Reflexões sobre os relacionamentos com os homens

Selma Sueli Silva

“Fiquei apegada e foquei em todas as suas qualidades e foi maravilhoso e fácil de administrar até a chegada de meu filho. Era um terceiro elemento e equacionar os três foi se revelando cada dia mais difícil.”

Em casa, éramos quatro mulheres. Minha mãe, eu e duas irmãs. Eu era a filha do meio. E me sentia assim, como a média da irmã mais velha e da caçula. A mais velha era calada, introvertida, sempre com cara de preocupação. Já a mais nova, eu não conseguia entender. Não obedecia minha mãe, exatamente, quando eram passadas as orientações, e tinha atitudes muito infantis sempre.

Minha irmã mais velha (sou dois anos mais jovem) começou a namorar cedo. Percebi que dessa forma ela tinha a companhia que eu sempre quis ter. Eu não tinha amiga e não levava ninguém à minha casa. Mas, a partir daí, ter namorado como forma de ter companhia passou a ser meu hiperfoco.

Essa decisão me rendeu muito sofrimento. Eu não entendia como fazer para namorar, não entendia os garotos de minha sala de aula, nunca sabia se estavam prestando atenção em mim. Hoje, entendo que eu era zero em entender sinais sociais e a malícia juvenil dos garotos da época.

Tudo isso tornou essa fase me minha vida um verdadeiro inferno. Meus namoradinhos diziam não me entender, questionavam demais meu jeito. Minha sensação era de que eu não conseguia falar a língua deles. Mas também não queria ficar sozinha, como sempre me senti. Então, bolei a estratégia que mais tarde chamei de “dançar conforme a música”. Agucei meu interesse por esses garotos e estudei tudo que os fazia felizes. Assim, ficava mais fácil agradar e garantir que eu não me sentisse tão sozinha.

Já que era comum ouvir que eu não entendia as pessoas, que só pensava em mim, que me fazia de boba, resolvi fazer sempre um grande esforço para entender todo o namorado que tive. Se, no início, isso me pareceu uma boa ideia, com o tempo eu passava a gravitar em torno deles e tornei cômodo, para muitos, ser a namorada muito compreensiva.

Quando tinha dezesseis anos, era popular a menina não levar os garotos a sério e ter dois namorados. Um na escola e outro para o fim de semana. Tentei fazer isso e foi um verdadeiro fiasco. Não conseguia esconder um do outro. Pensei em contar para eles e, aí sim, ficaria melhor. Foi o que fiz. Então descobri que essa moda não era bacana, que a pessoa se sentia usada. Abortei o modismo. Complicado demais.

Minhas notas nunca caíram porque, quando comecei a namorar, aos 13 anos, fiz uns combinados com minha mãe. Sempre fui ótima em cumprir regras.

  1. O namoro seria em casa, só nos fins de semana.
  2. Namorado nessa época da nossa vida era mais como um amigo próximo (amei essa, pois me garantia ter amigos).
  3. Eu não poderia deixar baixar um décimo em minhas notas.
  4. Namoro de adolescente era só de mãos dadas e beijo na boca.
  5. Eu poderia contar tudo para minha mãe, sempre (Nessa parte, não entendi direito. O que era tudo?). Perguntei se era para fazer relatório como na escola. Minha mãe riu e me explicou que era para contar coisas que eu não conseguisse resolver sozinha.

Mas, o tempo foi passando e eu não conseguia me sentir feliz no amor. Era muito sofrimento, muita coisa para entender. O homem é bem diferente da mulher, embora, como amigo, eu descobri que fosse até melhor. As amizades que tentei com mulher eram complicadas. Eu nunca as entendia, muita coisa para avaliar, para pensar. Elas eram contraditórias. Já os homens eram mais assertivos e menos cheios de variáveis.

Na verdade, os homens (possíveis namorados) com que convivi nessa época eram, de um modo geral, assim (o que gerava certos comportamentos nas garotas):

  1. Enquanto a mulher se imaginava correndo na direção dele em um campo verdejante, com o vento batendo nos cabelos e na roupa branca e esvoaçante, o homem imaginava a mulher correndo para ele completamente nua (Foi explicação que a minha irmã mais velha me deu, quando eu reclamei que não entendia os homens e suas expressões).
  2. Eles não queriam apenas estar com a gente, eles queriam estar com a gente e mostrar para os colegas que tinham conseguido estar com a gente.
  3. A regra acima, quando acontecia numa festa e alguma menina não dava chance, o homem passava, imediatamente para outra. Eu não entendia a frase que eles usavam: “Nessa festa, você é a única menina interessante”. Mentira, se eu não topasse, ele “atacava” outra. Tratei de ensinar essa regra para minha irmã caçula, pois foi quando descobri que homens mentem.
  4. Aquela garota que parecia ser a mais cotada da festa devia ser muito segura. Mentira. Um dia, conversando com uma dessas, descobri que ela era cheia de umas dúvidas tão primárias… Foi quando percebi que mesmo que você esteja morrendo de medo por dentro, se não deixar ninguém perceber, eles vão acreditar que você é assim segura (Essa regra me valeu muito quando comecei a trabalhar).
  5. De uma próxima vez, você não pode ser tão transparente e deve deixar de acreditar que todo mundo é bom (Essa regra eu não conseguia cumprir).

