Ser autista com deficiência intelectual não significa ter déficit nos sentimentos

Victor Mendonça

Apesar de tomar algumas liberdades artísticas, filme “Uma Lição de Amor”, disponível na Netflix, traz mensagem válida com relação a capacidade de amar e criar vínculo de autistas com DI (Deficiência Intelectual).

Um dos mitos mais doídos aos autistas sem deficiência intelectual ou na fala é, justamente, que autistas não têm sentimentos, empatia, nem se importam com o julgamento alheio. Muitos autistas, principalmente aqueles definidos pela medicina como de “alto funcionamento”, têm surgido, em especial nas mídias sociais, como ativistas que desmistificam estereótipos como o de que autistas são uma espécie de “robôs sem sentimentos”.

Não são as manifestações mais sutis do autismo, entretanto, o foco do filme “Uma Lição de Amor”, que rendeu uma indicação ao Oscar a Sean Penn pelo papel de um autista com deficiência intelectual, há quase 20 anos. Lançado em 2001, o filme reaparece com novo frescor e apelo, ao ser comentado em comunidades de pais de autistas após a exibição no Brasil pela plataforma de streaming Netflix, onde permanece disponível. E é justamente por abordar nuanças menos conhecidas da condição do transtorno do espectro do autismo que a obra consegue tocar o espectador. Afinal, autistas com deficiência intelectual ou outras condições coexistentes, que prejudiquem ainda mais as suas habilidades comunicacionais e de interação social, também são pessoas e, como tais, trazem em si o que é intrínseco à natureza humana.

É certo que não se trata de um filme verossímil em vários aspectos: a “pureza”, outro mito comum sobre indivíduos no espectro autista, por exemplo, é exaltada, mesmo para um personagem que vive sozinho e tem uma filha de seis anos. O próprio argumento central que se desenvolve em torno de um pai com idade mental estabelecida pela Justiça como de “sete anos” e a filha, de seis, conforme define o roteirista, traria, na vida real, contornos muito mais complexos do que os exibidos pelo longa-metragem.

Mas é nas relações entre os personagens, muito bem defendidos pelo elenco de primeiro nível, que o filme provoca forte empatia e ganha o espectador. O personagem de Penn parece ter uma tripla missão na obra: transformar-se, tecer a relação com a filha (vivida por Dakota Fanning) e ainda ser um agente para o aprimoramento pessoal da advogada de defesa, papel de Michelle Pfeiffer.

E se alcançar isso tudo parece desafiador demais para uma pessoa com as características do protagonista Sam, a delicadeza da intepretação de Penn é imprescindível para o sucesso da produção. O intérprete não teme ao se expor e evidencia todos os desafios e dificuldades de Sam, mas traz em si a forte presença do amor que é exatamente o responsável por seu crescimento. E não se trata de um amor piegas, que arranca, facilmente, lágrimas aos olhos do espectador. O amor vivenciado pelo personagem é a força que o guia e que impulsiona o seu crescimento, e acaba por contagiar todos os que estão ao seu redor.