Ser diferente ajuda ou atrapalha?

Selma Sueli Silva e Camila Marques

Selma Sueli Silva e Camila Marques falam sobre apropriar-se do que é diferente.

Selma Sueli Silva: Ser diferente ajuda ou atrapalha?Durante o isolamento, eu só me arrumo da cintura para cima para gravar os vídeos do Mundo Autista. Já a Ivete Sangalo fez um show de pijama e arrasou. Meio milhão de pessoas, apesar do pijama, o que demonstra a tendência pós pandemia: as pessoas mais próximas do que eram antes.

Ser diferente, ser autista, ser negra, ser homem, ser mulher, ser travesti, ser homossexual: ajuda ou atrapalha? É ruim ou não é? São rótulos, enfim. Como isso funciona? Eu posso dizer que o meu diagnóstico de autismo veio há quatro anos e eu me sinto muito mais inteira, porque o autoconhecimento é tudo. Então, no fim das contas, o que eu quero é ser feliz, do jeito que eu sou. É fácil? Claro que não. Eu sou uma mulher madura, foi preciso trabalhar todo o processo. Mas, na adolescência, ao mesmo tempo em que a gente quer ser igual aos nossos pares, quer também ter uma marca diferente: pinta o cabelo de roxo, coloca o piercing não sei onde, faz aquelas coisas todas… São as contradições do ser humano.

Camila Marques: Eu acho que ser feliz é o que importa. Você perguntou sobre se ser diferente marginaliza ou pode ser interessante. Eu acredito que seja interessante, mas vivemos em uma sociedade que ainda marginaliza. Tem dificuldades para aceitar e até respeitar. Exemplo disso, é o que acontece com a gente, os negros, o que acontece com nossos companheiros LGBTQI+.

Recentemente, houve uma discussão no Congresso sobre se o grupo LGBTQI+ poderia ou não doar sangue. Eu sei que estamos avançando, mas isso mostra que parte expressiva da nossa sociedade ainda pensa como nos anos 1980, o que é um atraso. Então, eu acredito que ser diferente agrega, mas a nossa sociedade ainda nos marginaliza.

Selma Sueli Silva: Você citou um exemplo bem interessante. O que acontece nos dias de hoje, não na década de 1980, em que surgiu a AIDS, e os homossexuais eram um grupo de risco maior, à época. Mas e hoje? O que deveria contar para se doar sangue, é ter boa saúde ou não. No meu caso que sou divorciada, também não posso doar. Mesmo não tendo um companheiro. Mais uma vez o que conta é o rótulo, o estereótipo “mulher divorciada, ninguém sabe, ninguém dá conta dela”, porque é risco. E o LGBTQI+ também ainda é visto como um risco para essas pessoas. Quando, na realidade, o que importa é ser uma pessoa saudável. Mas, enfim, a gente ainda vai caminhar muito. Para mim, me apropriar do que era diferente de um dito padrão me faz saber lidar com os pontos frágeis, vulneráveis, e me fez fortalecer o que tem de bom na diferença. Porque todo mundo tem um lado positivo e um lado negativo.

Camila Marques: Exatamente. Você parte da diferença enquanto mulher autista; e eu parto da diferença quanto à representatividade de raça. Mesmo sendo “nova”, eu cresci sem referências. Eu cresci sem referências de beleza negra, sem referências de maquiagem apropriada. Para você ter uma ideia, a minha avó, que é negra também, porém um pouco mais clara, usou pó-de-arroz.

Selma Sueli Silva: Ah, não! Agora vamos ter de falar disso, na próxima quinta-feira. Vamos falar sobre ter ou não essa referência, a importância disso.

Ser diferente ajuda ou atrapalha?