O autista precisa de atenção especial?

Roberto Mendonça, Jornalista e Editor

O mundo, mais que nunca, merece atenção especial. Nós e os bichos, submersos no desequilíbrio assinado pelo homem em sua permanente campanha contra o ambiente. Somos, todos, vítimas da ignorância que se veste com a vaidade exacerbada, a competitividade e o preconceito, desafiando a evolução.

Portanto, atenção ainda mais especial deve ser dirigida àqueles que sofrem com limitações específicas. Os autistas, por consequência de sua explícita dificuldade de comunicação e convívio social (característica marcante para o diagnóstico correto), ocupam os primeiros lugares no séquito das vítimas. Nos casos mais graves, quando não conseguem nem sequer falar, merecem certa complacência. Aqueles cujas limitações são veladas, menos perceptíveis, têm que tolerar também a desconfiança.

Autistas que se enquadram no grau dos severos, apresentando evidentes distúrbios motores e incapacidade de falar, costumam compreender perfeitamente o mundo ao redor, e mesmo assim são vistos como loucos ou débeis. E àqueles moderados, aspergers, é mais fácil impor rótulos de deseducados, estereotipados, inconvenientes. Em todos os casos, o despreparo no trato com a Síndrome é tanto determinante quanto cruel, além de fulminar possibilidades de sucesso profissional.

Quanto mais culto e próspero é um país, melhores oportunidades há de propiciar a seus aspies. A inteligência peculiar e às vezes superior do autista é menos depreciada nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. Muitos são preparados para trabalhar na NASA, no Google, com a parafernália digital em Hollywood, nos sítios da Física e da Matemática. No Brasil, é necessário que mantenham redutos nas redes sociais, como peças de resistência em militância, frequentemente para afirmar, simplesmente, que estão vivos.

Meu filho, diagnosticado com a Síndrome de Asperger aos onze anos, tem inteligência privilegiada e mobiliza habilidades à realização de projetos específicos. Vocacionado para as letras por inspiração dos pais, ele escreve com perfeição técnica. Simplesmente, não comete erros. É impressionante. E explicável pela capacidade incomum de aprender. Seus textos em livros, na internet ou trabalhos escolares merecem análises e são trunfos no mercado dedicado à literatura e à didática, mas é mais provável que ao identificar-se devidamente documentado, como autista, enfrente o descrédito de recepcionistas nas salas de cinema, no teatro, nas filas da praça de alimentação dos shoppings. Por falta de treinamento adequado, é comum ater-se à imagem superficial, ao pateticamente usual, à desconfiança de fraude ou oportunismo quando se apresenta um laudo médico. Bastaria uma rápida análise dos gestos e expressões para verificar dificuldades evidentes à comunicação.

Diante da pequenez dos gestores antes preocupados com lucros e gastos que com o investimento em pessoal, prossegue a exaustiva luta pelo reconhecimento, nas redes sociais, em casa e nos consultórios. Os autistas se esforçam para adaptar-se ao mundo que não é deles, rechaçando a possibilidade do crescente e mortal isolamento, o que significa aprender a atuar, como atores no palco, onde cabe a representação do mero interesse, da mentira e da esperteza.

Infelizmente, em nome da sobrevivência, mais fácil que banir a ignorância é oferecer ao mundo outra pessoa. Alguém de plástico, virtual, reconhecido pelo CPF, politicamente correto, a despeito de progressos científicos e sentimentos nobres.