Sexualidade no Autismo: Como ajudar adolescentes e jovens autistas?

Selma Sueli Silva e Victor Mendonça

A neuropsicóloga e professora universitária Annelise Júlio, em entrevista exclusiva ao “Mundo Autista”, esclarece questões relevantes sobre o tema que é o “terror” dos pais e das mães, e até dos próprios autistas.

Mundo Autista: A sexualidade no autismo se manifesta diferente? Como o profissional pode ajudar?

Dra. Annelise Júlio: Do ponto de vista físico, o autista funciona como uma pessoa neurotípica. O que diferencia são as interpretações e a maneira como ele lida com as questões de sexualidade. Como autistas têm um funcionamento bem mais rígido, todas as questões que envolvem manejo e traquejo social acabam sendo um desafio.

A sexualidade envolve entender o que é gostar de uma pessoa, eu estou falando de um desejo mais amoroso, ou desejo afetivo. Quando nós falamos em relação à sexualidade, não só ao sexo em si, mas principalmente da orientação sexual do autista, isso acaba se tornando realmente um tabu para o próprio indivíduo. Uma coisa que eu gostaria de compartilhar com vocês, e que faz parte da minha prática, principalmente quando o indivíduo com Transtorno do Espectro Autista tem uma orientação sexual diferente da maioria – não é heterossexual – é que ele começa a entender por que eventualmente o corpo responde. Ele não tem o controle disso. Aí verá um homem que ele sente desejo, ou uma mulher que verá outra mulher e sente desejo, e aquilo em um primeiro momento ele (a) não entende. Num segundo momento, em que a pessoa entende, está a primeira importância para o processo terapêutico para o adolescente e o adulto, para o psicólogo traduzir essa parte do mundo para ele, e quando não é uma orientação sexual dentro do típico, isso causa um desconforto porque os indivíduos com Transtorno do Espectro Autista tendem a ser bom de regras. E se você tem uma orientação diferente da regra geral, isso pode causar um desconforto bem pessoal.

Isso é interessante, porque muitas vezes se pensa que as pessoas com TEA não têm desejo sexual, são assexuais.

Em muitos casos, e não vamos fazer isso como regra, a pessoa faz a opção por não se envolver com esses assuntos até porque tem uma orientação sexual diferente da regra. Eu, enquanto psicóloga, preciso ser muito sincera com vocês. Em relação aos pacientes com orientações LGBTQ+, a maneira como eu lido com o paciente, com transtorno ou sem, é a mesma.

Eu preciso ajudá-lo a se entender, eu não vou virar para nenhum paciente e falar: “Olha, sinto informar, está aqui seu atestado de que você é gay”. Até porque isso não cabe, mas eu preciso ajuda-lo a se entender como ele é e se aceitar, independentemente de ele querer ter um relacionamento ou não. Se ele precisar de ajuda, a gente cria um protocolo sobre como os relacionamentos funcionam, regras, estratégias, malícias de relacionamentos. Se a gente pensar nessas questões de malícia, isso é independente da orientação sexual do paciente.

Nessa questão da sexualidade, tem algumas mães que pensam: “Como vou falar de sexo com meu filho? Não posso, tem que ser o Pai. Ele não pode, meu filho fica sem saber”. São assuntos tabus. Os jovenzinhos e jovenzinhas precisam ser orientados sobre isso. Ele está repleto de hormônio. “Nossa, ele não sai do banheiro”. O psicólogo é quem orienta.

Exatamente, um primeiro ponto que eu gostaria de comentar é quando o primeiro tabu aparece: “Quando vou falar sobre isso?”. Vamos conversar sobre masturbação com uma criança de 10 anos, 11 anos ou vamos esperar os 18? Nós vamos acompanhar o desenvolvimento da mesma maneira, no tempo certo, assim como nós não apreçamos uma criança a falar e andar. Quando a mamãe fala que “o indivíduo está ficando muito no banheiro”, com seus 14 anos, isso dá um indício para a gente de que ele está começando a conhecer o corpo. E aí nós entendemos que o indivíduo está se descobrindo, e aí começamos a introduzir os assuntos. Como você está se sentindo em relação ao seu corpo? Em relação ao sexo eu uso a regra, que não é escrita em pedra, eu sempre falo que as pessoas estão prontas para sexo quando conseguem lidar com as consequências do sexo. As consequências físicas e emocionais e até cognitivas. Como assim cognitivas? Eu transei, e agora o que isso significa para mim? Como eu consigo manejar isso?

