O que os dias do Orgulho Autista e LGBTQI+ têm em comum?

Victor Mendonça

O Dia do Orgulho Autista, 18 de junho, ontem, dez dias antes do Dia do Orgulho LGBTQI+ tem alguma similaridade, além da palavra orgulho. Por que o ativismo autista e o ativismo LGBTQI+ estão ligados e são tão importantes para a evolução social? Primeiro, falando do autismo, há uma confusão, inclusive conceitual, com relação a essa data: “Também tenho orgulho, mas não do autismo”, ou “tenho orgulho de mim”, “tenho orgulho do meu filho, da evolução dele”, “da transformação dele, da garra, da persistência dele”. E tem que ter mesmo. Mas, dizer que não tem orgulho do autismo, é outra coisa. Esse orgulho autista é um orgulho político. É um orgulho de se aceitar como se é. E não, de maneira alguma, orgulho no sentido de imprimir glamour à condição de autista.

Falar que o autista é melhor que o neurotípico, que o autista não tem dificuldade, ou desmerecer as dificuldades do autista leve, severo ou moderado… Não! Esse dia do orgulho autista foi criado, inclusive, como forma de prevenir o suicídio entre os autistas. Porque estudos apontam que os autistas vivem 16 anos a menos do que as pessoas em geral. E uma das principais causas para isso, além da epilepsia, é a questão do suicídio. Eu vejo que, às vezes, mesmo sem querer, porque a sociedade nos impõe alguns rótulos, a gente acaba criando uma ideia de que o autismo é uma coisa muito negativa. Algo que precisa ser escondido, que não se pode nem falar o nome.

E, na verdade, essa ideia do orgulho autista é entender que “tudo bem ser diferente”, que é uma frase da minha orientadora do mestrado, Sônia Pessoa. Ela tem um blog com esse título. Tudo bem ser diferente, não há problema em você fugir da norma social, desde que você busque qualidade de vida. E, na minha forma de pensar, esse conceito, que é ligado à neurodiversidade, não é oposto à busca pela qualidade de vida, pelas intervenções que melhoram a qualidade de vida do autista. É apenas uma forma de o autista perceber que tem seu valor, a sua dignidade, e que isso deve ser respeitado.

E o que isso tem a ver com o orgulho LGBTQI+? A questão do orgulho LGBT é que, assim como os autistas, são grupos marginalizados. São grupos que, embora sejam representativos em questão de quantidade, não encontram essa representatividade na mídia, nos locais de trabalho, muitas vezes em função do preconceito, que começa com piadinhas homofóbicas ou o autismo usado como adjetivo, o que hoje, ainda bem, está cada vez mais em desuso. E a situação piora quando parte para uma coisa mais agressiva, que é a violência contra LGBTs, ou mesmo a violência contra autistas, com a aplicação de determinadas técnicas de tratamento agressivas e violentas, por quem procura a cura.

Então, o que a gente deve entender é que tanto o orgulho LGBT quanto o orgulho autista reafirmam que toda a vida vale e que a representatividade é muito importante para a gente enxergar o valor da vida humana. No meu caso, eu demorei muito para falar abertamente sobre a minha sexualidade e isso foi um processo demorado e doído. A primeira vez que eu falei foi em uma entrevista em 2019. Era muito difícil para mim. Eu percebi que, como pessoa pública, que se fez aos poucos, foi complicado o processo até chegar na aceitação. Por isso, é importante trazer essa representatividade dos autistas e dos LGBTs e por que não dos autistas LGBTs que são muitos, mais que a gente imagina. Inclusive, existem estudos em que se registram a transexualidade em autistas como oito vezes mais comuns que em pessoas típicas*.

Trazer essa representatividade para a mídia é algo muito importante. Então, você que é autista, que é LGBT, que tem parente autista, parente LGBT, que convive ou ama alguém que é autista ou LGBT, estamos juntos.  Afinal, agindo juntos, a gente fica mais forte.

*Tony Attwood (1952), psicólogo britânico, tem um trabalho de destaque em pesquisa voltada para a Síndrome de Asperger. No início deste mês, em entrevista a uma rádio australiana, o pesquisador iniciou uma campanha pedindo pesquisas a respeito da presença desproporcional de indivíduos presentes em clínicas de disforia de gênero e o que o pesquisador classifica como autismo. Embora haja essa hipótese, outros pesquisadores atestam a necessidade de dados aprofundados a esse respeito. O site especializado em autismo Reframing Autism publicou uma nota, onde reforça a cobrança de pesquisas científicas das propostas apresentadas por Attwood, uma vez que o pesquisador levantou as hipóteses, mas não as comprovou.

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