O despreparo de profissionais para o diagnóstico do autismo em adultos assusta e destrói

Selma Sueli Silva

Psiquiatra do SUS diz a paciente de 48 anos que nessa idade, casada, mãe de cinco filhos, ter laudo de autismo não faz diferença.

A tortura da busca pelo diagnóstico

Patrícia vive, há 48 anos, tentando entender por que se sente tão diferente. Ela é mãe de cinco filhos, três casadas e dois solteiros. E, agora que a família está encaminhada, Patrícia, finalmente, partiu em busca de respostas. O que deveria ser libertador é descrito pela jovem senhora como um show de horrores.

O psiquiatra do SUS – Sistema único de Saúde (Patrícia está desempregada) – disse que com essa idade é bobagem receber diagnóstico. E perguntou: “Você acha que é um ato heroico de sua parte querer saber o que tem?” “O que isso muda em sua vida?” “Vá viver a vida, não ligue para essa mania que psicanalista tem de dizer ao paciente para entender tudo sobre sua infância. Para quê?”.

Patrícia se sentiu humilhada e alvo de um julgamento. Ainda assim, o “doutor” receitou medicação para conter as estereotipias/stins – movimentos repetitivos característicos da autoregulação do autista, que, à noite, atrapalham o sono da mulher.

Patrícia desabafa, angustiada: “Queria dizer ao médico para ele ser mais ético, que é feio falar mal dos colegas de profissão. Queria também pedir para que ele respeitasse a pessoa e sua história. E que saber quem sou é um direito meu. E se ele não entende de autismo, que fosse franco e dissesse. O que não vale é humilhar e desrespeitar o ser humano”. Mas ela não conseguiu, e pondera: “Assistindo aos vídeos do Mundo autista eu percebi que não sou um ET, sou gente e quero ser respeitada como tal”.

Infância, adolescência e fase adulta.

A infância de Patrícia foi marcada por grandes dificuldades: “Eu não gostava de fazer Educação Física, passava o tempo todo sozinha. Não gostava de pentear o cabelo, pois doía muito.” Patrícia lembra que na escola ela queria manter seus rituais e se assustava muito com qualquer mudança. Além disso, ela explica: “Eu tinha muito problema com o cheiro, me causava ânsia. Não aceitava o pratinho de plástico e a professora arranjou pratinho e copo de vidro para mim. Mas eu era vista como mimada, birrenta, e séria demais para minha idade”.

Dos seis aos 20 anos, Patrícia teve convulsões, sofreu com autoagressão e crises de ausência. Ela se sentia diferente, mas não entendia o porquê e acabava se agredindo, o que só parou de fazer na fase adulta, com o auxílio de medicação.

“Na adolescência”, Patrícia conta, “eu virei estranha, a esquisita louca desequilibrada, e sofri demais. Fui atropelada três vezes, porque não tinha noção do perigo, o que me levou a ter trauma de andar pelas ruas.” Nessa fase, Patrícia lembra que queria muito se enturmar e, como não conseguia, passou a beber muito, hábito que abandonou mais tarde.

Agora, já adulta, a jovem senhora ainda gosta de ficar sozinha, tem duas amigas apenas e não gosta de sair de casa, de receber visita e nem de festas. Ela não consegue sair da rotina, tirar férias e, se tenta, entra em crise. O relacionamento se restringe ao marido e aos filhos. Ainda assim, não consegue viajar com eles.

Ela conta que, como adulta, aprendeu a ficar quieta, calada, a ser menos explosiva, mas, às vezes, isso a leva a crises de ansiedade mais intensas e frequentes.

Patrícia conheceu o autismo quando a irmã teve um filho autista e pediu a ela que assistisse aos vídeos do Mundo Autista. Ela conta: “Foi quando conheci você, Selma, e o seu filho Victor”. Patrícia percebeu várias características em comum e comprou o livro ‘Minha vida de trás pra frente’. Ao ler, “eu chorava muito e pensava em como a Selma era igualzinha a mim… Foi dessa maneira que eu percebi, pela primeira vez, o meu autismo”.

Vida em família

Patrícia tem três filhas casadas, de 26, 24 e 20 anos, todas moram em outra cidade. Os dois filhos menores, de 14 e seis anos moram com ela e o marido, que trabalha “por conta própria”. Por causa da falta de dinheiro, ela parou com a terapia que fazia on line.

O maior sofrimento para ela é não conseguir fazer coisas consideradas banais junto com a família. “Eu sei que eles ficam tristes. Eles querem se relacionar com as pessoas, trazer amigos em casa, passear nas férias, e eu não consigo.” Além disso, Patrícia conta que os stins (estereotipias) constrangem seus filhos, que não entendem o porquê de ela ter tantos movimentos repetitivos.

Por isso, afirma Patrícia, não vai desistir do diagnóstico. “Nunca. Vou continuar tentando, para conseguir me explicar para quem me cerca. Vou poder explicar meu funcionamento para todos. As cobranças (dos outros e até minhas) vão diminuir”. E finaliza: “Eu espero, assim, ser entendida melhor e, consequentemente, mais feliz. Hoje eu sei que não estou sozinha, que existem muitas pessoas como eu”.