Uma semana depois do Dia das Mães – A solidão materna e a maternagem como alternativa à modernidade.

Adrianna Reis

“A maternagem da modernidade é a prática do amor, concretizado entre as mulheres e seu meio e que encontra a capacidade de realização nas redes sociais de apoio.”

Esse ano, senti um Dia das Mães com sabor estranho. Agradeci a presença e saúde da minha mãe e a presença das minhas filhas. Mas não tinha a mesma alegria. Tantos lutos me doem a alma. Sinto uma ansiedade, frequente, e escuto relatos de tristeza e dor todos os dias. Como uma mãe pode manter as emoções sob controle diante de condições persistentes de sofrimento? Como essa mãe não sucumbe à depressão e se mantem como esteio familiar? Para o resgate da saúde mental das mulheres será primordial o resgaste da maternagem.

A maternidade valora a mulher na sociedade patriarcal. No papel de provedora de descendentes, semente da vida e, portanto, admirada. O advento da maternidade só passou a ter o significado que vemos, hoje, na modernidade. Tornar-se mãe, traz à mulher uma nova identidade, deixa de ser filha para ser mãe.  Durante a gravidez, as mães, comumente, relatam que o ato de acariciar e conversar com o bebê são formas de aproximação e de imaginação mais concretas do vínculo que se cria. Sentir os movimentos do bebê dentro da barriga é o primeiro contato físico que a mãe experimenta, pois mães de primeira viagem não se sentem grávidas em um primeiro momento. Idealizar a vida do filho e até mesmo fantasiar sobre o sexo e a personalidade, fazer planos e sentir o medo de possíveis doenças, são sentimentos e ações de amor e cuidado que nascem e promovem a aceitação desse ser estranho como filho.

Maternidade é uma condição física do gênero feminino. Gerar, gestar e parir é maternidade. Maternidade é um ato biólogo. Para o exercício da maternidade é necessário que a mulher disponha de recursos psíquicos específicos. Para além de um papel social, há uma singularidade psíquica de se inserir nesse lugar de mãe. Os cuidados físicos com o filho podem existir e serem realizados a contento; no entanto, esses cuidados devem ser investidos de desejo. A fantasia do filho idealizado, sendo fundante do sujeito, como o investimento que a mãe faz no filho para outorgar-lhe a condição de sujeito. Maternidade consiste no processo biológico pelo qual uma mulher passa e se torna mãe, sendo baseado no laço sanguíneo que une uma mãe ao seu filho.

Na maternidade, tudo é idealizado até que o filho chegue ao mundo. No momento em que o filho nasce, a mãe e todos ao seu arredor tendem a esperar que, automaticamente, a relação se intensifique, considerando que, durante o período de gestação, a mãe imaginou, se aproximou e se preparou para a nova vida que chega. No instante em que o contato físico realmente acontece e a mãe sente a presença daquele pequeno ser que foi tão esperado e tão imaginado por ela, a separação passa a ser algo extremamente difícil.

Existe uma grande luta para equilibrar as necessidades de uma mulher e a necessidade de cuidar dos filhos que, na maioria das vezes, é algo extremamente complicado em grandes cidades. As exigências sobrepostas à mulher, são de filhos com sucesso nas notas e espertes, com muita saúde e beleza admirável. São exigências e cobranças impostas, em sua maioria, às mães. Dessa forma, buscar ajuda, ou terceirizar apoios e suportes têm sido vistos, ainda, com muito pré-conceito. Esse modelo de maternidade é inatingível.

Maternidade e maternagem podem parecer sinônimos, porém há particulares importantes que diferem esses conceitos. Em outra instância, a maternagem é sempre uma escolha, mesmo que posterior, uma decisão de dedicação e amor. Cuidar, amar, proteger, doar, ensinar é maternagem. Maternagem é o processo constante de aprendizado. A maternagem é o útero das relações humanas.

