Stim (Estereotipias) e o meu diagnóstico

Selma Sueli Silva

Desde que recebi o diagnóstico de autismo leve em 2016, tudo em minha vida passo por um resignificado. O mundo é o mesmo, as pessoas são as mesmas, mas meu olhar mudou. Mudou porque eu me entendo melhor, e me entendendo melhor percebi quando e o quanto me machucava para atender a expectativa social ao meu redor.

A cada situação eu me via resignificando coisas e atitudes. Eu não sou obrigada a ir às compras porque todos vão _ no período que normalmente vão. Mudei meus horários e dias de ir ao sacolão, ao supermercado, aos médicos, aos exames, ao salão de beleza. Selecionei qual o evento que realmente ia valer a pena vencer a ansiedade e enfrentar. Não falo sobre determinadas coisas em determinados horários. Por exemplo, se tiver uma conversa animada com meu filho, ou receber um telefonema para falar sobre o #foraTemer, pronto, o cérebro superexcitado não desliga e adeus a uma boa noite de sono!

Parei de tentar fazer minha mãe entender algumas coisas, pois o que ela não entendia era o jeito como eu me comunicava. Agora, sim, conseguimos nos entender. Estou sempre atenta à possibilidade de uma interpretação equivocada ou à rigidez do meu cérebro. Saio da situação e observo de cima e de fora. Fica mais fácil me compreender e entender os outros.

Percebi sinais do TEA em outras pessoas de minha família, uns com traços, outros com fenótipo ampliado; não importa, agora consigo entender e me fazer entender, respeitando a forma de decodificar o mundo para pessoas com cérebro neurodiverso. Ah, fiquei muito mais grata à vida e à minha mãe que, mesmo sem saber, não permitiu o rótulo de depressiva e trabalhou comigo minha profunda ansiedade.

Um amigo me disse que ficou aliviado também: não fica mais chateado quando, no meio da fala dele eu mudo de posição e explico: “Essa posição está me deixando com sono e eu quero te ouvir.” Ele entendeu, finalmente, que não era pessoal. Além disso, passou a respeitar todas as vezes que eu pedia: “Por favor, não converse comigo agora”, ou “eu não quero contato físico”. “Não me toque no ombro ou no braço quando conversar comigo.” Ele sempre me falou que minha sinceridade era doída para ele. Agora ele entende.

Pior foi aquele beijo, o primeiro, em um namoro, em que afastei, espremendo os olhos e as mãos num gesto de gastura, e disse: “Não gosto de beijo molhado”. Ele falou bravo e ressentido: “Mas você me disse que adora beijar de língua…” Respondi: “Gosto mesmo, mas a língua tem que ficar dentro da boca”.

Mas o que eu resignifiquei que mudou minha vida (claro que é exagero!) foram alguns gestos e movimentos meus. Eram ou stins (fala de autista) ou estereotipia (fala de profissionais e família).

“Stimming ou stim são movimentos corporais repetitivos que autoestimulam um mais sentidos, de maneira regulada.” Para a comunidade autista, a palavra reflete o termo “movimentos autoestimulatórios”. E não “estereotipia” ou “movimento estereotipado”, como stimming é conhecido na psiquiatria. Esses movimentos são autorregulatórios e também expressão de comunicação; portanto, necessários às pessoas com cérebro neurodivergente. Então vamos ao stim – sem o peso da linguagem patológica.

Algumas formas de stim são abanar as mãos, balançar o corpo de forma rítmica, o uso da ecolalia na fala, enfileirar objetos, girar objetos. É bom saber que há também várias formas de stim mais sutis. O stim persiste na vida adulta e não é exclusivo do autismo. É aí que entra minha mais adorada descoberta. Eu posso:

1. Juntar o indicador e o polegar em cima das costas de minha outra mão e apertar para depois soltar um pouco da pele dizendo baixinho “gumgum”. Mais tarde, tive de substituir esse por outros porque não queria apressar o envelhecimento de minhas mãos. Isso aconteceu quando entrei na adolescência. (Confira na foto).
2. Balançar levemente meu corpo para trás e para frente, enquanto medito e faço oração. Isso me relaxa e possibilita uma entrega a esse momento de encontro com o sagrado
3. Abandonei o cutucar o nariz quando fico ansiosa ou nervosa, o que me acalmava, mas me constrangia ao mesmo tempo. Aí surgiu o balançar frenético das pernas e dos pés. Menos mal.
4. Não me sinto mais uma velha de 100 anos, com o bumbum de ferro, o que me obriga, quando estou de pé, a me sentar logo, logo. Ficar de pé sempre é cansativo para mim.
5. Brincar com os dedos das mãos também é um excelente recurso.

Como é bom poder desabafar sobre esses meus segredos sem me sentir amalucada. O diagnóstico, em qualquer idade, é libertador.