Mais tarde, por causa dessa última regra, eu tive quase uma briga com meu psicólogo. Ele disse que era preciso gravar os erros. Eu expliquei que eu deletava o que me fez sofrer e que se tivesse raiva de alguém tinha que escrever para lembrar, pois não conseguia guardar isso. Ele enfatizou que então eu sempre cairia em mesmos erros. Isso doeu porque era o que acontecia. Não satisfeito, pediu que eu tirasse os óculos cor de rosa. Perguntei o que isso queria dizer, ele me explicou. Fiquei chateada. Para mim, as pessoas são boas e imaginar que tudo é ruim é o que traz sofrimento. Eu ainda tinha muito que aprender.

Aos 21 anos, encontrei uma pessoa que considerei a certa para ser meu marido e o pai de meus filhos. Ele era sensível, equilibrado (minha meta na vida), tocava violão, conhecia muitos filósofos e o melhor, adorava filosofar. Finalmente, meus papos infindáveis estavam garantidos. Calculei o que deveria fazer até o casamento e assim foi. Ignorei as diferenças entre as famílias, as diferenças comportamentais e culturais. Cheguei a procurar psicólogo para conversar sobre o que me incomodava. Não obtive resposta e decidi que devia ser assim mesmo.

Foquei na troca intelectual e no violão e fiquei muito apaixonada. Depois de ter cumprido todas as metas pré-casamento, nos casamos cinco anos depois. Eu não percebia que gravitava ao redor dele. Mas isso era bom, ele era culto, sensível, inteligente, era um artista. É verdade que tinha falas e reações que eu não concordava e não conseguia entender. Mas também não conseguia explicar para ele, por mais que tentasse. Estava claro em minha cabeça, mas não conseguia traduzir em palavras. Logo eu, uma comunicadora.

Fiquei apegada e foquei em todas as suas qualidades e foi maravilhoso e fácil de administrar até a chegada de meu filho. Era um terceiro elemento e equacionar os três foi se revelando cada dia mais difícil. Percebi que dava conta de estar inteira com um e me separei depois de 18 anos de casada. Novo problema, havia pequenas e banais situações com as quais eu não conseguia lidar. Ir a supermercado, andar de ônibus – muito complicado, administrar a casa organizando o fluxo de tudo, marcar médico, ir ao médico, determinar o que fazer no almoço e continuar a ser a profissional de excelência que havia determinado ser, lá atrás.

Estava fragilizada e precisava de um namorado. Eu sempre soube que não nasci para ser sozinha. Construí uma vida e uma carreira das quais me orgulho, mas precisava ter alguém ao meu lado. Mesmo que não ajudasse tanto. Mas para eu fazer as tarefas corriqueiras do dia a dia que me amedrontavam precisava de alguém. Por exemplo, tenho dificuldades de entrar num restaurante, escolher o lugar em que vou sentar e pedir meu prato. Com alguém ao meu lado, essas coisas ficavam mais fácil. Diferente de quando eu estava trabalhando ou voltada para a educação de meu filho. Aí sim, era tranquilo hiperfocar e analisar as melhores atitudes a tomar.

Resumindo a história, surgiu uma pessoa com a qual fiquei quase dez anos e que ia adiando a possibilidade de uma vida em comum. Uma história batida, conhecida de muitas mulheres, mas que eu, que tenho certeza de ser uma pessoa inteligente, vivi simplesmente pelo fato de não duvidar se o que uma pessoa me diz é verdade. Para mim, essa é a regra. Mentiras assim não fazem o menor sentido.

Há quatro anos, recebi meu diagnóstico de autista e reavaliei minha vida do alto do conhecimento que já havia adquirido com meu filho, que tem 23 anos e recebeu o diagnóstico aos 11. Terminei o namoro e resolvi dar um tempo nas relações amorosas. Ainda hoje, não me sinto capaz e nem protegida o suficiente para entrar em outra relação que tenho certeza, será muito boa para o outro – pois eu me esforço muito para isso, mas que não será assim para mim. Apesar de admirar até hoje alguns homens que passaram por minha vida, eu nem sequer tenho a certeza de que sei o que é o amor. Será que um dia amei de verdade? Eu não sei e não me sinto preparada para descobrir.