentos autoestimulatórios”. E não “estereotipia” ou “movimento estereotipado”, como stimming é conhecido na psiquiatria.

 

*Ecolalia é uma característica comum em crianças autistas que consiste no hábito ou mania de fazer rimar palavras, falando ou escrevendo, podendo também ser uma forma de afasia em que o paciente repete mecanicamente palavras ou frases que ouve.