Atualmente, a maternagem tem como principal significado, zelar pelos filhos, cuidar e proteger. Ato sempre esperado que as mulheres cumpram e, mais, que o desejem até. Hoje, o conceito moderno de maternagem é do amor incondicional de mãe pelos seus filhos. A sociedade contemporânea tem uma visão bem específica do tipo de “mãe ideal”: a que deixa tudo para trás e se dedica cem por cento do seu tempo, para cuidar do filho. Por isso, muitas mulheres viveram grandes frustrações decorrentes de conflitos internos ao longo do tempo, por terem abdicado de suas vidas para, apenas, cuidar dos seus filhos.

Em outros tempos, para as mães ancestrais, a maternagem representava tudo o que contribuía como  bem-estar dos seus descendentes, como escolher o seu parceiro, ir em busca de comida, construir um abrigo, lutar por uma boa imagem dentro de um grupo para que, dessa forma, conquistassem pessoas que lhe oferecessem suporte, quando necessário. A questão do tempo, também, era muito importante, pois, para cuidar das crianças e fazer as tarefas, era preciso conciliar as horas e dividir o tempo, de forma que ninguém saísse prejudicado.

Dentro do contexto da maternagem, o ciclo social da mulher é muito importante. Desde as sociedades primitivas, mães criavam redes sociais em que proporcionavam uma segurança maior a elas, o que ainda acontece na atualidade: tias, avós e até mesmo parentes mais próximos se disponibilizam e ajudam a cuidar das crianças pequenas. Como a maternagem consiste no amor e no cuidado, não em fatores biológicos, é preciso entender o que ser mãe significa. E, especialmente, como essa prática deve ser compreendida na subjetividade de cada mãe e de quais suportes ela necessita.

Dessa forma, construir uma rede social que proporcione auxílio durante a maternagem, é essencial para que a mãe não se sinta sobrecarregada e não entre em conflitos internos perante tantas mudanças. Praticar a maternagem é um ato que garante um bom relacionamento entre mãe e filho, assim como promove um autoconhecimento maior para a própria mãe e gera leveza diante de situações que poderiam ser conturbadas. O relacionamento baseado no amor e na prática da doação é um grande sinônimo de união e possibilitará uma vida e criação tranquilas. Em tempos de isolamento obrigatório, as redes sociais tem se mostrado bons lugares de apoio feminino, e têm desmistificado e humanizado a maternidade, para além do romantismo.

Que no próximo Dia das Mães, tenhamos menos flores e mais apoios. Que as demandas maternas possam ser ouvidas e não consideradas dramas. Que as mães possam falar sobre a sua gestação, seus medos e desejos sem serem silenciadas. Que os conflitos familiares sejam protegidos à sua integralidade. Que a sociedade, que tanto aplaude a mãe guerreira, permita criar espaços de escuta para questões relacionadas à maternidade, como a implementação de redes de apoio femininas com foco no tratamento psíquico. Nesses espaços, a fala materna poderá ter espaço para um delineamento do desejo materno e a configuração do vínculo mãe-filho, bases do exercício da maternagem e da constituição psíquica de seu filho.  Vejo tudo isso, como a única saída para uma saúde mental saudável da mãe. A maternagem da modernidade é a prática do amor, concretizado entre as mulheres e seu meio e que encontra capacidade de realização nas redes de apoio. Multiplicando, explicando, orientando e unindo um mundo inteiro – o mundo da maternagem voluntária.

Adrianna Reis

Adrianna Reis de Sá é psicóloga clínica e professora universitária, com mestrado em Bioética pela UnB – Universidade Federal de Brasília. É especialista em saúde mental e autismo. Tem como área de estudo questões de gênero e direitos humanos e é palestrante sobre temas como autismo feminino, direitos humanos e maternidade. Adrianna é mãe de três filhas neurodiversas, a mais velha a ativista Amanda Paschoal. Instagram: @drica.reis.au