“The Good Doctor” – Primeiras Impressões

Selma Sueli Silva

Atenção: esse texto contém spoilers

Nesta semana teve grande repercussão a apresentação dos dois primeiros episódios da série “The Good Doctor”. A série conta a trajetória de um jovem cirurgião diagnosticado com síndrome de Savant e autismo. Ele é recrutado para trabalhar na ala pediátrica de um hospital de prestígio.

Interessante notar que, nos casos do autismo, algumas características podem ser percebidas com mais facilidade. O pesquisador norte-americano Bernard Rimland, do Autism Research Institute (Instituto de Pesquisa do Autismo) – em San Diego, Califórnia – afirma que quando ocorre um dano no hemisfério esquerdo do cérebro, o hemisfério direito é compensado pela perda ocorrida.

Rimland analisa ainda que, no caso dos diagnosticados com a Síndrome de Savant, as pessoas autistas demonstram habilidades que estão concentradas no hemisfério direito do cérebro: cálculos, matemática e música. Por outro lado, a parte esquerda do órgão é afetada com os déficits de linguagem e fala. Paradoxalmente, há casos em que o autista desenvolve grande facilidade para os idiomas.

O personagem da série, apesar de seu incrível conhecimento na área da medicina, não consegue entender para se relacionar com o mundo à sua volta.

E é isso que a gente viu nesses dois primeiros episódios.

  1. O autista é fortemente marcado pela estrutura familiar e o meio em que vive.

A falta de estrutura familiar e a perda precoce do irmão restringiram as chances de estímulos para o desenvolvimento das relações sociais, coisa que é colocada à prova quando o personagem entra para o mercado de trabalho.

  1. Há uma tendência de que as circunstâncias externas fiquem gravadas e sejam ligadas às emoções do autista.

Esse é um dos grandes desafios para uma família que tenha um membro autista. Isso porque o autista tende a absorver as situações vividas e transformar em regras. Como acontece na cena da chuva, das luzes do giroflex da viatura policial e quando ele justifica o motivo para querer ser médico.

  1. A presença de uma espécie de mentor/referência, nas diversas fases da vida, auxilia na construção do entendimento e da maturidade do autista.

Na infância e adolescência, o mentor do personagem era o irmão mais novo, que decodificava o mundo familiar à sua volta, bem como reforçava as habilidades do futuro médico.

  1. Não há aprendizado formatado para todos. Se a escola não percebe isso e tenta enquadrar a todos, ela abre mão de ter na sua história um grande valor futuro.

Há uma cena em que o pai bate no personagem após ele ter sido expulso de mais uma escola

  1. Na infância e adolescência o autista costuma se apegar a um objeto ou animal de estimação para suprir a dificuldade da troca afetiva.

O personagem Shaw era ligado a um coelho. Talvez isso aconteça pelo fato de os animais não imporem nada na troca afetiva e simplesmente receberem e corresponderem ao afeto recebido de uma forma terna e sem grandes imprevistos.

  1. Uma situação que envolva muitas emoções e apelos sensoriais pode deflagrar uma grande crise, até mesmo com autoagressão.

Na cena da morte do irmão, da decisão se vai ao não para o conselho tutelar, o personagem se desorganiza e entra em crise.

  1. Grande parte dos autistas tem memória visual. Assim o raciocínio de Shaw é demonstrado por mapas e desenhos. As informações escritas só ganham sentido com a imagem correspondente.
  2. A partir dos 14 anos, um amigo médico assume o papel de mentor de Shaw, observando o que o atrai e oferecendo isso a ele como porta de entrada para o relacionamento dos dois. No caso, o estudo da medicina.
  3. Objetos podem não ter valor monetário algum, mas serem extremamente valiosos para autistas em função de sua relação afetiva com eles. É o caso do bisturi de brinquedo que Shaw ganhou do irmão mais novo.
  4. O autista é focado na realização do que deve ser feito passo a passo. Não se perde em explicações, em conversas e atitudes desnecessárias como no caso da cirurgia realizada no aeroporto. Entretanto, algo que o remeta a antigas emoções pode dispersá-lo temporariamente. Como exemplo, temos quando ele olha a chuva do lado de fora do hospital. Entretanto, ele pode parecer disperso, mas está desenvolvendo uma ação que já está completa em seu cérebro. Caso da entrada no supermercado para conseguir resfriar o fígado humano para doação.
  5. A comunicação com o autista existe, mas não como é formalmente conhecida. É preciso observá-lo e conhecê-lo para que essa interação aconteça.

A colega médica não entende porque o personagem não responde as suas perguntas, e responde, por exemplo, a algo que ela não perguntou. Ela pergunta ao mentor como vai se comunicar com Shaw desse jeito e ele responde: “apenas o observe”. Então ela percebeu que o colega não gosta de perguntas diretas. Talvez, por causa do pai que fazia em sua infância muitas perguntas às quais ele não tinha condições de responder.

  1. O autista é direto e autêntico em suas opiniões.

É o que percebemos nas observações que Shaw faz sobre os colegas, com eles mesmos. Isso não significa que será assim para sempre. Aos poucos o autista entende essas regras sociais. O personagem pergunta ao mentor porque é importante ter crédito de uma ideia, já que o objetivo havia sido cumprido: uma vida foi salva. O mentor responde que serão esses créditos que vão afastá-los dos serviços braçais no hospital. Algo que as pessoas sem autismo aprendem intuitivamente é preciso ser explicado para o autista entender.

Há também o momento em que ele descreve três reações contraditórias da colega e pergunta em qual delas ela foi verdadeira. Isso também tem que ser explicado para ser entendido.

  1. O cérebro neurodivergente do autista trabalha incessantemente.

Observamos isso na cena em que ele se deita à noite e levanta pela manhã sem ter fechado os olhos. Também na cena em que ele diz que não vão poder levantar voo após ligar as informações com o noticiário que ele havia ouvido pela manhã.

Por fim, vemos o preconceito no mercado de trabalho, onde os colegas negam o desconhecido, diferente, sem dar a ele nem uma chance sequer. Mesmo de onde, em tese, o preconceito não poderia vir, como no caso de um médico afrodescendente. De maneira contrária à lei do universo, o diferente é incapaz até que se prove o contrário, e não vice-versa.