O que é capacitismo?

Selma Sueli Silva e Camila Marques

Selma Sueli Silva e Camila Marques falam sobre o capacitismo promovido pelas pessoas, muitas vezes, por desinformação

Selma Sueli Silva: Hoje a gente vai falar de capacitismo, porque é algo recorrente e que quanto mais a gente estudar isso e entender, melhor será a busca e a construção de uma sociedade melhor. O termo capacitismo é recente, de 2016, e vem da palavra inglesa ableism, que quer dizer capacidade. E se refere ao desejo de colocar enquadrado, algo que foge da “aparente normalidade”.

Existe hoje um desejo de corpo normalidade com relação às mulheres com deficiência. E esse corpo normalidade, esses padrões que são impostos pela sociedade, eles são reforçados na política, pelos meios de comunicação e são reforçados também pela sociedade. Eu devo confessar para vocês que eu, muitas vezes, me vi sendo uma pessoa capacitista. Por quê? Enquanto o racismo pode ser de uma forma explícita, por exemplo, nós vimos vários episódios que tem um branco e um negro discutindo e de repente, um branco diz: “volta para a senzala”, “ah preto sujo, preto imundo”, alguma coisa nesse sentido, é uma forma mais explícita de preconceito. Já o capacitismo é algo mais delicado de a gente perceber e por isso, é urgente combater, pois o capacitismo vem camuflado de uma compaixão, de uma generosidade.

Ele é mascarado por uma suposta compaixão, uma caridade, uma boa intenção, tipo assim, você encontra com uma pessoa na cadeira de rodas e você fala: “nossa você é tão bonita, que pena, qual é o seu problema?” Como uma pessoa pode inferir que estar em uma cadeira de rodas seria o problema, o fardo daquele ser humano? Por quê? Para aquele ser humano que está em uma cadeira de rodas, aquilo é a realidade dele, a experiência humana que ele vive. O problema dele, então, é encontrar com gente que tem essa pretensa compaixão. Pode ser que aconteça também com o racismo, quer ver? Você pode falar assim: “Você é tão bonita. Eu tenho certeza que com essa beleza, você conseguirá galgar degraus bacanas, na sociedade”. Na frase, você parte do princípio de que, a pessoa preta não está em pé de igualdade com a pessoa branca, então, ela tem que ter atributos maiores.

Nós temos que pensar que a diversidade faz parte da experiência humana. Então, tem gente que tem essa experiência humana com o corpo diferente do meu, tem gente que vive a diferença com o cérebro diferente. O meu cérebro, por exemplo, é neurodivergente porque eu sou autista, e ele funciona de uma maneira diferente dos outros cérebros. O que me dá, por causa da sociedade, me dá algumas limitações. Mas se a sociedade me oferece instrumentos e suportes, eu consigo extrair o meu máximo de potencial, sem nenhuma limitação.

Quando você tem uma cidade e uma sociedade com acessibilidade, eu te garanto que estar em uma cadeira de rodas, sem enxergar, sem ouvir, não é problema, não é deficiência. A deficiência acontece quando a sociedade não está preparada para permitir que a pessoa viva aquela experiência humana daquela forma. Falei demais, Camila.  O que que você acha disso tudo?

Camila Marques: Concordo. Penso que é aquilo que doutor Luís Renato costuma falar: “não é a pessoa deficiente que tem que se adaptar à sociedade, é a sociedade que precisa se adaptar à pessoa deficiente.”. É a sociedade que precisa se adaptar para receber essa pessoa. A gente usa o transporte público e aí tem aquele equipamento para o motorista usa para o acesso do cadeirante. Cabe à empresa de ônibus preparar o funcionário para usar aquele equipamento, para não haver nenhum constrangimento quando o cadeirante chegar. Os espaços devem possuir acessibilidade. Nós até falamos da faculdade onde eu estudei que tinha o piso próprio para pessoas cegas. Então, é sociedade que tem que estar, o tempo todo, em movimento. E, cabe a todos se educarem para conviver com a pessoa deficiente. O preconceito é um fato diário, por isso, todos os dias temos que nos educar um pouco.   Eu nunca vou saber o que um cego passa, um cadeirante passa, um autista passa, no caso do autista, em que a deficiência não é algo normalmente visível. Mas eu acredito que se nos educarmos, é um passo dado.

Selma Sueli Silva:  Se abrirmos o nosso leque de entendimento fica mais fácil. Por exemplo, uma pessoa fala assim: “Ah, Selma, eu fico querendo ajudar, não sei o que fazer”. Gente, o princípio é o mesmo para qualquer ser humano: se você não conhece uma pessoa no ônibus que está ao seu lado, você começa conversando e perguntando. Com a pessoa deficiente, acontece, ou deve acontecer, da mesma maneira que seria com outra pessoa. Quando tiver dúvida, você pergunta para ela. É simples assim, porque é assim que a gente aprende: é perguntando. É olhando para o outro em sua humanidade. Se eu vir o outro como o ser humano como eu, a conexão necessária ao crescimento e à riqueza já está feita.