O papel do pedagogo na educação do século 21

Victor Mendonça, Selma Sueli Silva e Ângela Mathylde 

Selma: Neurodivergentes, dificuldades de aprendizagem… Isso tudo junto e misturado, tem solução. Ah, se tem!

Victor: Isso mesmo.

Selma: Hoje, estamos com a doutora Ângela Mathylde e vamos falar sobre um profissional de que o Victor fala muito. O pedagogo. A doutora Ângela fala muito que os pedagogos são os cientistas da educação e que eles não acordaram para isso, que eles são os pesquisadores da educação e como em outras áreas os pesquisadores têm que pesquisar para sempre, o pedagogo também.

Dra. Ângela: Isso mesmo! Realmente, o pedagogo é o cientista da educação. E ele tem que se valorizar, pois ele está ali dentro da escola, não só dentro, mas no chão da escola e no dia-a-dia. Então, ele é capaz de trazer projetos fabulosos para dentro da escola.

Selma: Estivemos na EMEI São Gabriel, Escola São Sebastião, que também se localiza no São Gabriel, e outras escolas municipais e estaduais estão fazendo contato com a gente, e tanto eu como Victor aprendemos muito nas suas palestras naquele sentido de que não podemos pegar leve. Gente, o pedagogo lida com vidas, o médico lida com vidas, e quem admite e tolera um erro médico?

Victor: Quando é com alguém da nossa família ainda por cima.

Selma: Ninguém. Porque lida com vidas, mas se esquecem de que o pedagogo lida também com vidas.

Victor: Com a construção dessas vidas.

Selma: E aí Victor, você se lembra de quando a doutora Ângela usou um termo, e isso ficou na minha cabeça martelando, de como um pedagogo ou um educador pode ser a solução ou destruição de uma família. E ela falava muito em suas palestras sobre transtornos novos que estão surgindo pelos maus profissionais muitas vezes, e até nos profissionais surgem esses transtornos, e que nós temos que acordar não para culpar ou responsabilizar, não interessa. Tem como resolver isso. Então, qual sua visão da escola de hoje? Está boa? O que temos que fazer? Tem chance?

Dra. Ângela: Sempre tem, e nós não falamos de cura, mas sim de trazer solução. Então tem solução, tem. O que nos temos que fazer é adequar, empoderar esse profissional do devido valor. Pois quando o profissional é empoderado, ele com certeza tem gás, firmeza, ele vai buscar recursos, traz soluções. Mas quando ele não é empoderado, é aquele profissional que cumpre a agenda, mas não trás solução. E esse não é o pedagogo, porque o pedagogo tem um espaço tremendo e tão importante, que ele não pode parar. Porque tem aquela criança que fala “E ai, o que eu tenho que fazer?” e a outra “Estou com dificuldade, como eu vou fazer?”. Ele é o profissional de tamanha importância. Ele tem que ter uma visão acima do normal, porque tem professor que vai discutir com ele: “Como vou dar uma aula que vai ser adequada para esse aluno e que beneficie a todos e não só a um?” Porque a dificuldade que eu vejo nesse tempo da educação do século XXI, é potencializar transtornos e isso não é educação do século XXI.

Selma: Isso é sério.

Dra. Ângela: Isso é sério, trazendo patologias à educação. Tem patologia? Tem, nós sabemos disso e não é de agora não. Sempre houve.

Victor: Verdade.

Dra. Ângela: A questão é o que fazer. Nós evoluímos, o que iremos trazer para a educação que vai beneficiar? Porque senão, desde 1400 que os transtornos exigem. Então, o que fazer com isso? É trazer as novas tecnologias, as novas habilidades, reconhecer as competências, e trazer para essa educação do século XXI que a dinâmica é o diferencial.

Victor: A Dr. Ângela falou uma coisa que me marcou profundamente: que a pessoa não é aquela patologia. Às vezes chega o aluno… “Ah é o TDAH, ou é o disléxico ou o autista”. Não, é uma pessoa como todo ser, ela não vem só com o cérebro, ela vem todo com um contexto, toda uma história.

Dra. Ângela: É tremenda essa lembrança. Nós não somos patologias, porque senão seria Dr. Um tanto de outras patologias e comorbidades juntas. Não! A questão é: Eu tenho um nome, uma identidade, tenho valor e é isso que a pedagogia tem que fazer. É a humanização. Quando se dá a humanização, eu tenho o reconhecimento do outro do que eu tenho.

