Ser mulher

Selma Sueli Silva

A diferença no tratamento entre homem e mulher fica mais evidente em nossa vida profissional

As diferenças de gerações e a mulher

A geração de minha vó foi criada para ser discreta e silenciosa. Às mulheres era permitido sorrir meigamente e não emitir opinião.  A vida dura, no entanto, fez de minha vó uma guerreira. Ela não teve tempo para saber o que podia ou não podia porque aos 16 anos casou-se com meu avô, onze anos mais velho que ela. Minha vó o vira poucas vezes antes disso.

Vieram os filhos, minha mãe a primogênita. Minha vó não comemorava quando nascia mulher. Ela achava vida de mulher muito difícil. Tentou segurar a leva de filhos, um atrás do outro, mas uns missionários convenceram o meu avô de que isso era pecado. Sem escolha, minha vó teve nove filhos, seis homens e três mulheres.

Por incrível que pareça, vó Glória, que lavava roupas escondida de meu avô, mestre de obras e orgulhoso da posição de provedor, deu condições de estudo aos nove filhos para que eles fossem protagonistas de sua própria história. Assim, minha mãe avançou, e muito, nas conquistas de minha avó. Embora perseguida pelos fantasmas da “mulher direita”, foi mulher separada (ou largada do marido, como diziam à época), mãe de família e, mesmo tendo começado a vida como faxineira, passou a professora até se aposentar como procuradora do município de Belo Horizonte.

As três filhas de Irene

Minha mãe teve três filhas, para grande preocupação de minha vó. As filhas de Irene saíram da infância e adolescência de pobreza e se tornaram engenheira, jornalista e juíza de direito. Eu e a mais velha trazíamos características que marcaram minha vó e minha mãe para além da luta por dias melhores. Nós tínhamos dificuldade no contato social, seguíamos padrões rígidos criados por nós para dar conta de viver a vida, tínhamos interesses restritos, mas tudo isso nos ajudou a manter nossos hiperfocos: ser felizes e fazer a diferença na sociedade.

As filhas de Irene e o mercado de trabalho

A palavra limite por ser mulher nunca nos foi apresentada nem por minha avó e nem por minha mãe. Ambas nos incentivaram a termos nossas opiniões, a criar estratégias para dar conta das situações adversas que sempre surgem na vida da mulher quando ela vai trabalhar fora. Sim, trabalhar fora, porque toda mulher já trabalha dentro. Tem suas obrigações muito bem delineadas em casa. Mas, no caso de minha avó, os homens também tinham. São, hoje, excelentes na administração da casa também.

Não demorou muito e o frescor da juventude nos trouxe as odiosas frases feitas ditas por boa parte dos homens no mercado de trabalho. Todos esses, se achando verdadeiramente originais. Eu tinha pena, achava-os patéticos e os desdenhava desde que não me tocassem. Sim, para esse tipo de homem, beijar, nos tocar com as mãos cheias de dedos, é privilégio a ser agradecido. Pois sim, uns babacas.

Mas a vida me ofereceu colegas do sexo masculino, maravilhosos, inovadores, que, como eu, queriam entender de gente e fazer a diferença na sociedade. Então, aos outros, uma maioria asquerosa, reservo o total esquecimento de minhas memórias.

O Rádio em minha vida

Quando fui trabalhar no rádio, nos anos 2000, descobri que ainda era uma mídia vista como menor, com profissionais permissivos, e fui aconselhada a me afastar desse tipo de ambiente. Como sou filha de Irene, anoto, registro o que me dizem, mas vou eu mesma, em busca de minhas próprias impressões.

Sim, havia no rádio ainda uma geração que foi criada para “cantar” a mulher, senão não era macho. Fiz o que sabia fazer de melhor, sorria, e me fingia de desentendida. Não queria gastar meu precioso tempo com esse tipo de gente. Havia muito que aprender e gente (homens e mulheres) com os quais eu poderia construir relações produtivas.

Fiquei em uma grande emissora de Minas por 15 anos. O que essa emissora tem de melhor são seus ouvintes e a fidelidade construída por anos de existência. Se por um lado é uma emissora com grandes profissionais de ambos os sexos, por outro lado ainda mantém o microfone dos programas bem masculino. Mulher só para apoiar o apresentador homem. É real. Não sou eu que digo, basta observar.

Hoje, estou à frente de um programa, em outra emissora, que é a minha cara: assuntos que interessam a todos, que permitem o crescimento do ser humano e da sociedade e, o melhor, com o apoio de vários profissionais que, ao meu lado, independentemente de serem homens ou mulheres, têm o objetivo da excelência para levar o melhor a nossos ouvintes. Eu tenho voz e sou voz para milhões de pessoas e sei bem a responsabilidade disso.

A cereja do bolo

A cereja do bolo fica por conta do Mundo Autista no Portal Uai. Por aqui, posso falar, ao lado de meu filho, para milhões de seguidores que me aceitam como sou: jornalista, escritora, palestrante, mãe, filha, autista e mulher. Um brinde a todas nós que seremos resistência sempre pela construção de uma sociedade mais humana e inclusiva.