Nós precisamos entender o sexo até como um fato. Eu acho que essa é uma das grandes vantagens do Transtorno do Espectro Autista, entender as coisas como fato, isso é mais fácil para vocês.

O diretor de uma escola perguntou uma vez: Estava com uma criança de dez anos de idade, uma menina, e ele percebeu que ela estava sempre se encostando, mexendo e procurando quinas. Já estava se insinuando e era autista. Como ele lidaria com isso?

Às vezes a criança não sabe manejar muito e não entende aquilo como um problema moral. Vamos dizer assim, um problema ético. Então, principalmente quando nós falamos sobre indivíduos com esse perfil, o primeiro passo para resolver o problema é conversar. E como fazer isso? Não é questionando a criança o porquê de ela estar se tocando… É: “Porque você se encosta na cadeira, o que você sente?”. Para nós entendermos a visão do indivíduo.

Outros pontos que são importantes, as medicações e a necessidade. Um ponto que é bem relevante é que às vezes envolve um diagnóstico diferencial. Por exemplo, em quadros de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) na infância é comum a hipermasturbação. E muitas vezes eu posso estar falando de um diagnóstico diferencial do próprio autismo. E não só ao TOC, mas a hiperssexualidade também é um sintoma. Então, querendo ou não, a melhor estratégia é o acolhimento de quem está com o individuo na sociedade, família e escola. E também a busca por um profissional, sem a rotular para a gente entender e conseguir ajudar, seja uma ajuda psicológica no sentido de explicar o que é e o que não é ou mesmo até de se pensar em quadros clínicos.

Muitos pais têm medo, principalmente, por essa falta de malícia do filho ou da filha, quando se coloca no mundo como uma pessoa que vai fazer sexo e vai ter um relacionamento. Esse ponto tem uma questão hoje em dia relacionada aos aplicativos. Como é que isso funciona para o Transtorno do Espectro Autista?

Nós temos a visão dos indivíduos do Transtorno do Espectro Autista, do profissional e a visão dos pais. Para os pais há sempre um medo de expor os meninos, que para a gente serão sempre meninos, no mundo onde eles não têm controle. Mas eu acho bastante interessante, com ressalvas, o uso de aplicativos, principalmente para quem não tem um convívio social muito aberto, não tem tantas oportunidades. A priori, para nós encontrarmos alguém que nos interesse, eu sempre falo para os meus pacientes, você precisa frequentar lugares que você goste. Até com os neurotípicos, vão procurar namorado na balada. Mas você vai encontrar alguém de que goste lá? Você não gosta de balada.

Vocês não vão poder frequentar.

Primeira dica: frequente lugares pelos quais você tenha interesse, que tenham temáticas que você goste.

Sabe qual a grande vantagem dos aplicativos? Há uma oportunidade de se ter diferentes experiências de conversa para você entender: bom, esse tipo te falar te expõe ao perigo. Esse outro tipo de fala pode indicar que essa pessoa gosta das mesmas coisas que você.

Eu tenho uma experiência, porque eu concretizo. Senão fica tudo muito teórico, “o mundo é malicioso”.

O último ponto é o mais importante. É importante um acompanhamento profissional. Eu faço contrato com meus pacientes: “Olha, você vai me deixar ter acesso ao aplicativo”. Qualquer dúvida você me manda print.

Eu entendo que quem trabalha com adolescentes e jovens adultos não tem como manter aquela terapia só dentro do consultório.

Então se tiver algum pai em dúvida, se deixa ou não deixa, a primeira sugestão é: procure um profissional, pois ele irá orientar primeiro, ensinar a manejar a ansiedade, e depois a gente orienta os meninos.

Você orienta os adultos ou seus jovens pacientes no sentido de como é alegria e a dor de se ter um relacionamento?

Primeira coisa, dá trabalho para todo mundo. Acho que a principal diferença para quem é mais pragmático é que não faz tanto sentido manter uma coisa que lhe dá trabalho. E eu brinco às vezes dizendo que o psicólogo funciona como o Google Tradutor. Esse dar trabalho por um lado é um fato, não vou minimizar nada para ninguém, mas você tem outros ganhos e aí cabe ao indivíduo analisar quais são as vantagens e as desvantagens.

Eu acho ótima essa história de vantagens e desvantagens, mas eu dou a dica de sempre fazer isso com um profissional, e sabe por quê? Vou usar uma metáfora.

“A terra é azul só de fora.”

Às vezes você está esquecendo algumas vantagens e desvantagens.

O que é desafio para um não necessariamente será desafio para outro.