Política, Crise Econômica, Conflitos – Como cenários de incertezas interferem no humor das pessoas autistas

Victor Mendonça e Selma Sueli Silva

“Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter… calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida.”

Clarice Lispector das palavras precisas. Tão profundo e atual o seu pensamento.

Desde que o Victor era bebê, eu percebia que o ambiente, a energia à volta tinha um peso enorme em seu bem estar. Algo elementar como: Ele está chorando muito? Então, passo 1. Fome? 2. Está molhado? 3. Alguma dor? 4.

Victor escreve esse texto comigo e, juntos, vamos nos lembrando das situações. Na medida em que ia crescendo, por vezes, ele me fez enxergar: “Não, não estou com fome”. “Não, não estou com dor.” O que era então? A essa altura, eu já percebia: “Estou tensa, logo ele fica diferente.” Estou triste, logo ele fica diferente.” Mas, o que fazer com os profissionais que me diziam que ele não lia essas mudanças em mim? Ou com as pessoas típicas que diziam: “Fulaninho é igualzinho, se estou triste ele fica também.”

Mais uma vez, como tantas outras em minha vida, eu é que deveria prestar muiiiiiiita atenção e descobrir a variável da equação. Verdade seja dita, meu psicólogo à época me orientou com o básico. Eu deveria ficar atenta às necessidades biológicas porque o autista pode não ter percepção. Mas ainda havia algo. Tentava me manter serena o tempo todo (claro que não conseguia), e o bom humor nos salvava dos momentos mais aflitivos. Era preciso leveza, lembra-se o Victor, senão a gente parecia explodir. Ainda assim, de uma hora para outra tudo poderia mudar.

E o que saía do padrão? Eureca! Na pré-adolescência, se Victor torcesse para um determinado BBB e outro ganhasse, o sentimento de injustiça o atormentava e ele se desorganizava. Assim como, ao ouvir sobre a morte de crianças na África, ele corria para frente do oratório para orar por elas e se perturbava com um mundo tão desigual. Victor me chama atenção para o fato de que tive de revisitar meu passado para perceber essas sutilezas. Eu chorava pela mocinha se o vilão/ã fosse do tipo frio e cruel, mas torcia pelo vilão se percebesse que ele também era capaz de sofrer. Foi assim que descobri porque Victor preferia a Angélica, no desenho “Os Anjinhos”, da década de 90.

Quando mais maduro, mais consciência e mais sofrimento. Era a guerra, o fantasma do desemprego, briga de vizinhos. Vários fatores externos podem desequilibrar a pessoa autista. Ele tentava se expressar, mas os profissionais não o entendiam. Eu sofria com ele e até me desorganizava também se ele entrasse em crise. Era complicado: Se ele tinha um sentimento de compaixão pela vó, um colega, professor ou psicólogo, ele era a melhor pessoa do mundo aos olhos da sociedade. Era especial, veio ao mundo com uma missão. Entretanto, se ele fosse acometido pela raiva, frustração, o que fosse, e berrasse, se agredisse, quebrasse algo, ele era um peso para mim e uma ameaça ao nosso futuro. Iria chegar às vias de fato, na adolescência — é o que diziam aquelas mesmas pessoas que o elogiavam.

Uma cena nos marcou, em especial. Ao perder o emprego com a crise, Victor ficou muito abalado. Se eu não iria receber mais salário, as coisas podiam piorar e a gente morar no meio da rua. Era muito sofrimento.

As pessoas e as circunstâncias podem ser mais complicadas que parecem. Por isso, é necessário que não nos sintamos magnânimos com determinadas opiniões, e muito menos, a pior. Mas, ainda assim, descobrimos que somos muito diferentes do senso comum quando se trata de comportamento. Por isso, aspectos como crise financeira, brigas, violência, expressões exacerbadas, muito teatrais podem nos assustar. É que ou a gente percebe tudo ou não percebe nada. Assim, podemos ser extremamente felizes num dia e extremamente infelizes no outro. Nossa luta é nos mantermos no caminho do meio. Bem dizia minha vó: “Sueli, Sueli, nem tanto ao mar nem tanto a terra.” Não podemos julgar, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.