Poesia e criança: prazer que encanta e liberta

Victor Mendonça e Raquel Romano

Existe poesia para adulto e para criança? Victor Mendonça e Raquel Romano falam sobre a leveza que a poesia proporciona para a vida. 

Victor Mendonça: Raquel, livros e a arte voltados para as crianças não deixam de ser interessante também os adultos também. Fazendo um paralelo com isso, uma coisa que eu adoro e que eu acredito que você vai poder explicar com maior profundidade do que eu, é a questão da poesia. Como é que a poesia atua na formação do pequeno leitor?

Raquel Romano: A poesia encanta qualquer criança, qualquer leitor e isso o acompanha pela vida. A poesia traz um aspecto de sonho. Traz ritmo, ela traz uma musicalidade, é um brincar com as palavras. É muito interessante. Desde pequena, você brinca com a criança, fazendo jogos de palavras. Ela vai entrar nessa vibração, vai embarcar e desenvolver a comunicação, a fala e isso é maravilhoso. Algumas pessoas acreditam que poesia para crianças e poesia para adulto. Eu penso que a maioria das poesias escritas para crianças são maravilhosas, também, para adultos. Como professora de artes, trabalho muito com a literatura nas minhas oficinas e sempre usei poesia como reflexão e como estímulo à criação. A poesia estimula a expressão criadora do adulto.  Muitas vezes, eu trabalho com educadores e eles replicam isso em sala de aula e me dão retornos maravilhosos de como a criança se desenvolveu na alfabetização, por exemplo. Tem um livro que eu gosto muito, que é o Classificados poéticos, de Roseana Murray. Eu sempre trabalho com ele em grupos de adultos. A Roseana propõe classificados em formato poético, muito legal. O livro é todo de classificados, às vezes coisas nonsenses, oníricas*, para estimular para que o leitor crie os seus próprios classificados. Quando o leitor cria os seus classificados, ele está falando de si mesmo, de seus desejos. “O que eu compro?”, “o que eu troco?”, “o que eu dou?”. Ele está falando de seus incômodos, dos seus desejos, do seu ambiente, dos seus sentimentos. Ele negocia de forma lúdica, através da poesia e tudo isso que está dentro dele. Temos ainda, a Cecília Meireles com o Leilão de jardim e tantas outras poesias. Eu gosto muito do livro do Libério Neves, que chama As cores mágicas.

Raquel Romano e Victor Mendonça durante gravação do Programa de Brincadeira

 

Victor Mendonça: Lindo esse livro As Cores Mágicas!

Raquel Romano: Ele tem uma ilustração belíssima, da Liliane Romanelli feita em aquarelas. Esse assunto a gente ainda vai falar sobre ilustrações, sobre literatura imagética, futuramente. Mas as ilustrações do livro As cores mágicas, aqui, ele propõem que a gente faça uma viagem  maravilhosa, um relaxamento, é quase uma meditação em forma de poesia. Não tem como o adulto não se tornar criança, se é que ser criança é ser mais livre, para sonhar, para pensar, para receber esses estímulos. Eu gosto muito. Tem um outro livro que eu gosto muito também, que se chama Era uma voz, que é um livros de sonetos para netos.

Victor Mendonça: Que gracinha esse título!

Raquel Romano: São avós se relacionando, fazendo poesia para os netos. Perceba que coisa rica e linda essa interligação. Ainda tenho aqui o livro Tem de tudo nesta rua, um dos primeiros do Marcelo Xavier.

Victor Mendonça: Eu amo o Marcelo Xavier!

Raquel Romano: O meu exemplar está velhinho, ele é todo de ilustração de massinhas. O Marcelo apresenta o mundo do comerciante de rua, do cinema, do comprador de papel velho, do vendedor de algodão doce, e por aí vai. Eu fico fascinada com a imaginação desses autores que vão nos encantar eternamente. Então, como não vai encantar a alma das crianças? É isso. Eu penso que nosso mundo precisa muito de poesia. Está faltando poesia na alma das pessoas, para que elas se tornem mais humanas.

Victor Mendonça:  Perfeito. Fica aí, um convite à reflexão.

*Oníricas: que diz respeito à natureza de sonhos