Seletividade alimentar: o que é mito e o que é verdade? Como e quando procurar ajuda médica?

Victor Mendonça e Selma Sueli Silva

A seletividade alimentar é um sofrimento para as mamães. Com o tempo, melhora a partir de intervenções que podem ser feitas, profissionais que podem ajudar, como o terapeuta ocupacional. O Victor teve uma defasagem nessa fase, porque ele não contou com a intervenção desse profissional.

A pior fase relativa à seletividade alimentar na vida do Victor foi quando ele entrou para a pré-adolescência. Ele ficou muito magro, com os olhos fundos, fraco para qualquer atividade. Nessa fase, inclusive, Victor descobriu que mãe não acha filho bonito sempre (risos). A Selma tentava argumentar com o filho: “Meu filho, melhora a alimentação. Olha o tamanho das suas orelhas…” (mais risos).

A seletividade alimentar pode ocorrer com outras pessoas, mas aqui nos resumimos aos autistas. No autista ela é mais comum que na pessoa típica, por questões que são próprias do autismo, como a rigidez no pensamento e os distúrbios sensoriais. Seletividade alimentar não é uma “frescura”.

Para o autista, são importantes determinados rituais como o horário das refeições, por exemplo. As refeições à mesa são importantes porque o ato de alimentar não é só comer e pronto. Envolve todo um ritual, um processo. No tratamento com a TO pode-se trabalhar a sensibilidade sensorial. Primeiro, o autista aprende a estar na mesa. Não é como os pais pensam: “A mesa está posta. Rufem os tambores, pois meu filho vai come.”. Não é bem assim. Às vezes, só o fato de conseguir ficar à mesa já é um avanço.

Temos que pensar nos horários, evitar distrações como TV ou brinquedos. O ritual da alimentação é importante. A mesa não pode estar com muita coisa (cheiros, cores, visual, texturas, pedaços grandes, temperatura… Tudo pode estar interferindo na vontade da criança para aceitar se alimentar). A comida tem que estar bonita. Alguns autistas, por causa da rigidez de pensamento, não gostam que um alimento se misture com outro. Tem gente que fala: “Com toda criança, você tem que ir aos poucos e oferecer o alimento novo antes”. Verdade, mas com o autista é muito mais intenso. Se você oferece para uma criança de 20 a 25 vezes, para o autista tem que ser mais. E de uma forma diferente, para não gerar crise. Exemplo: Para oferecer uma fruta, ele tem que ver, se acostumar com ela, depois sentir o cheiro, depois tocar, e só depois pode querer levar à boca. Nossa ansiedade nos leva a querer que tudo aconteça de uma vez. Mas com o autista deve ser aos poucos, passo a passo. Vai dar tempo para que a criança se acostume com o cheiro, o visual, a textura, a aparência. Se mesmo assim ela não aceitar, você substitui por outro alimento. Mas sempre um por vez.

Não demonstre sua ansiedade e expectativa durante a refeição. Faça com que seja um momento tranquilo e agradável, sem pressionar a criança. Alguns dias serão melhores que outros, mas nossa ansiedade não ajudará.

Às vezes, o autista gosta de determinado alimento e os pais só compram esse alimento. Mas autista também enjoa. Pode amar numa fase e detestar em outra. Outros autistas acham comer uma perda de tempo. Então, a comida deve ter visual atrativo. É preciso ter paciência com o aprendizado dos talheres, aguentar a bagunça por um tempo. Ir devagar e com calma.

Uma simples refeição pode ser cheia de demandas. A fonoaudióloga, assim como a terapeuta ocupacional, pode ser bem importante. O Victor, por exemplo, tem disfagia, que é uma dificuldade para engolir, em função da hipotonia dos músculos na região da garganta e do esôfago. O trabalho da fono, nesse caso, é muito importante.

Normalmente, o almoço da criança é antes ou depois da escola. Nos dois casos, a ansiedade de quem vai servir esse almoço pode tumultuar ainda mais o processo. É sempre importante focar nos pontos primordiais desse momento. Observe e conheça seu filho, considere menos informação visual à mesa, dê um passo de cada vez. E mais: cada vitória, por menor que seja, deve ser comemorada.