Os desafios de ser mulher com características diferentes

Selma Sueli Silva e Camila Marques

Selma Sueli Silva e Camila Marques falam sobre a relação com os cabelos e a nossa essência

Selma Sueli Silva: Eu vou te contar uma coisa que talvez, você vai achar muito estranho, mas eu vou te contar assim mesmo. A minha vida toda eu briguei com o meu cabelo. Hoje, o meu cabelo nem está do jeito que eu estou gostando não. Hoje, eu não estou nos meus melhores dias. Mas, o meu cabelo é fino ondulado. Mas, quando eu penteio, eu escovo, ele fica assim. Se eu penteio assim, ele fica anelado. Normalmente, na raiz ele é liso e nas pontas, ele é anelado. Ele fica mais ondulado. Ok. Eu passei a minha infância e adolescência inteira brigando com o meu cabelo. Por quê? Porque o padrão era o cabelo liso. E outra coisa: quando o meu cabelo estava anelado,  eu me sentia mal arrumada. Na década de 1980 para 1990, passou a fazer sucesso, até aqueles cabelos cheios, aquelas coisas bonitas. Aí, eu comecei a fazer as pazes com o meu cabelo. Aí, veio a chapinha. Mas, eu não quis, porque aquele cabelo muito, mas muito liso, eu não gosto.

Passei a vida toda brigando com isso e brigando com o meu jeito autista de ser. Nunca sabia se estava sendo conveniente ou inconveniente, sempre me achei feia, era tudo muito complicado. Então, como eu tenho o meu diário, a adolescência é uma fase que eu nem gosto de lembrar e o início da minha juventude também não. E com você, Camila?

Camila Marques:  Eu tenho uma irmã mais nova, usamos tranças até os 12, 13 anos. Tranças com nossos cabelos naturais. Depois, nós alisamos o cabelo. Eu tenho 25 anos, então você coloca 10 anos atrás. É muito pouco tempo, comparado com hoje. Nós alisamos o cabelo, a minha mãe alisa até hoje, porque ela não tem coragem de passar pela transição capilar. Ela fala: “Eu não tenho paciência, não”, aí ela alisa até hoje. Nós começamos a alisar o cabelo porque a gente queria usá-lo solto. E eu, as minhas amigas, a maioria delas, com exceção da Roberta, que é negra como eu, têm cabelo liso. As minhas amigas são muito lisas, com cabelo na cintura. São brancas, bem magrinhas. Era um trio na escola: eu e essas amigas. São minhas amigas até hoje. Então, a gente queria ter o cabelo grande, porque eu peguei aquela época -escola tem modinhas- na escola onde eu estudei e fiz o ensino médio, tinha a “modinha” do cabelo escorrido. Aí, eu queria usar o cabelo liso. Então, eu alisei o cabelo. Eu passei pela transição aos 18 anos, quando eu passei uma progressiva, mesmo respeitando o intervalo e não deu certo.  Aí, eu disse: “bom vou abrir mão, eu não quero mais”. Eu já pensava em transição capilar, mas achava distante. Parei de usar o alisante e hoje tem sete anos que eu uso o cabelo cacheado.

Selma Sueli Silva: Eu amo cabelo assim, cacheado como o seu. Por que o que que fico chateada com o meu cabelo? Porque o seu, você percebe que aqui, no topo da cabeça, fica legal. O meu fica muito liso e começa a ondular aqui em baixo, nas pontas. Hoje, por exemplo, eu não estou gostando dessa parte dele, em cima, eu não consigo. Por isso, de vez em quando eu uso ele assim, presinho, porque acho que ele fica muito grudado na cabeça. Mas, vamos lá: eu me lembro que uma vez, na rádio, nós falamos dessa questão de alisar, que a pessoa tinha que valorizar a origem dela e uma ouvinte ligou para mim e disse: “ Ai, Selma. Eu amo tudo o que você fala, mas eu gosto tanto de alisar o meu cabelo. É um direito de escolha”. Aí, eu disse: “Você está certa. É um direito de escolha. Se você faz, faz com responsabilidade, com um tratamento bacana, continue. Mas faça por escolha, não por imposição.” E é isso aí. Parece difícil, mas quando a gente conecta com a nossa essência, com o que a gente tem de melhor, não há mulher feia.

Os desafios de ser mulher com características diferentes