Selma: Exato.

Dra. Ângela: Isso é que é o diferencial. É eu saber: Eu sou disléxica, mas o outro vai querer entender o que é dislexia, o que eu sofro com a dislexia, o que o outro faz comigo. Eu sou autista; então, como é o autismo? Primeira coisa: É o reconhecimento. Então quando vê no outro o potencial que ele tem, ele passa a ser além de. É Ângela, Victor, Selma, Maria, João. Junto com isso tem outras coisas. Mas essas coisas não apagam as questões emocionais, carisma, sentimento, relação. Porque existem transtornos que são causados pela má estruturação familiar e má estruturação da escola. Por que não é informado e dito: “Vocês vão receber um coleguinha diferente. Diferente de quê?”.

Selma: Todo mundo não é diferente?

Dra. Ângela: Então como nós temos que trabalhar isso? É um coleguinha diferente, que tem dentro dele algumas habilidades e competências que não tem no outro. Então, um é inteligente, o outro tem um pouco menos, mas esse pouco menos não limite de ser o aluno, a pessoa, de ser feliz… Não!

Selma: Basta outro olhar.

Dra. Ângela: Hoje, o mundo Down tem surpreendido muita gente. Porque o Down tinha que ser aquele com baixa cognição, que não dava conta, o antigo retardo e hoje nós temos Down na pedagogia, na saúde, na arte, casado, com família. E aí, o que você me diz, é amiguinho diferente?

Victor: E deixou de ser Down por causa disso?

Dra. Ângela: Isso é que é o outro olhar.

Selma: Se eu tivesse me atido somente ao rótulo, o Victor seria dependente o resto da vida. Aliás, ele está independente até demais, viu? Vou reclamar aqui.

Victor: Outro dia cheguei em casa às 4:30 da manhã.

Selma: 4:30 DA MANHÃ, o meu menino! Mentira, eu fiquei super orgulhosa.

Victor: Dormiu que foi uma beleza.

Selma: Gente, eu pensei assim, quando o Victor passar a madrugada fora eu vou ficar muito preocupada. Aí fiquei assistindo seriado, que eu adoro, e não tinha ele para me encher o saco até 1:30 da manhã. Pensei: “O Victor tá na night, vou dormir”. Aquela mãe que deveria ficar preocupada o tempo todo, foi dormir.

Radija: Quem levou o Victor para o mau caminho?

Selma: Radija Ohana! Levou o Victor para o bom caminho. Esse menino voltou feliz.

Victor: Voltei mesmo! Foi maravilhoso.

Selma: Teve medo, Victor?

Victor: Não.

Selma: Foi bom?

Victor: Foi delicioso.

Selma: E o que foi importante para você conseguir dar conta de sair e estar num ambiente que não tinha cadeira para sentar, era só dançar!

Victor: É meio velho esse negócio de dançar assim.

Selma: Tá vendo? Ele pega no meu pé. Mas o que te deu segurança nisso tudo?

Victor: Foi estar com pessoas em que confiava; ter esse suporte no sentido de ter confiança e uma relação de amizade e afeto.

Selma: Então é isso, doutora Ângela, dar para a pessoa aquilo que ela precisa para se sentir segura. O resto é com ela.

Dra. Ângela: E é muito interessante que ele saiu e ninguém precisou saber que é autista. Não! Ele tem conhecimento das competências e habilidades. “Olha preciso de segurança, estou com a minha prima, ela me dá segurança, um ambiente seguro, eu vou me divertir. Minha mãe está lá tranquila.” Então ele viveu experiências tremendas, fabulosas, e não precisou ter o rótulo “Eu sou autista, eu sou gente”.

Selma: É ser humano na vida diária.

Dra. Ângela: E tomara que tenha muitas outras experiências.

Selma: Isso ai gente. A doutora Ângela falou do “Outro olhar”, primeiro livro do Victor, tenho muito orgulho dele porque exatamente quando o Victor mostrou pra mim e para outras pessoas, como era esse outro olhar debruçado por você também, né filho, sobre as questões cotidianas.

Victor: São crônicas sobre como eu vejo o mundo, como eu percebo o mundo.

Dra. Ângela: É uma coisa muito interessante que o “Outro Olhar” do Victor começa com duas cabeças, ou seja, tem uma que vocês pensam que é assim, mas tem outra, que é um outro universo. E aqui atrás ele coloca um par de braços falando “Eu dou conta”.